sexta-feira, 14 de março de 2008

ENFIA UMA MELANCIA NA CABEÇA* (MARÇO/2008)



Queres aparecer?! Enfia uma melancia na cabeça! A frase é do meu tempo de guri e nem sei se ainda existe. Possuía, obviamente, um sentido figurado. Eu nunca soube de alguém que tenha realmente enfiado uma melancia na cabeça. Aliás, nem um melão, decerto menos incômodo que a herbácea verde, de origem africana, muito comum entre nós, especialmente no verão.
Vi, é verdade, homens e mulheres utilizando colares em formato semelhante a cachos de banana, em algum baile de carnaval ou festa havaiana, depois de um lança perfume ou de muitos uísques, o que não justifica, mas pode explicar tamanho disparate. Mas melancia não, que aquilo deve incomodar, ainda mais na cabeça. Mas isso de se dizer “enfia uma melancia na cabeça” é muito antigo e parece agora fora de moda Hoje, quem quer aparecer deve se valer de outros métodos. Na linha dos alimentos, a cenoura e pepino têm feito alguns famosos, assim como certos “lambuzantes” - leite condensado e chantilli - ou ainda manteiga a la Marlon Brando e Maria Schneider no Último Tango, enfim quase tudo, menos a curcubitácea. Melancia não, é demais, mesmo para aparecer.
Mas o que fazer, então, pra se mostrar, pra ser notado? Aparecer no big brother? Criar um blog e (de preferência) falar mal dos outros? Isso até pode fazer sucesso, mas não é pra qualquer um. Mais comum é tocar um pagodezinho, namorar jogador de futebol, ou artista chegado a escândalo, ou tirar a roupa e colocar as fotos na rede. Tudo o que a gente já viu de quem realmente “apareceu”, nem que fosse por trinta segundos.
Mas, e aqui em Arroio Grande, que não tem artista, nem jogador famoso, nem sister pelada (não?), o que fazer pra aparecer? Ou melhor, de que lado ficar, entre as muitas divisões da cidade, para ser notado???
A favor da Votorantim ou contra o plantio de eucalipto? Defender o “progresso” ou o meio-ambiente? Concordar com a vitória da Promorar no Carnaval ou discutir o resultado? E para dizer as coisas publicamente, em qual jornal é melhor escrever? Na “Evolução”, no “Meridional” ou no “Correio do Sul”? Onde é que se aparece mais? No clic noturno, no gente que faz a acontece ou no... E na política? É melhor aparecer no PDT ou pertencer ao PP, os dois grandes da cidade? E o que dá mais Ibope, ser radicalmente contra o Prefeito e sempre falar mal dele ou estar o tempo todo a seu favor, como os puxa sacos de plantão? Hein? O que é melhor fazer para aparecer nesta terra do banqueiro Mauá? Pagar as contas em dia ou ser um eterno caloteiro e rir todos os dias dos que foram passados pra trás? Hein?!?
Sei não, sei não... O preço que se paga pra aparecer pode ser alto demais e às vezes acaba custando amizades, o trabalho, a própria história da vida da gente... Pois pra saber o limite entre o que fazer pra deixar de ser um simples anônimo e “aparecer” é preciso um mínimo de discernimento, um mínimo de autocrítica o que, convenhamos, dá um trabalho danado. Tem muita gente, aliás, que, entre fazer a tal autocrítica ou simplesmente aparecer, ainda prefere enfiar uma melancia na cabeça... e até mais.
* Na verdade, o autor não desconhece que a frase original é "pendura uma melancia no pescoço", ou algo parecido, mas a 'idéia' foi irresistível...

2 comentários:

Muleka disse...

Adorei a expressão Pedro... gostei do blog, espero q volte a postar em breve, se voltar dá um Oi lá no meu pra eu poder voltar aqui. Bjs

Pedro Jaime Bittencourt Junior disse...

Eu também gosto da expressão, seja ela essa daí - "enfia uma melancia na cabeça", ou a (parece) original: "pendura... no pescoço" ou coisa parecida.
Acho que essas coisas são bem daqui do Sul, do interiorzão, como a gente é, já que nascidos, criados e as vezes moribundos em meio a tal "estética do frio".
Bom teres participado, vou
procurar conhecer o teu blog logo.
Bjs.