domingo, 26 de abril de 2020

FIM DE SEMANA NO ARROIO GRANDE (PARTE V)




Atenção, pessoal! Vamos ajeitar essa bagunça. Está demais, né?! Toda a semana é a mesma lenga-lenga. Vai ter Clássico, não vai ter Clássico… O Arroio Grande e o Internacional concentrando, o pessoal pressionando e até agora… nada! Pois chega! Ninguém aguenta mais tamanha enrolação. Vamos organizar. Para começar: em que década afinal nós estamos? Anos 1980, é isso? Então vamos pegar um clássico de futebol ocorrido nesta década e escrever sobre ele, ora bolas. Simples assim. Chega de engambelação. Qual a dificuldade? O que está atrapalhando? Bueno… Agora me apareceu um probleminha aqui, pelo menos um, para contar essa história. É que quando eu começo a digitar na máquina de escrever, uma Triumph alemã, que era do Pedro Bittencourt, comprada ainda no tempo que ele tinha escritório com o Paulinho Carriconde, ali na esquina do centro, onde, lá pelos anos 1920, foi o Hotel Arroio Grandense, de propriedade dos avós do Paulo, o Alfredo e a Augusta, que servia aos hóspedes quatro refeições por dia, todas elas acompanhadas do pão que chegava sempre quentinho da “Padaria Bagos”, do Ernesto Ferreira… Pois quando eu começo a digitar, se eu clico numa setinha que tem aqui no teclado, essa daqui ó <, parece que a máquina volta para o passado e o texto retorna imediatamente à década anterior, ou seja, para os anos 1970. E aí, amigos, muda tudo. E dale falar no Centenário do Arroio Grande, em 1973, e dale visitar a construção do asfalto, da BR 116, com o fim do trajeto que a gente fazia pela estrada velha em direção à Pelotas, parando para tomar café na rodoviária da Vila Matarazzo. E mais… Todo mundo volta a se empolgar com as noites no Restaurante Acapulco, do Cláudio Silva, e com os festivais de música no Marabá… E dale fazer volta no salão do Clube do Comércio, no Carnaval de 1975, com a Tininha de Rainha, e o Paulinho do Kbção fazendo sucesso, “roubando” o bife da janta da Adolphina fotógrafa, e saindo correndo no final do baile, só de frege. Daí seguimos para a segunda metade da década… Bebendo no Dom Kichope, do Gordo do Nei, dançando na Boate do Nézio ou na frenética discoteca Studio 13... Tempos ainda de roubar galinha na madrugada, sem receio de levar um tiro na bunda, para fazer a comida numa garagem qualquer, ou lá na “República do Salso”, na beira do arroio, onde passamos um tempão acampados naquela vez em que faltou luz por quase uma semana em pleno verão calorento do Arroio Grande… Bueno, mas daí já estamos quase voltando para onde estávamos, anos 1980. Ufa! Finalmente vamos poder falar sobre o Clássico. Bah, mas o problema, agora, é que se eu clico numa setinha que tem aqui, no teclado, essa daqui ó >, a Triumph Gabriele parece que vira uma máquina do futuro e o texto avança imediatamente para a década posterior, isto é, sai dos anos 80 e passa para a década de 90... E aí, meu amigo, a brochura é total. Haja tempos difíceis para nosotros, “que amávamos tanto a revolução”, como nessa década. Nós, que já havíamos perdido o movimento pelas Diretas, em 1984, perdemos também a eleição municipal de 1988, com o Plínio, e – não tem nem comparação com a política – tivemos a maior perda pessoal com a morte do Basílio, num estúpido acidente de carro, logo no início de 1990. Ah, e de quebra perdemos também a Top Set, num incêndio, em 1992. Então falar o quê desses anos? Se é só perda, perda, perda. É claro que se ganhou alguma coisa também… Como tudo na vida, a gente perde e a gente ganha… Mas essa transição aí foi cruel, amigo. Sabe como é que são conhecidas essas décadas? 1960, anos rebeldes; 1970, anos incríveis; 1980, anos icônicos; 1990, década perdida… E sabe por quê? Ah, não sabe? Sabe o que é sair do Festival de Woodstock para escutar Mamonas Assassinas? Sabe o que deixar de ver a Nastassja Kinski para ver a Roberta Close no cinema? Sabe? Ah, não tem nada a ver? Não tem, é? A gente ficou de falar no que, mesmo? Do futebol daqui? Pois vale a mesma coisa… Sabe o que é deixar de assistir o Ósca, o Oswaldo, o Wilson do Ari, o Marrequinho, o Adel, o Paulinho da Barraca e outros tantos jogarem, para torcer para uns caras de apelidos estranhos por aqui? Pois vou apresentar para vocês um ponta direita, um tal de Cabrito, que está começando. Será que alguém imagina que vai dar alguma coisa? Pois a mim ele não engana, nem a mim, nem o Arizinho, que nunca vai escalar esse gurizote. Até faço um compromisso aqui, uma aposta, com quem quiser. Se algum dia ele – esse tal Cabritinho – fizer um gol ou der uma volta olímpica pelo Arroio Grande, eu não digo que vou trocar de nome porque gosto do meu, mas me comprometo a escrever um livro só para relatar esse feito. Ah, e prometo contar – finalmente! – sobre os clássicos da cidade. Nem que eu tenha que entrar numa quarentena para elaborar essa história. Eu é que não vou embromar ninguém, né!
Imagens:
I – Cartão da Padaria Bagos (Acervo do Dr. Paulo Machado Carriconde).
II – Explosão na pedreira da Vila Matarazzo (Acervo da Profa. Flávia da Conceição Corrêa).
III – Carnaval no Clube do Comércio – 1975 (Acervo do autor).
IV – Tereza Cristina Silveira (Tininha) – Rainha do Clube do Comércio (Acervo de Gabriela Silveira Garcez)
V – Adolphina Pereira (Do livro “14 personagens e 5 vultos históricos do Arroio Grande”, organizado pelo autor, 2018, pág. 131).
VI – Cabrito (Wilson Silveira dos Santos), autor de dois gols, e Arizinho, dando a volta olímpica em Sobradinho, após a final do campeonato amador de 1991. (Do livro “O Clássico – Uma história de paixão”, obra do autor, 2011, pág. 218).

terça-feira, 21 de abril de 2020

FIM DE SEMANA NO ARROIO GRANDE (Parte IV) (em tempos de saudável aglomeração)


Sabe aquela? Da notícia ruim e da notícia boa? Pois vou começar dando logo a má notícia. Não teve Clássico! A partida foi novamente adiada. Eu sei, eu sei. Eu prometi aqui, no final de semana que passou, contar sobre os clássicos. Mas – que diabos! – o que eu posso fazer se os dirigentes inventaram de melar o jogo? Parece que fica um com medo de perder para o outro. Daí colocam mil empecilhos na Federação. E o jogo não saiu. De novo! Estamos no início dos anos 1980, quase cinco décadas de Clássico, e a rivalidade só aumenta por aqui. Entre torcedores, jogadores e cartolas. Bueno, mas uma hora vou perguntar para os meus amigos, o Papaco e o Silvinho Ferreira, porquê, afinal, o jogo de domingo não aconteceu? Aliás, falando no Tio Izo, acho que um dos primeiros tragos que eu tomei foi na festa de um ano daquele menino dele, o Sílvio Antônio, não faz nem meia dúzia de anos... Aquela tchurma de borrachos toda lá e eu, gurizão, no meio, me sentindo o cara. Comes e bebes a rolê. Quem servia era o Dé. Vinha quase sempre com duas bandejas, mostrando toda a sua habilidade, brincalhão e sorridente, como de costume. Quando a gente abusava e enchia a mão de salgadinhos, ou pegava logo dois copos de wuisque, para misturar ao guaraná, o Dé fechava a cara e soltava um esbravejo: “Mas o quê! Não vão parar de comer? Seus mortos de fome! Cadê a finééésse para vir para uma festa, hein, cadê?”… E nós nos finando de rir da finééésse espichadíssima do Dedéco. Pois é lembrando do Dé que eu trago agora a boa notícia. O Miss Mulata Zona Sul, organizado por ele, foi o maior suuuceeessso. O Dé está nas nuvens! Também não é para menos, o evento, que começou com pequenas pretensões, está agora ganhando repercussão em todo o Estado. Lembro que há pouco tempo, eu entrei no prédio da Câmara de Vereadores, e o Dé lá estava, utilizando o telefone cedido pela casa legislativa para fazer os seus contatos na promoção da festa. Quando eu fui cumprimentá-lo, o Dé, antes mesmo de me dizer bom dia, começou a gaguejar e soltou – “Cacaca…cacaca... Carazinho!” – conseguiu exclamar. Então, diante da palidez assustadora do meu amigo, eu perguntei: Que é que tem Carazinho, Dé? E ele, nervoso, sempre gaguejando: “Coo... coo… coonfirmou!”. Eu repliquei: Ué, mas tu não deverias estar feliz? Mais um município confirmando. E o Dé, exasperado – “Tu não estás entendendo, queridiiinho. É o vigésimo que me confirma! E onde que eu vou botar essa gente toda???”. Pois não é que ele, o Antônio Carlos da Conceição, vem arrumando lugar para todo mundo, e fazendo do Miss Mulata um evento que está dando o que falar nestes anos 80… Assim como os clássicos do futebol, que também vão continuar sendo muito comentados por aqui. Seja no bar do Eraldo, afinadíssimo com os Caturritas, seja no restaurante do Formigueiro, tradicional reduto dos Sacis. Por falar no Formigueiro, quem está seguido por ali, conversando, é o Gilberto Nobre, o barbeiro, criador do bloco de carnaval mais famoso da cidade, o “Papagaio da Rua Nova”, representado por bonecos enormes, semelhantes aos de Olinda, em Pernambuco. Têm o morcego, o gigante, o gorila e o próprio papagaio, entre diversos personagens que assustam e ao mesmo tempo encantam a garotada. Antes mesmo do “Papagaio”, o Gilberto já havia criado o “Bloco da Falsa Baiana”, lá pelo final dos anos 1940. Próximo a esse período, teve também o bloco “Sempre Reinando”, este parece que idealizado pelo Alvião Lúcio. Do carnaval daqui, aliás, daria para falar um monte… (Se algum dia existirem na cidade, Escolas de Samba além da Pé de Arroz, criada pelo Luizinho Fotógrafo, tenho certeza que vou torcer para a do bairro mais afastado. E, se deixarem, até de compositor do samba enredo eu vou me atirar, já vou avisando)… Mas, afinal, qual era mesmo o nosso assunto? Bah, lembrei, o Clássico! Que fica nesse “sai não sai” toda a semana… Mas, me disse o meu amigo, Gadanha, que no próximo domingo, ou no feriado de 1º de maio, vai ter jogo, de qualquer maneira. Bueno, se a partida não acontecer, vou falar dos clássicos que vi e dos que me contaram, neste quase meio século de disputa. Mas que eu estou louco para assistir a uma partida de verdade, ah, isso estou. E acredito que todos estejam querendo a mesma coisa por aqui. Ver um jogo de futebol, um concurso de misses, um show musical ao ar livre, uma festa num bar, bingo, carreira, gincana, quermesse, pernada esportiva, qualquer coisa que tenha povo! Será que a gente ainda vai ter que esperar muito tempo para fazer ajuntamento de novo? Hein?

O Formigueiro (Jandir Pereira dos Santos), com um abridor na mão, na primeira imagem, e segurando com um copo, na outra fotografia.
Gilberto Nobre, está de camisa quadriculada, ao lado do Formigueiro, na primeira imagem, e com um cigarro na mão esquerda, na outra fotografia. (Acervo do autor, por doação de Jari Kerchner Nobre-“Sabão”). A primeira imagem foi postada no blog autorretratopedro em 1º de novembro de 2012.
Pela ordem: Bloco Papagaio da Rua Nova (acervo de Antônio Augusto Añana-“Nico”); Bloco da Falsa Baiana e Bloco Sempre Reinando (acervo do autor por doações de Jari K. Nobre e Paulinho Lúcio, respectivamente).

domingo, 12 de abril de 2020

FIM DE SEMANA NO ARROIO GRANDE (Parte III) (sobre um domingo qualquer – para bem dantes dos tempos de agora)




Abril. Domingo de Páscoa. Dia de Clássico na Avenida. Arroio Grande x Internacional, Sacis x Caturritas. A maior rivalidade do futebol amador da região sul neste início dos anos 1980. Que espetáculo! Vou combinar com os guris para a gente olhar o jogo perto da charanga do Arroio Grande. Do outro lado não, lá não dá, de jeito nenhum! (Se bem que daquele lado… ‘Tão bonitas aquelas gurias do Oswaldo, hein! E as do Papagaio, então? Como estão ficando jeitosinhas. Bah!). Mas o negócio é se concentrar no jogo e torcer para o Saci ganhar novamente. (Apesar que eu ando com um pressentimento… O Ayres agora deu para bobear com aqueles chutes loucos, lá do meio da rua... Uma hora dessas ainda periga acertar um. Tomara que não seja hoje...). Mas, bueno… Desde que o Cine Marabá fechou que a diversão aos domingos por aqui, para quem não gosta de ficar olhando o Chacrinha ou o Sílvio Santos na TV, se tornou futebol, carreiras ou alguma quermesse na cidade. Falando em carreiras e nas quermesses, eu não curto muito, não. Para mim, a melhor coisa que tem nessas daí, principalmente nas penca, é o pastel. De goiabada ou de nata. Esse último, então, quando está bem quente, chega a escorrer e queimar os beiços. Loco de bom! Mas, voltando ao tempo do cinema... A minha época foi dos matinés. A gente ia lá para assistir algum filme do Tarzan, do Mazzaropi, ou um faroeste. Passava primeiro no Café do Machado para tomar uma pepsi e comprar diamante negro ou bala azedinha. Daí entrava para a sessão uns quinze minutos antes, a fim de treinar beijo no braço para não fazer feio com a guria convidada. Isso caso ela deixasse beijar, é claro, o que quase nunca acontecia. Que dureza! (Teve uma vez que eu consegui levar aquela loirinha de sardas que mora perto do Ginásio. Meu Deus! Na boca foi só um beijo, ou quase, já que foi meio de lado, de bico… Mas eu passei a sessão inteira beijando aquelas pintinhas do rosto dela. E ela ficou vermelha o tempo todo. Ôh, coisa linda! Juro que eu até pensei que iríamos casar no futuro… O filme? Nem vi direito. Mas tinha aquela música italiana – Al di la, del bene piu prezioso, ci sei tu – que me jogava para as sardas da loirinha cada vez que tocava. E ela ali, ruborizada. Que momento!). Será que o nosso cinema vai reabrir algum dia? E os festivais de música, voltarão? Alguém recordará, daqui a alguns anos, que esses guris que tocaram naquela novela das dez, da Globo, a Saramandaia, do tal conjunto Almôndegas, começaram se apresentando justo aqui, no Marabá? “Quando a meia-noite me encontrar junto a você...”. Alguém algum dia lembrará das figuras que divertiram os festivais de música do cinema? O Adão Delão, Simone, “a bailarina cobra”, a dupla Sará e Sereno, e – o maior de todos – Athanásio Ghantes, “El Gantecito”? Quem sabe o Arnóbio, depois de parar de trabalhar no Direito não escreve alguma coisa sobre esse tempo de agora? E sobre os nossos personagens, esses tipos. Daí a gente pode até fazer em forma de narração. Pega o Rui Vitória para interpretar e divulga nos alto-falantes da Voz dos Pampas, do Ganso. Que anuncia desde enterro até venda de mocotó, e com o Hino Nacional ao fundo! Como lembrou, esses dias, o Dr. Paulo Carriconde, quando o pai se encontrou com ele ali no Restaurante Progresso, do Seu Albino Peter. Bueno, mas do que era mesmo que eu pretendia contar hoje? Domingo... Putz, lembrei! É dia de Clássico! Bah, mas agora o espaço ficou curto e não dá para descrever um jogo dessa grandeza em meia dúzia de linhas, né. O Clássico fica adiado para o domingo que vem. Temos tempo, temos tempo… Aliás, sei não, mas continuo com um palpite esquisito. Tenho a impressão que, n’algum dia, a gente, sei lá por que razão, não vai poder sair para ver os jogos de futebol, para se encontrar na praça ou na esquina da Apolphina… Vai ter que ficar um bom tempo dentro de casa. Lendo e escutando histórias, como na época dos nossos avós. Apesar de toda a tecnologia que está surgindo, não sei porque, mas eu estou com a sensação, neste início dos anos 1980, de que daqui a alguns anos a casa da gente será o único lugar seguro em todo o planeta. Sei não, sei não...

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O meu abraço carinhoso a todas as pessoas citadas neste e nos demais textos que venho publicando. Aos familiares, maridos, esposas, aos amigos… Estamos num tempo em que precisamos externar e compartilhar o nosso afeto de alguma forma. A maneira que eu tenho é esta: escrevendo e esperando que vocês possam ler, aí, na casa de vocês. E se gostarem melhor ainda.
Sobre os Clássicos, fica para o domingo que vem. Prometo que desta vai ter jogo, com pênalti, gol, expulsões, confusão e tudo mais. Porque ao menos aqui na página ainda pode ter aglomeração.
#ficaemcasa


sábado, 4 de abril de 2020

FIM DE SEMANA NO ARROIO GRANDE – PARTE II (feito um sábado qualquer, para bem antes da quarentena...)



Bueno, a sexta-feira já foi, o negócio agora é levantar e beber alguma coisa para resolver de vez essa ressaca. Eu não devia era ter misturado... Também, que ideia foi aquela de passar no Travança para tomar a saideira ao clarear do dia? Paciência, o negócio agora é limpar essa secura com laranja ou limão. Será que o pai trouxe Crush, do Rio Branco? Senão, tá tranquilo, deve ter Minuano na geladeira. Mas o que me atrapalha mesmo é a mãe ter ido com ele para o Hermenegildo. E agora, bóia aonde? No Cilinho, no Élvio Brasil ou no Mulita? Os três locos de bom, baita comida caseira, mas daí vou ter que gastar, né, e hoje é sábado, dia de festerê por aqui… Já sei, vou filar o rango lá na Dona Alicinha. Ali é a minha segunda casa, ela e o Fuzuca são gente maravilhosa e, afinal, quem alimenta dez, uma boca a mais... O brabo é aguentar os guris, cada um achando que joga mais que o outro... Mas está resolvido, vou lá na Máximo Pereira, na “esquina dos bons”, como eles dizem. Putz, o problema é por onde eu saio daqui… Se for em linha reta, pela Júlio de Castilhos, vou acabar me encontrando com o Brenda, na frente do Quitandinha, e daí já começa o trago de novo. E dale a gente falar no Martha Rocha. Que falta nos faz aquela cabeça! Se o Seu Moacir Prestes aparecer, então o assunto vai ser um só: Brizola. Não o filho dele, o Luizinho, mas o ex-governador, o Leonel, que acabou de voltar para o Brasil. Quinze anos exilado, como é que pode? Bueno… Se eu for pelo Centro, a passada pela Top Set é mortal, ainda mais nesse horário com a turma do aperitivo toda por ali. O Jacques, o velho Cabrito, o Camarão… Não!!! (Falando no Marco Aurélio, periga até já ter se mandado para o Herval, apaixonado que está. Quando vê esse loco ainda se casa e acaba virando prefeito por lá. Quem é que duvida?). Bah, pelo Centro não dá, é melhor nem passar por perto… Se bem que se eu for pelo lado direito, têm o Formigueiro e, lá adiante, a casa do Campeão... Jesus! Como é difícil escapar da birita aqui no Arroio Grande. Imagina se um dia tiver uma epidemia qualquer, uma doença dessas que vem de longe, e a gente precisar ficar em casa, em quarentena? Kkk. Que ideia mais ridícula, isso nunca vai acontecer, estamos no início dos anos 1980 e em seguida já devem descobrir todas as curas... Bom, o certo é que vou almoçar lá no Seu Issa, daí já peço pr0o Cizico algum palpite para o jogo do bicho. Ele jura que é pé quente! Depois da bóia, o negócio é uma sestiada e esperar pela noite… Hoje é sábado. Dia de achar uma desculpa para deixar as namoradas em casa mais cedo e se mandar para o Guarani ou para o Canecão. Eu sei, eu sei... Podem censurar que eu aceito. As coisas estão mudando, e, dentro de pouco tempo, estúpidos como nós, que fazem isso daí, vão ouvir muitas e boas. Pela cafajestice, pelo machismo, pela indignidade, pela vileza, e sei lá mais o quê. Mas – que diabos! – o primeiro passo para a gente corrigir as nossas infâmias é assumindo-as, não é mesmo? Não? Tá bem, tá bem… E não é querer defender, mas se os bailes de campanha – o Baile do Diomar, o do Beca, o do Doca, o Baile do Salvador e outros – já não são a mesma coisa e alguns até nem existem mais, querem que a gente faça o quê? Que fique em casa assistindo a Sessão Coruja? (Se bem que uma sessão coruja do lado da namorada…). Está justificado? Também não? Vamos pular essa parte então – ataia, ataia… Bueno, amanhã, se o Pedro tiver retornado, deve assar a linguiça comprada no Artur, lá de perto da Morocha. Isso se não encomendou galinha ao molho pardo da Maria do Mário. Tudo porque é início de outono e o Duca e o João Mendes não começaram ainda a vender mocotó, a verdadeira comida dos domingos. Domingo…Dia também do futebol. PQP! Tinha esquecido. Vai ter Clássico na Avenida! Mais um baita programa no fim de semana... Bueno, se o Saci vencer mais essa eu vou para a carreata. Ao som da Farroupilha! (A cara que o maestro Joãozinho faz quando o Feijão chega para tocar com os zoinho apertados é algo...). Mas caso dê zebra e a gente perder, o negócio é ir para casa e sumir por um mês. Não dá para aguentar a flauta do Dante e do Prego no Café do Tritri. Ainda mais agora que surgiu a Difusora para transmitir os jogos… Grande João Saraiva! Sonhou décadas, lutou anos e conseguiu colocar uma Rádio no ar. Será que vai durar? Será que daqui a 30 ou 40 anos a gente vai ter algum motivo para não sair às ruas e permanecer quieto assistindo televisão ou escutando a rádio da nossa cidade a nos dizer: “Fique em casa!”? Será?


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Imagens: Clube Guarani – Blog da Sec. Mun. de Cultura. Post de Ricardo Freitas (Donga) em 14.09.2010.
Banda Farroupilha – Acervo do autor por doação de Paulo Ricardo Carduz Lúcio (Mingau).
Sobre os “clássicos” de futebol eu vou contar no outro domingo. Na terceira e última parte do “Fim de semana no Arroio Grande”, para bem antes da quarentena...
Enquanto isso, escuta as autoridades da saúde e só sai em caso de necessidade. Te cuida! #ficaemcasa

domingo, 29 de março de 2020

O BANCO DO BAR DO BIBICO



Entre os pecados que a gente comete ao longo da vida, existem alguns impublicáveis e outros que podem ser revelados aos poucos, como um pequeno furto, por exemplo.
O furto, todos sabem, é crime previsto no Código Penal – artigo 155 – com prescrição em quatro anos. Pois eu cometi um furto, um crime praticado há quase quatro décadas, quando furtei um banco de madeira do Bar do Bibico.
É um banco estilo “mocho”, com uma pintura em azul e preto, hoje já evidentemente desbotada, como somente eu posso declarar, pois que guardo a prova do meu crime intacta, no original, ao longo de quase quarenta anos.
O banco foi furtado, obviamente, pelo seu valor sentimental, já que foi retirado num impulso do Bar do Bibico, lugar onde eu passei inesquecíveis momentos da minha mocidade.
O Bar do Bibico, para quem não sabe, ficava na esquina da Rua Zeca Maciel com a Francisco de Paula Alves, e funcionava todas as madrugadas, com a cerveja bem gelada, uma clientela bastante eclética e a melhor música da cidade. Durou mais de 25 anos, de 1980 até 1997, se não estou enganado.
Sujeito quieto, tranquilo, extremamente gentil, Aldírio Jerônimo Freitas, o Bibico – também um ex-centroavante de mão-cheia – possuía (e ainda possui, pelo que sei) um apurado gosto musical, e era no seu Bar, e somente nele em todo o Arroio Grande, que a gente podia escutar Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque e músicos alternativos como Taiguara, Jorge Mautner ou Jards Macalé.
No lugar acanhado – uma pequena peça de esquina – a gente podia ouvir os discos em vinil do Bibico e outros que os clientes levavam. A regra era ficar em pé, encostado no balcão, mas dava também para sentar numa das poucas cadeiras da única mesinha do Bar. Alternativamente, havia dois ou três bancos que ficavam próximos à porta de entrada. E foi um desses bancos que eu furtei.
No banco do Bar do Bibico sentei eu, sentou o Donga, sentou o Nadir, que sempre que saía da Top Set passava por lá para tomar uma saideira. No banco do Bar do Bibico sentou o João Bimbim, sentou o Marca Diabo, sentou o Pajá, um preto velho, de nome Osmar dos Santos Cardoso, que me deixou a eterna frustração de jamais tê-lo convencido a conhecer o mar, negando-se a viajar comigo para a Praia do Hermenegildo.
No banco do Bar do Bibico sentou o meu irmãozinho Tuíca, e sentaram outros irmãos que fiz, como o Basílio, o Lila, o Plínio... No banco do Bar do Bibico sentaram grandes músicos e artistas locais, e algumas gurias da nossa sociedade que, não raro, se “extraviavam” dos próprios namorados pelo prazer de dar uma fugidinha e beber uma gelada às escondidas no “cult-noir” que era o Bar do Bibico.
Pois esse banco eu não queria perder, assim como não quero perder da memória o tempo que passei por lá, pelo Bar do Bibico, um lugar que trouxe para mim inúmeros ensinamentos que somente a vida é capaz de proporcionar.
Porque o Bar do Bibico me deixou a lição suprema de que um furto pode revelar bem mais do que a simples ilegalidade; um furto pode conter afeto, carinho e ternura, sentimentos que, ao contrário do crime, são imorredouros e não prescrevem jamais...

sexta-feira, 27 de março de 2020

FIM DE SEMANA NO ARROIO GRANDE (para dantes do confinamento, para quarenta anos atrás...)


Bueno… Se essa dor no joelho não passar, azar, não vou deixar de sair hoje. A gente deve ficar em casa quando tem motivo. Para não pegar uma gripe forte e não transmitir para os outros, por exemplo… Mas hoje é sexta-feira e a programação promete. O Arroio Grande cresceu muito neste início dos anos 1980... Para começar, vou aproveitar esse princípio de noite e comer um lanche no novo bicão da pracinha. Aquele cachorrão com a ervilha escorrendo junto à maionese quente e empapando o saquinho que protege o pão. Para depois a gente lamber a embalagem e as gurias acharem nojento. Loco de bom! O Paulinho do Kbção adora. E ainda vem com duas salsichas! Dali, estômago forrado, vou até o Dovinha comentar o jogo da tarde com os guris… Mas, voltando ao Cabeçãozinho, quando é que ele vai nos convidar pra comer camarão à milanesa no Nacib novamente? Que coisa boa! E o Adão Miranda ainda pode se empolgar e cantar um bolero à capela. “Tanto tiempo disfrutamos de este amor, nuestras almas se acercaron tanto asi, que yo guardo tu sabor, pero tu llevas también, sabor a mí...”. Espetacular! Já me deu vontade de escutar música. É certo que depois do Bar dos Esportes vou dar a tradicional passada pela Top Set para encontrar o Basílio. (Sempre que saio de casa, aqui perto do presídio, em direção ao Centro, e passo pela Biblioteca Pública, fico pensando: será que um dia vai ter uma sala em homenagem ao poeta Leonel Fagundes ali? Ou será para o Lauro Machado a deferência? Ou para o louco do Pedro Bittencourt? Não, esse não, está bem vivo e é muito novo ainda...). Bom, se o Basílio estiver disposto, acaba pegando o violão, daí passamos para o salão do Forninho. Então cantaremos: “Vai, minh’alma vai, te esconde lá, onde o delírio destes tempos não tem mais lugar… Kênia...”. Que maravilha! Um beijo pra quem fica, América! E para beber, o que vai ser? Cachaça com butiá, cuba libre, um hi-fi, quem sabe wuisque – se o Edy do Solano der uma força, né, porque tá caro! – ou uma cervejada a rolê? Qualquer coisa o Eraldo pendura… Tudo, menos aqueles martinis e camparis que só o Bessa toma. Bebida doce, como é que pode!?! Mas o “Diabo” nem sempre está por aqui e já pode até ter se mandado para Pelotas atrás de um rabo de saia. Lá também é bom. Ainda mais que estão ganhando força os barzinhos nativistas e o louco tá começando a ficar conhecido no circuito… Mas hoje eu não posso ir, ainda mais com o Chevette queimando óleo e com o radiador vazando e colado com chiclete… Vou ficar pela terrinha mesmo. Volta é que não falta pra dar. Primeiro o bicão, depois o Dovinha, a Top Set… Será que nesta sexta-feira vai ter Mezanino? Se tiver, bingo! Todo mundo vai para lá. Bah, pena que a Studio 13 fechou faz pouco tempo. Ali era bucha, festerê garantido todo o final de semana. Aquele som meio psicodélico que o Vano colocava, o Zorginho Travolta dando show no centro do palco, uma mulherada na arquibancada, e a gente olhando aqueles trocinho e pensando que ‘tavam dando bola pra gente… Bah, mas sem pegar nada é brabo! O negócio é pensar em outra coisa para se alimentar no fim da noite, na hora que bater a larica... Outro lanche! Aonde? (Dizem que o Mauro Marques está pensando em abrir um bar, e que vai se chamar “Mostardão”. Bom, se o Alemão fizer isso, é outro que não se roga no violão, e deve encostar o Tuíca na cubana, daí o negócio vai se estender até de madrugada…). Ao encerramento, combalido, mas sinais vitais preservados, é certo que terminarei no Bibico, o tradicional fim de linha antes de voltar para casa. E ali, lá pelas cinco da manhã, vou pedir pro Jerônimo rodar Terra, ou Cajuína (“existirmos a que será que se destina”) do Caetano Veloso, ou alguma coisa dos Mutantes ou do Jards Macalé, naqueles elepês que só ele tem…

DOS LUGARES DO ARROIO GRANDE...



Em 24 de março de 2008, há doze anos, portanto, Arroio Grande comemorava os seus 135 anos de emancipação política, num cenário bem diferente deste de agora, com festa, música e o lançamento de um livro que marcou época na cidade.
Abre parêntese: a diferença de contexto, esclareça-se desde logo, a fim de evitar maledicências, deve-se, por óbvio, a pandemia do novo coronavírus, que impede, hoje, qualquer celebração pública na cidade, como de resto impede que se festeje qualquer coisa no país inteiro. Fecha parêntese.
O livro, por mim idealizado e organizado, foi escrito em parceria com outros autores da localidade, e teve uma evidência bem maior do que se esperava, tornando-se um sucesso absoluto.
O Treze lugares e meio do Arroio Grande e outras referências foi realmente um marco na literatura local, pois ali os escritores amadores, os pesquisadores e os historiadores paroquianos perceberam que era possível produzir e publicar algo sobre a nossa cidade, já que existia, sim, um público ávido por conhecer as coisas da “Terra de Mauá”, um lugar com a sua historiografia pouco divulgada, não obstante o esforço de autores como Álvaro O. Caetano, que editou o seu “Município de Arroio Grande”, no ano de 1945, e de Flávia da Conceição Corrêa, organizadora da revista “Tempos”, no ano de 2004. (O jovem Victor Faria Schroder publicaria o seu “A produção do espaço: Geografia histórica da cidade de Arroio Grande – RS”, em Pelotas, também no ano de 2008).
Mas o 13,5 lugares do Arroio Grande e outras referências optou pelo registro através de um outro gênero, a crônica (foram quinze delas), que permite a narrativa curta, liberando a imaginação, mas sempre dentro da perspectiva histórica proposta.
A obra, lançada há exatos doze anos, esgotou rapidamente os seus exemplares, valendo repetir as palavras do organizador ao seu encerramento: “Um livro raro e ao mesmo tempo simples, uma obra que envolve, mas que também liberta, um trabalho que transcende a todos que dele participaram, e que, apesar de modesto, deixa um verdadeiro legado à memória e a história do Arroio Grande. Quem viver, apreciará!”.
O traço do Donga para ilustrar a crônica sobre o "Redondo da Praça", 
criação do bruxo Edu Caboclo Damatta no Treze Lugares 

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O LIVRO NOS MUSEUS


MUSEU MAUÁ - ARROIO GRANDE - RS
MUSEU HISTÓRICO DE MELO - CERRO LARGO - ROU
MUSEU POSTA DEL CHUY - ROU

Está começando 2019. Faz apenas um mês que o livro 14 personagens e 5 vultos históricos (e outras personalidades e tipos populares) do Arroio Grande foi lançado, em uma noite memorável, no Centro de Cultura do município.
Nesse período, o livro vem sendo distribuído sob a responsabilidade das secretarias de cultura e de educação do município, sendo destinado à comunidade em geral.
De lá para cá, o livro passou por muitas mãos dentro da cidade, e também viajou, e muito.
Atendendo a inúmeros pedidos de conterrâneos que residem fora do município, o livro encontra-se agora em Jaguarão, no Herval, em Pedro Osório, no Cerrito, em Canguçu, em Pelotas, Rio Grande, Santa Vitória do Palmar, Chuí, Camaquã, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Rio de Janeiro e Recife, entre outras cidades, segundo foi comunicado ao organizador.
A obra foi apresentada também em alguns museus do Uruguay (fotos), e ao menos um exemplar está sendo embarcado para Portugal, outro para a Espanha e outro mais para a Bélgica; quer dizer, a história do Arroio Grande está empreendendo a viagem dos nossos colonizadores no sentido contrário, ultrapassando o Atlântico do ocidente para o oriente.
O livro cumpre, portanto, com o seu objetivo, que é o de divulgar parte da nossa história; foram impressos 1.000 exemplares que praticamente se esgotaram em apenas 30 dias.
Resta, agora, a possibilidade de leitura, pelos interessados, por empréstimo junto à Biblioteca Municipal, ou através da biblioteca de alguma escola, pois para esses estabelecimentos foi destinado um número expressivo de unidades da obra.
Se assim não for, existe a alternativa de uma edição virtual, talvez já em 2019.
Ou, quem sabe, uma 2.ª edição impressa e atualizada, em que o organizador possa, inclusive, corrigir os equívocos da primeira. Quem sabe?
Por agora, fica a satisfação pelo reconhecimento de um trabalho coletivo, organizado, e que dá pistas que deverá se tornar marcante em meio a “história da história” do Arroio Grande. Que assim seja!
(Imagens - João Alberto D. Santos - membro da Biblioteca Pública Pelotense)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

MEU AMIGO MARCO, MEU AMIGO CAMARÃO!


Ele não foi apenas o advogado, o prefeito, o político… Não foi simplesmente o homem, o marido da Magda, o pai da Morena, da Mariá e do João. Não! Marco Aurélio Gonçalves da Silva, o “Camarão”, nascido em 11 de março de 1949 e falecido neste 2 de dezembro, foi, acima de tudo, um grande personagem, um dos maiores desta zona de fronteira, conhecido que ficou em Herval, no Arroio Grande, em Jaguarão, em Pelotas, enfim, por toda a região sul e em grande parte do Estado.
Carismático, polêmico, irreverente, Camarão foi um divisor de águas na cidade onde impulsionou a sua carreira política, e Herval – lugar que escolheu para viver no início dos anos 1980 – nunca mais seria o mesmo depois da sua primeira eleição como prefeito (1988), numa campanha antológica, com direito a discursos acompanhados de banda de música e de foguetório, e diferenciada por caminhadas memoráveis que levavam os seus apoiadores ao delírio.
Eleito novamente no ano de 2004, Camarão transformou-se numa das maiores lideranças políticas da zona sul e, como sói acontecer com esse tipo de personagem, despertou amores e rancores entre os moradores de Herval, sendo adorado por populares, mas visto com reservas no ambiente das classes sociais mais abastadas da pequenina cidade.
O seu lema de administração – É preciso sacudir Herval! – ecoou pelos quatro cantos da terra que abrigou o poeta Pedro Canga, e Camarão tornou-se popular em todos os lugares – do Bote ao São Diogo, do Mingote à antiga estação Basílio.
Conhecido de grandes lideranças políticas do Estado e do País, Marco Aurélio esteve próximo de vice-governadores, como o socialista Beto Grill, de governadores, como o trabalhista Alceu Collares, de presidentes, como a petista Dilma Rosseuf, e de políticos estrangeiros como o blanco Sergio Botana, intendente de Cerro Largo, Uruguay, tendo franco acesso aos gabinetes dos políticos, especialmente os do campo “à esquerda”, já que Camarão trilhou sempre os caminhos do trabalhismo de Jango e de Brizola.
Marquito, como costumávamos chamá-lo, transitava por todos os ambientes: entre estudantes e intelectuais, em meio a trabalhadores e vagabundos, e entre operários e servidores, e boêmios e prostitutas… Mas era, acima de tudo, no meio do povo, entre as pessoas mais simples, que ele se sentia bem.
O Camarão foi grande, foi gigante, foi dos maiores.
“Que descanse em paz!” – é como se costuma dizer para quem parte.
Pois, para o Camarão, tal expressão decididamente não tem nenhum valor. O agitado, polêmico e irreverente personagem deverá ficar como um punhal encravado sobre as nossas consciências, com a voz forte e incisiva a nos provocar, dizendo: Enquanto houver desigualdade neste país briguem por mim, lutem por mim enquanto existir injustiça no mundo!
Podes deixar que nós brigaremos, sim, Camarão, a tua, a nossa luta, não vai parar. Definitivamente, é agora, mais do que nunca, que ela tem que continuar.
Nas imagens: 1) Pedro Bittencourt, Camarão e Magda Nunes, 1981; 2) Pedro Bittencourt, Camarão e Paulo Carriconde, anos 1960; 3) Camarão, Verônica Camerini e Pedro Bittencourt Jr, anos 2000.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O “OUTRO”


No ano passado, mais ou menos por esta época, eu recebi um prêmio que muito me orgulhou, o “Troféu Oscar Falcão”, uma homenagem às pessoas que fizeram algo pelo esporte em Arroio Grande. A minha inclusão entre os indicados deu-se, segundo disseram, em razão da autoria do livro O “Clássico” – Uma história de paixão, publicado em 2011. Fiquei duplamente honrado: pelo reconhecimento da obra, mas também porque o troféu leva o nome do Oscar Falcão, o extraordinário goleiro do Esporte Clube Arroio Grande.
Eu nunca escondi de ninguém que o grande ídolo da minha mocidade, no futebol, foi ele, o “Ósca”, de quem muito se disse e se escreveu, aqui na Cidade e pelo Rio Grande afora. O professor Rui Carlos Ostermann, por exemplo, ao conhecer o Ósca numa ocasião em que esteve no Arroio Grande, resumiu para o jornal Zero Hora, no ano de 1982: “Chama-se Oscar, escrevo assim embora pronunciem o nome com acento grave no “O”. Já passa dos trinta e vai ficar como um mito encravado nas conversações intermináveis de Arroio Grande e adjacências”.
O Ósca sempre foi o meu ídolo, o mito, a lenda. Até porque, por ser torcedor Sacy, eu nunca aceitei comparações com outros jogadores, o meu herói era o Ósca e somente ele, para mim ele era absoluto, inigualável, incomparável. Os outros – os do “outro lado” – que escolhessem quem eles queriam idolatrar, ora bolas!
E que bom que eu sempre pensei assim, que bom que eu nunca quis dividir a minha idolatria.
Porque do “outro lado”, lá, do lado “deles”, também havia um craque, e – que provocação! – também goleiro, e – que diabos! – tão fabuloso, tão espetacular, tão maravilhoso quanto o meu ídolo, o herói que eu nunca quis colocar sob disputa com ninguém.
Do outro lado esteve, por anos e anos, vestindo a sagrada camiseta do Grêmio Esportivo Internacional (embora tivesse atuado também pelo E. C. Arroio Grande), o extraordinário goleiro Osvaldo Britto, um multicampeão amador e profissional que terminou a carreira consagrado como um dos maiores goleiros da região sul e do Estado.
No tempo em que o Osvaldo foi goleiro do Internacional eu jamais aceitei vê-lo exatamente como ele era – sóbrio, competente, irrepreensível na posição. Afinal, ele sempre se mostrou como uma “ameaça” ao meu ídolo, e o meu ídolo era o Ósca e – pronto! – não tinha espaço para mais ninguém.
Uma ocasião, em 1981, o torneio de Futebol de Sete do G. E. Internacional proporcionou a mim, como coadjuvante, jogar ao lado dele, o grande Osvaldo Britto, e conhecer um pouco mais do jogador, do craque, mas também do homem que durante anos eu conhecera apenas superficialmente. No torneio, em que jogamos juntos pelo time do Kbção (e fomos campeões!), eu tive a oportunidade de conviver com um cidadão do bem, um camarada maravilhoso, com quem aprendi lições sobre o futebol e sobre a vida.
Por tudo, eu guardo até hoje, 36 anos depois daquele campeonato, com o mais absoluto carinho, uma fotografia em que aparecemos juntos – o Osvaldo, eu, e todos aqueles que compuseram a imagem daquele time campeão. Ali surge imponente, não o meu grande ídolo – o Ósca –, mas um sujeito de camiseta negra, de luvas bem ajustadas, expressão serena, o extraordinário goleiro que foi Osvaldo Britto, o homem que fez com que durante a mocidade eu me recusasse a colocar a minha idolatria em disputa.
E eu tenho convicção de que agi corretamente, assim como tenho certeza de que o Ósca, esteja onde estiver, entende perfeitamente o significado de cada palavra deste texto. 
Porque as lendas não se comparam, nem com os grandiosos, nem com os fantásticos, nem com os espetaculares. Uma lenda a gente não divide nem com quem - como o gigante Osvaldo Britto - já virou lenda também!

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

UMA PROFESSORA

O nome da minha primeira professora é Marlise, Marlise Esteves. Não sei se ela já carregava o “Silva” no nome quando iniciou como educadora na Escola Dionísio de Magalhães em meados dos anos 1960, mas isso não importa, pois o que interessa mesmo, ao menos neste texto, é o nome pelo qual eu sempre identifiquei a primeira professora que tive: Marlise, simplesmente.
Também não sei como a Marlise – neta do lendário estancieiro Otávio Esteves – chegou até a Escola Dr. Dionísio, um colégio da periferia do Arroio Grande naqueles tempos. Mas sei, porque isso é inesquecível, de como eu fui parar lá, em seguida aos meus seis anos de idade, nos idos de 1967.
O meu pai, o advogado e poeta Pedro Jayme, sempre criativo e inovador, decidiu que nós – a minha irmã Nazine e eu – é que deveríamos escolher a escola onde iríamos estudar. Então resolveu passar de colégio em colégio, até que nós, pequenos, ficamos encantados com o Dionísio, uma escolinha de madeira, recém-pintada, situada numa rua tranquila embora longínqua, pois que distante cerca de dez quarteirões da nossa casa.
A Escola fazia pouco que tinha sido inaugurada, e recebeu o nome em homenagem ao médico e ex-prefeito da cidade Dionísio de Magalhães, falecido em 1956. Nós não sabíamos da origem do nome, nem da história do médico, mas ficamos encantados com a imagem da escolinha, aconchegante e bonita, como, aliás, deveriam ser todas as escolas, especialmente aquelas que recebem crianças para educar.
Pois foi a escolha mais acertada e feliz que nós poderíamos fazer.
Ali, na então periferia do Arroio Grande, eu, um filho da classe média da cidade, pude conhecer gente simples, guris e gurias de vida modesta, mas com uma honestidade de princípios e retidão de caráter que somente aqueles que recebem educação exemplar conseguem assimilar.
Ali, numa parte remota do Arroio Grande, eu, que conheceria mais tarde a mesa farta das famílias tradicionais da cidade, pude valorizar a simplicidade de um prato de arroz com leite, a dignidade de um arroz com feijão, a generosidade de uma tigela de sopa. Ali, onde quase terminava o Arroio Grande, eu comecei a descobrir o inigualável valor das coisas comuns.
Pois foi também ali, na pequena escolinha, que eu conheci a importância de uma grande educadora, de uma pessoa correta, justa, preocupada apenas em transmitir valores e que me deixou lições para a vida inteira. Ali, na Escola Dionísio de Magalhães, eu pude ver tudo isso na Marlise, a minha primeira professora.
No próximo dia 15, Dia do Professor, nestes tempos difíceis para a classe dos docentes, eu, que tenho mãe, irmã, mulher e sogra professoras, gostaria de dirigir à Marlise – e em assim o fazendo a todos os educadores – o maior dos agradecimentos, pela boa influência que o primeiro professor pode ter na formação de um aluno e de um cidadão.
Porque dela aproveitei os ensinamentos que fizeram o que de mais generoso pode haver em mim; já os defeitos são produto unicamente dos desvios e dos descaminhos em que pela vida eu possa ter me extraviado. 
Tenho por ela, pela minha primeira professora, tão absoluta afeição e tão extraordinário apreço, que quando com ela cruzo mal levanto os olhos para cumprimentá-la, em sinal de respeito e em definitiva consideração a tudo o que representou para a minha formação, ao repassar princípios que permanecem inabaláveis dentro de mim até os dias atuais.
Por isso, à Marlise a minha gratidão, o meu carinho e o meu agradecimento: muito obrigado por tudo, minha querida e inesquecível primeira professora.
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(Fotografia: Alunos da Escola Dionísio de Magalhães, meados dos anos 1960. Publicação de Bianca Porto na página do Grupo Defensores do Patrimônio Histórico e Cultural de Arroio Grande-RS)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O ARQUIVO VIVO DA DITADURA

Nestes tempos em que alguns cogitam a volta dos militares ao Poder (?), papel que está fora daquele que a Constituição Federal (Art. 142) reserva às Forças Armadas, parece interessante fazer uma referência ao personagem que melhor conheceu os meandros do último ciclo da ditadura no Brasil (1964–1985), ele que não era nenhum general, nem tampouco político, muito embora estivesse próximo a todos eles – dos militares, dos ministros, de deputados e de senadores – durante os 21 anos de governo de exceção no país.
Chama-se1 Heitor Aquino Ferreira, era capitão (depois major) do Exército e tinha 28 anos quando o golpe que derrubou João Goulart foi deflagrado. Desde então, tornou-se assistente do general Golbery do Couto e Silva – este a eminência parda dos governos militares no período. Já a partir de junho de 1964, Heitor começaria a escrever um diário, passando a relatar, com riqueza de detalhes, os bastidores das principais decisões da época.
Os arquivos de Heitor Ferreira, que se misturaram com os arquivos do general Golbery, formaram um acervo de 5 mil documentos, entre anotações, bilhetes ou simples rabiscos, que o capitão ia pacientemente juntando ao longo do período em que foi secretário, primeiro de Golbery (de 1964 a 1967), depois de Geisel (de 1972 a 1979), passando ainda pela Petrobrás e pelo Projeto Jari, nos governos Geisel e Figueiredo.
Heitor manteve, ainda, por mais de duas décadas, “um diário manuscrito que em 1985 somava dezessete cadernos escolares com cerca de meio milhão de palavras, suficiente para formar uma obra de 1500 páginas”. “O mais minucioso e surpreendente retrato do poder já feito em toda a história do Brasil”2, sendo que o seu autor ainda é um desconhecido da imensa maioria dos brasileiros.
O detalhe em tudo isso é que Heitor Aquino Ferreira, filho de Abelar Joaquim Ferreira e Lídia Aquino Ferreira, é gaúcho, nascido em 21 de dezembro de 19353 em Olimpo – Arroio Grande, RS, sendo que nunca se soube de nenhuma notícia dele por aqui.
Com trajetória militar iniciada no final dos anos 1950, (Heitor já era tenente em 1961, quando do episódio da Legalidade), o homem que formou o maior arquivo do governo militar em duas décadas parece não ter deixado marcas da sua infância e da sua juventude, restando acerca dele algumas interrogações.
Primeiro: sendo Heitor Ferreira nascido na Vila Olimpo, atual município de Pedro Osório, que até 1957 pertencia, como distrito, ao Arroio Grande, teria vivido a sua mocidade aqui ou próximo daqui? Quem, do Arroio Grande, chegou a conhecer pessoalmente Heitor?
Segundo: Por acaso alguma vez, o homem que possuía o “mais minucioso e surpreendente retrato do poder já feito da história do Brasil”, a grande testemunha de um quarto de século dos acontecimentos do País, foi procurado por autoridades da sua terra, isto é, do Arroio Grande, ou mesmo de Pedro Osório, para uma palestra, uma conferência, ou simplesmente para ilustrar com um pouco de conhecimento histórico as cabeças espremidas destes torrões?
1 - São escassas as informações atuais sobre Heitor Ferreira, que tornou-se tradutor de livros. O jornalista Ricardo Boechat (Revista ISTOÉ) publicou, no final de 2008, que “o ex-major Heitor de Aquino Ferreira está internado na UTI de uma clínica no Rio. Desde dezembro ele luta contra um distúrbio imunológico que ataca rins e pulmões, com risco de morte”. Já um artigo de Saul Leblon, publicado na Revista “Carta Maior”, em dezembro de 2013, dá a entender que o militar estaria morto. O jornalista André Petry, entretanto, em conversa pessoal com este autor em março de 2017, garantiu que Heitor Ferreira está vivo, tendo inclusive frequentado a redação da Revista Veja no ano de 2016.
2 - Elio Gaspari – A ditadura envergonhada, Companhia das Letras, 2002, pág. 15.
3 - Existem três informações convergentes sobre a idade de Heitor Ferreira: uma, que teria 28 anos em 31/03/1964 (Elio Gaspari – A ditadura encurralada, pág. 15), outra que estaria com 38 anos em março de 1974 (Elio Gaspari – A ditadura derrotada, pág. 412), e outra que contaria com 47 anos quando foi exonerado por Figueiredo, em 1983. A data de seu nascimento foi retirada do Blog Genealogia e História na Fronteira Sul do RS, post de 8 de agosto de 2014. 
Heitor Ferreira, com Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel
Heitor Ferreira com Shigeaki Ueki e Mário Henrique Simonsen 

domingo, 17 de setembro de 2017

O GITA FICOU ENCANTADO!

(Para o conterrâneo e amigo João Garcia, em homenagem as suas palavras publicadas no jornal Correio do Sul, edição de 15.09.2017)

Arroio Grande, 9 de setembro de 2017. O Ginásio de Esportes Gita, o popular “Gitão”, estava lotado quando, por volta da meia-noite, as luzes se apagaram e um evento até então previsível ganhou ares superiores e transformou-se radicalmente num espetáculo poucas vezes visto na cidade.
De repente, o ruído das torcidas parou, o burburinho das arquibancadas cessou, e os acordes de uma canção ecoaram por todo o Ginásio Municipal.
No meio da quadra, o saxofone do Clodomar, o popular “Orelha”, surgiu leve, despacito, não aparentando ser manejado somente por ele, senão que parecia ter um pouco o auxílio das mãos sensíveis do Nenê Balhego, quem sabe a maior virtuose da música que esta terra conheceu.
Atrás dele, preparados para executar o Hino Riograndense, o Jelson Domingues e o Alexander Ferreira também não pareciam ser somente eles, pois traziam alguma coisa do Weymar ao bandoneon e do Galinho Perogildo ao violão, enquanto que o canto do Maicon Paiva reviveu Basílio Conceição, no faceiro vanerão em que se transformou o lindo Hino da Cidade.
Para completar, a Banda Militar, executando o Hino Nacional, relembrou a histórica Banda Farroupilha, e o Maestro Joãozinho ressurgiu moderno para fazer a plateia dançar um pedacim ao ritmo de você partiu meu coração.
Na quadra, na grande final de Futsal, dois times de rapazes, alguns até garotos, pareciam repetir os feitos dos velhos craques do passado do Arroio Grande.
De um lado, o goleiro Oscarzinho lembrava o seu pai, o lendário Ósca, enquanto o menino Todynho, pelo outro lado, parecia ninguém menos que o antológico Osvaldo Brito, o extraordinário arqueiro que rivalizou com o Oscar os maiores duelos que a cidade já viu.
Os demais – Lorenzo, Marcelo Vidal e Glikson; Bido, Marquinho e Matheus – não jogaram somente por eles, tinham alguma coisa indecifrável dos grandes craques do Arroio Grande de outros tempos; quem sabe a técnica de um Wilson do Ari, a elegância de um Adel, de um Zé Marfisa; quem sabe a tenacidade de um Chirú, a entrega de um Ademir, de um Caminhão, mas sempre, sempre, a vontade de vencer de um Ayres, de um Betinho, de um Marrequinho e de tantos outros entre os que ainda estão e os que já não estão mais entre nós.
Os técnicos Batata e João Victor foram estrategistas e motivadores, como Arizinho e Charuto no passado, e os gigantes Henri e Teteu, cada qual pelo seu lado, foram grandiosos como o próprio Gita e como o mito Ari Lúcio. E olha que ainda faltou El Mago Mincho...
Por tudo, o resultado do título do Manda Brasa sobre os Meninos da Vila só poderia vir mesmo como veio, um 5 X 4, faltando apenas 20 segundos para terminar a prorrogação.
Satisfeitos, o Prefeito Henrique e a Secretária Ivana comemoravam o resultado de um das melhores realizações esportivas da Cidade, enquanto a atuação do Baltazar e dos demais assessores lembrou a dos grandes organizadores dos eventos de futebol do Arroio Grande.
Em algum lugar de um outro plano, Bonifácio Ubirajara da Porciúncula Nuñez, o velho Gita, deve ter sorrido encantado, pois o seu nome e a sua história de desportista estavam mais uma vez sendo honrados.
E quando já era madrugada do outro dia, o público agradeceu e pode enfim se despedir daquela inesquecível noite de 9 de setembro de 2017, o dia em que uma simples partida de futebol foi muito mais que um jogo de futebol, e fez a Cidade dormir feliz, satisfeita e orgulhosa da sua própria grandeza.
(Publicado originalmente no jornal "A Evolução", edição de 15.09.2017, a pedido do jornalista Jorge Américo Borges)