quarta-feira, 27 de julho de 2011

BICHOS

Um leitor perguntou o que eu quis exatamente dizer quando escrevi, na última crônica, que “os tempos atuais estão nos fazendo mais ursos do que coelhos”, no que me pareceu uma evidente alegoria ao nosso cotidiano de comilões, ainda mais no grosso do inverno sulista.
Ursos, eu acho, comem bastante, e são lerdos e pesados, como nós costumamos ficar nesta época do ano, onde o exercício físico é substituído por chimarrão, cachaça e vinho, ou seja, tudo o que puder esquentar as nossas carcaças atrofiadas pelo frio.
Também andamos “entrouxados”, com pesados casacos de lá, semelhantes aos ursos, com as suas peles grossas.
Daí a comparação com esses animais – pesados, lerdos e comilões –, esperando o day after, ou o day end, que, naturalmente, virão, apesar da proposta de lei contra os estrangeirismos do deputado Carrion.
Já os coelhos, reza a lenda que o que mais fazem não parece ser definitivamente a “dedicação” predileta dos homens, sejam eles velhos ou jovens, nos dias atuais.
A preferência dos coelhos, hoje, pode até ser a segunda atividade mais apreciada pelos homens, depois do futebol, e a quarta ou quinta das mulheres – logo após a chapinha, a pose para a câmera digital, e o orkut e o msn, que costumam aparecer empatados em primeiro lugar.
Assim é que vamos levando o nosso cotidiano – como ursos e coelhos – no “velho lugarejo” que no inverno parece se “arrastar” ainda mais, deixando transparecer com maior amplitude os seus vícios do ano todo.
Um lugar – reflexo do País? – onde se fala muito de futebol e pouco de música, onde têm muita mateada e pouco teatro, muito bingo e pouco livro para ler.
Um lugar – reflexo do País? – onde o carro vale mais do que as pernas, a pose vale mais do que a palavra; um lugar onde as rádios e os jornais dão infinitamente mais espaço para os vereadores do que para os educadores, se é que entendem a comparação.
Um lugar – reflexo do País? – onde bichos de todas as espécies – ursos, coelhos, abutres, aranhas, peruas, piranhas... – acabam convivendo em perfeito compasso, onde lobo não come lobo e os leões às vezes se afrouxam para os veados.
Um lugar que nos cativa e nos amedronta, que nos repele e que nos atrai, que nos aprisiona tal qual um zoológico, feito para abrigar todos os bichos num mesmo lugar, do qual a gente não consegue se afastar, ou, definitivamente, não quer mesmo sair.

Nenhum comentário: