sexta-feira, 27 de abril de 2012

CERTAS MANHÃS DE ABRIL(*)

Final do mês de abril do ano de 1990 (**).
Em poucos dias, o Rogério Espíndola (Geco) e o autor desta página deixariam Arroio Grande e Pelotas e partiriam para Lisboa - Portugal, numa aventura que teve início depois de uma madrugada em que os dois beberam mais de duas caixas de cerveja - na "Beth Bolacha" (localizada na XV de Novembro, esquina Voluntários à época) -, esperaram o banco abrir, rasparam as respectivas contas bancárias e, no limite, compraram as passagens rumo à capital dos lusitanos, numa viagem maluca, sem qualquer previsão de retorno.
Sabedor da partida dos amigos, o Carlinhos Bessa Martins (que havia metido na cabeça que era "devedor" do autor da página em razão de uns serviços que este lhe prestou como advogado), resolveu "pagar" os honorários, estipulados (por ele mesmo) inicialmente em "duas sacas de feijão, uma saca de milho, dez quilos de cebola e cinco de tomate", tudo culturas que o Bessa jurava que iria produzir na chácara da namorada, interior de Pedro Osório.
Frustrada a "safra", o Carlinhos resolveu trocar o "pagamento", e decidiu quitar os honorários patrocinando um churrasco de despedida para o seu advogado e alguns amigos de Arroio Grande e de Pelotas, todos reunidos em Pedro Osório, mais precisamente num clube do Cerrito, distrito de Pedro Osório à época.
Na foto (sempre da esquerda para a direita - de cima para baixo) os personagens de um encontro único, inesquecível:
Eraldo Lopes Machado, Pedro Bittencourt Jr (Juninho), Fábio Bonneau, Vanfredo Ghan (Ganso) e Luís Carlos Gastal;
Ricardo (Donga) Freitas, Birinha (Gita), João Luís Garcez, Rogério (Geco) e Plínio Cavalheiro Salles;
Gordo (P. Osório), Mário (P. Osório), Sílvio Lima (Silvinho), Carlinhos Bessa Martins, Jacques Chiachio, Otacílio (Lila) Cortez e Claudionir (Kiko) Coelho.
Por diversas vezes pensei em promover o reencontro desta turma (antes que outros resolvam fazer como o Jacques, que resolveu nos deixar...); por diversas razões, porém, a ideia não vingou, no próximo abril, quem sabe...
(*) Certas canções de abril é o título de uma composição inédita, feita em parceria entre o autor da página e o Basílio Conceição, quando moraram juntos em Pelotas, na primeira metade dos anos 80.
Como todos sabem, o Basílio morreria no início de abril de 1990 (vítima de acidente de carro, em Rio Grande), cerca de um mês antes do encontro de Pedro Osório, que reuniria muitos dos seus amigos.
(**) Até hoje não tenho certeza se esse encontro foi no último domingo de abril, ou no primeiro domingo de maio de 90, quem lembrará???

sábado, 21 de abril de 2012

POESIA-MEMÓRIA

Publicado em abril de 1965, o soneto "Ruínas" (acima) transformou-se num clássico da poesia local. O autor, Lauro Machado, poeta sensível e delicado, colaborou com vários poemas para o jornal "A Evolução" e outros periódicos da região.
Lauro Machado aparecerá futuramente aqui na página, numa pequena biografia, como "personagem do Arroio Grande".
Por enquanto, ficam os versos de "Ruínas" (dedicado à mãe do poeta, Augusta), para a apreciação dos leitores.
Ruínas
(À Minha Mãe)
Velha choça deserta, desprezada,
Vencida, mas de pé, em desalinho,
Tu lembras uma enferma abandonada
Num leito de destroços no caminho.
...
Tão triste, comovida e torturada,
Infeliz como um pássaro sozinho
Tu recordas assim desconsolada
A solidão daquele passarinho
...
Que dolorosa predestinação!
Tu vais vivendo como vive a gente
De tédio, desencanto e solidão...
...
E nós, também acumulando escombros,
Vamos sentindo, amarguradamente,
Os destroços da vida sobre os ombros.

(Lauro Machado - A. Grande, abril de 1965)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

PERSONAGENS DO ARROIO GRANDE (VII) - JOÃO TEIXEIRA, O "MARTA ROCHA"

A sequência do verso "minh'alma clama a liberdade em que vivi", onde o Basílio diz - "sabe que existe outro caminho por aí", na canção Delírio (postagem abaixo), tem a sua origem numa frase de João Fernandes Teixeira - o Marta Rocha - figura ímpar da Cidade, que viveu em Arroio Grande de 1942 até 11/12/1978, quando faleceu precocemente aos 36 anos de idade.
"Eu sei que existe outro caminho por aí!" - no original - era uma frase que o Marta Rocha utilizava com certa frequência, referindo-se ao período da ditadura militar que se instalou no Brasil (1964-1985), e que, especialmente no período em que o Marta viveu o seu amadurecimento político, literalmente ditava os caminhos das pessoas na Cidade, no Estado e no País.
Em razão disso, isto é, da aspereza e do confronto característicos do período, Marta Rocha costumava apontar o dedo para as pessoas - seus interlocutores ou meros assistentes dos verdadeiros shows de oratória que ele proporcionava - disparando a expressão contundente, cunhada na luta de ideias que a esquerda travava contra a ditadura política e policial de então.
Inteligente e falastrão, irreverente e beberrão*, o Marta - que tinha esse apelido em razão do longos cabelos loiros, que os amigos comparavam aos da conhecida beldade baiana Marta Rocha, eleita Miss Brasil no ano de 1954, mas que se tornaria famosa por perder o título de Miss Universo nos EUA por alegadas "duas polegadas a mais" (uma versão divulgada por um jornalista da Revista "O Cruzeiro", jamais comprovada, mas que mexeu com o orgulho nacional) -, João Teixeira foi um tipo extraordinário da Cidade, especialmente pelo que representou no cenário político, como "guru" da esquerda local - do antigo trabalhismo ao MDB.
Ficaram célebres os discursos que Marta Rocha e Pedro Jayme Bittencourt - ambos exímios oradores - desfilaram nos palanques da cidade nos anos 60 e 70, quando, se utilizando de extraordinários argumentos retóricos, desafiavam o medo infundido pelos poderosos da época, e conclamavam as pessoas a buscarem "outro caminho" para o Arroio Grande, para o Rio Grande e para o Brasil, especialmente através do voto.
Assim os ativistas políticos ajudaram a eleger os irmãos Lauro (1963) e Ney Cavalheiro (1972) como Prefeitos de Arroio Grande (únicos prefeitos "de esquerda" eleitos na cidade em mais de 5 décadas), assim eles encantaram gerações de espectadores que não cansam, até hoje, de exaltar os dotes de oratória da dupla de tribunos.
De ofício "Rábula" (espécie de advogado que pratica a profissão sem ser diplomado), Marta Rocha foi também desportista, inclusive presidindo o Grêmio Esportivo Internacional logo em seguida à passagem dos primeiros 25 anos do Clube Caturrita (1971), mas foi mesmo como ativista político e como mentor intelectual de parte da geração da sua época que João Teixeira acabou lembrado, e, também, por um certo mistério que a sua personalidade "anti-social" deixou, fruto, ainda, da sua breve mas marcante passagem como personagem da cidade.
*Um pouco antes da morte de Marta Rocha, o autor da página, então com apenas 17 anos de idade, e quase sempre acompanhado do músico Basílio Conceição, costumava encontrar-se com o famoso personagem no Bar Quitandinha, localizado bem no cruzamento das ruas Dr. Dionísio de Magalhães e Júlio de Castilhos, para, entre discussões intermináveis e beberagens homéricas, testemunhar todo o talento e o extraordinário poder de retórica do homem que marcou toda uma época do Arroio Grande.
- A página ainda está esperando uma fotografia melhor do Marta Rocha, prometida que foi por amigos e familiares dele; a foto lá de cima é um “recorte” e mostra o Marta ao fundo do Bar “Meu Cantinho”, provavelmente entre os anos 1967/1969.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

DELÍRIO

Basílio Conceição (1953-1990).
Foi mais ou menos por esta época (começo de abril) que o Basílio morreu, no já distante ano de 1990.
De lá para cá o Basílio - bancário, comerciário, ruralista; poeta, músico, compositor; diabo, louco, inconsequente; amigo, parceiro, irmão - virou ícone, virou mito, virou Basílio Conceição.
Vinte e dois anos depois, o recado dele - do músico Basílio - ainda permanece forte, agudo, contundente, como nas estrofes de Delírio, uma das primeiras composições conhecida do arroiograndense, um poema gerado ainda nos tempos difíceis do final dos anos 1970, início dos anos 80, tempos de solidão, de incertezas, de busca por caminhos, de sonhos de liberdade.
Os versos de Delírio são um símbolo do cancioneiro do "Diabo", uma marca que se apresenta atual ainda hoje, mais de 30 anos depois da sua criação.
Para quem quiser conhecer...
Delírio
"Minha glória é estar só
e não querer mais do que isto:
revirar este deserto;
minha sombra pelas ruas,
não refaz nenhum tormento
vive apenas ao acaso...
Mas naõ me venham com rosas
nem compaixão
'inda prefiro a flor do campo
e esta negra solidão.
Quero tão somente a paz
e a imensidão das madrugadas,
este amor calamidade...
me sentir latente e estar
na mente insana dos amigos
que infernizam a cidade.
Minh'alma clama a liberdade
em que vivi,
sabe que existe outro caminho
por aí
e vai...
volvendo novos vendavais pelo país
é um delírio que me invade o coração
e me faz feliz!"

sábado, 31 de março de 2012

HÁ 30 ANOS...

1982 - O processo de redemocratização do país, iniciado com a Anistia de 1979, avança. Em 15 de novembro, a oposição, em conjunto, irá conquistar maioria na Câmara dos Deputados. Os movimentos sociais assumem o seu papel e vão começar a pedir Eleições Diretas; o movimento estudantil retoma a sua trajetória e a UNE, proscrita de 1966 a 1973, busca a reconstrução da sua Sede, assim como a UEE, que quer recuperar o seu espaço como mostra a carteirinha abaixo, editada, por coincidência, num 31 de março, dia do golpe militar de 64.
O Aldyr Schlee, o Angelo "Zanatta", o Carlos Ricardo, o Luís Carlos Gastal, o Henry Petry Jr, o Nélson Harter e outros colegas da época ainda devem lembrar desse documento.
Terão a carteirinha ainda?

sábado, 24 de março de 2012

DETENÇÃO DE PODER

Os piores são os professores de matemática, seguidos ‘mui’ de perto pelos de física. Depois, vêm os mecânicos, os economistas e os advogados; por último, os técnicos em informátic, estes atualmente já meio contraditados pelas próprias informações da internet.
Todos eles representam um tipo de profissional que detém o conhecimento inacessível para a maioria dos mortais, e, o que é pior, todos eles fazem de tudo para que ninguém, ou – vá lá! – muito pouca gente, se aproprie desse conhecimento.
São os “detentores do poder”, aqueles que conhecem o que de mais complicado existe: as fórmulas matemáticas e físicas, os motores dos automóveis, as contas públicas, os pergaminhos legais e os transistores dos computadores.
Eu nunca soube de nenhum professor de matemática ou de física que fizesse questão absoluta de simplificar aquelas fórmulas complexas expostas no quadro negro. Normalmente, eles se colocam a uma distância segura dos alunos e quando interagem com a platéia é para sentenciar:
“É bem fácil, muito simples, mas se vocês não entenderam até agora...”.
O mecânico é semelhante, só muda de localização. Normalmente, ele sai debaixo de um carro (após uma meia hora de espera do cliente, parado na porta da oficina...), depois escuta (quase sempre olhando para o chão) a informação sobre o problema do veículo, para, finalmente, declarar: “Deve ser... (tem o clássico ‘a rebimboca da parafuseta’) daqui a duas horas 'ta resolvido”. Dez horas depois, quando o carro finalmente fica pronto, a gente paga e vai embora, sem saber exatamente o que aconteceu, mas pelo menos sai feliz com o conserto.
Já os economistas, os advogados e os técnicos em informática têm o mesmo tipo, de falar muito, quanto mais possível, de maneira que a gente se atrapalha logo quando está começando a compreender o que eles dizem, até ficar novamente sem entender nada.
Detenção de poder – todo mundo gosta de exercer, ao menos por um dia, nem que seja como “leão de chácara”, que decide ali, na hora, no ato, se o
‘di menor’ pode ou não entrar no cabaré.
Detenção de poder – estar com um microfone na mão, usar um espaço no jornal para criticar todo mundo, tudo com a certeza de que as pessoas atingidas não terão a mesma oportunidade.
Detenção de poder – os professores de matemática e de física têm, os economistas e os advogados têm, os mecânicos e os técnicos em informática têm, os radialistas e os jornalistas têm, quase todos possuem, ainda que pelo conhecimento que adquiriram ao longo das suas vidas como profissionais.
Já os políticos são aqueles que melhor experimentam essa sensação de “detenção do poder”, muito embora a imensa maioria deles não saiba nada de matemática, nem de física, nem de mecânica, nem de economia, nem de informática, nem de jornalismo, nem de direito, nem de nada!
Mas, afinal, se até os “leões de chácara” podem...

terça-feira, 20 de março de 2012

O GOVERNADOR EM TEMPOS DE CÓLERA

Tentando construir uma imagem poética:
A relação entre o magistério estadual e o governo Tarso Genro lembra um pouco aquela briga entre Fermina Daza e o Dr. Juvenal Urbino em "O amor nos tempos do cólera".
Começou pela falta de sabonete no banheiro, transitou pelo terreno das acusações, culminou com a ruptura (não definitiva) da relação, prolongando-se em acertos e desacertos pela vida inteira.
E isso apenas pela acusação de quem foi o responsável por "faltar o sabonete" no banheiro.
Imagina quando, além do sabonete, ameaça faltar o papel, o gás, a luz, a água, o arroz, o feijão... Definitivamente, não há poesia que aguente!

sexta-feira, 16 de março de 2012

A CIDADE HEROICA NÃO PODE SE RENDER A GOLPISTAS!

JUSTIÇA DÁ UMA LIÇÃO AOS GOLPISTAS DE JAGUARÃO!!!
Parabéns à Democracia - A vontade popular deve ser RESPEITADA!
Mas a luta não para por aqui, quem já viveu a experiência sabe: os golpistas, os covardes, a canalha sempre volta, ou (ao menos) tenta voltar.
A vigília tem que ser permanente - Jaguarão possui um passado glorioso, seus filhos não merecem ver manchada toda uma história pela leviandade de um golpe articulado por aqueles que, não possuindo qualquer valor, pretendem ver desrespeitada a vontade popular.
Democracia sempre, golpe NUNCA MAIS!!!

quarta-feira, 14 de março de 2012

DUAS MULHERES


Esclarecendo as referências feitas aos textos da escritora Bruna Lombardi (São Paulo, 1º de agosto de 1951) e da poetisa americana Elizabeth Bishop (8.2.1911 - 6.10.1979) insertos na crônica “Sobre mulheres e mulheres” (postagem abaixo), o primeiro – escrito por Bruna – tem o título de “Uma mulher”, e o segundo, de autoria de Bishop, chama-se “A arte de perder”; a transcrição integral de ambos segue agora para apreciação e deleite dos leitores. (O poema “A arte de perder” possui diversas traduções que lhe alteram completamente o sentido; esta, a do post, é a versão preferida do autor da página).


UMA MULHER (Bruna Lombardi)


Uma mulher caminha nua pelo quarto

É lenta como a luz daquela estrela

É tão secreta uma mulher que, ao vê-la,

Nua no quarto, pouco se sabe dela


A cor da pele, os pelos, os cabelos,

O jeito de pisar, algumas marcas,

A marca arredondada das suas ancas,

A parte onde a carne é mais branca...


Uma mulher é cheia de mistérios

Tudo se esconde: os sonhos, as axilas, a vagina...

Ele envelhece e esconde uma menina

Que adormece onde ela está agora


E o homem que descobre uma mulher

Será sempre o primeiro a ver a aurora.



A ARTE DE PERDER (Elizabeth Bishop)


A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.



Perca um pouco a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.



Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.



Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.



Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.



Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.”

quinta-feira, 8 de março de 2012

SOBRE MULHERES E MULHERES

(Para a Maria Eduarda, para a Marília Kosby, para a Míriam Marroni, e para a Verônica, naturalmente)

A minha mulher não nasceu para ser dona de casa, mas sim para ser a dona da casa, e dona das ruas e das estradas, e dos campos e das cidades, e dos arroios e dos mares, também.

A minha mulher nasceu para ser dona de tudo – o que é elevado e o que é pequeno, o que é forte e o que é frágil –, a minha mulher nasceu para ser dona de si própria, da sua razão e dos seus sentimentos, e para ser a dona do meu coração, também.

A minha mulher nasceu para ser Maria, nasceu para ser poesia, nasceu para ser política, para aprender e para ensinar, mas nasceu, a minha mulher, sobretudo para ser mulher, todos os dias.

Ela – a minha mulher – nasceu para ser exibida, nasceu para andar bem vestida, e para andar com pouca roupa quando está de bem com o corpo; a minha mulher nasceu para estar de bem o corpo, nasceu para viver de bem com a vida.

A minha mulher nasceu para ser Bruna Lombardi (“uma mulher é feita de mistérios, tudo se esconde: os sonhos, as axilas, a vagina, ela envelhece e esconde uma menina, que permanece onde ela está agora...”), nasceu para ser Elizabeth Bishop (“tantas coisas contém em si o acidente, de perdê-las, que perder não é nada sério; perca um pouco a cada dia, aceite austero, a chave perdida bestamente, a arte de perder não é nenhum mistério...”); a minha mulher nasceu para ser diva, nasceu para ser cinema, nasceu para ser teatro, ela é pura dramaturgia, todos os dias.

(A minha mulher não nasceu sequer para ser minha, ela não veio ao mundo para ter qualquer dono, nem para viver como uma bolachinha decorativa de um pacote qualquer; a minha mulher – eu já disse – nasceu para ser dona de si mesma, e isso é tudo!).

Por isso é que, todos os dias, quando eu olho para a minha mulher – que se chama Maria, que se chama Marília, que se chama Míriam (e que se chama Marcela, que se chama Mariela, que se chama Maristela...), e que se chama Verônica, naturalmente – eu percebo que “de mulher” não é possível saber, sobre mulheres não existem verdades (“você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir, como pode querer que a mulher vá viver sem mentir”); uma mulher a gente deve apenas acariciar e celebrar, e pedir-lhe licença e tempo, e dedicar a vida inteira para tentar descobri-la, no pouco que ela tem de cada mulher, no muito que ela tem de si mesma – indócil, picante e orgulhosa – simples e eternamente.

domingo, 4 de março de 2012

PEDRO E PAULO

A posição no campo era a mesma – ambos centromédios, na segunda metade dos anos 70.
A camisa também – os dois nº 5, camisetas vermelhas, do Esporte Clube Arroio Grande e do Sport Club Internacional –, mas a trajetória profissional, o sucesso e, principalmente, os cabelos, quanta diferença...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

DEU NO JORNAL

Atenção Senhores Doutores Juízes!
Pretores, Juízes, Desembargadores, Ministros da Suprema Corte;
juízes de Futebol, jurados e julgadores de todas as espécies.
A notícia aí de cima* é o resultado do julgamento popular, e não adianta contrariar, pois, como diz o Arnaldo, a regra é clara!
* Jornal "A Evolução" - edição de 25/02/12 - pg 03.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A MENORIDADE AMEAÇADA

Uma antiga questão, da existência ou não do que se chama de “alma coletiva”, vem a tona sempre que surgem fatos impactantes que alteram o cotidiano de uma cidade.
A pergunta que se faz é bastante simples, embora de difícil resolução. Pergunta-se: é possível rotular-se uma cidade inteira com base na inclinação de parte dos seus habitantes? Existem cidades “trabalhadoras”, existem cidades “preguiçosas”?Existirão cidades “atuantes”, cidades “omissas”? Ou, o que é bem mais complexo: Existem cidades saudáveis? Existem cidades doentes?
A questão é instigante e quem tiver a melhor resposta que jogue aí na rede para que a gente possa buscá-la. E tentar entender.
Tentar entender, por exemplo, o que está acontecendo com Arroio Grande, a “Cidade Simpatia” – um lugar tranquilo, hospitaleiro, acolhedor–, que, de repente, vem se transformando, nos últimos tempos, no centro das notícias das páginas policiais do Estado, mas não por acontecimentos simples, triviais, senão que por fatos bastante fortes, contundentes, gravíssimos. E, o que é pior, quase todos acontecimentos protagonizados por menores de idade – infantes, adolescentes, jovens –, aqueles, enfim, que deveriam exprimir o futuro da cidade.
Menores infratores, é certo, mas também menores vítimas de uma sociedade doente, que aposta que a saída do anonimato pode estar na execução de um tiro, de uma facada, no apertar de um botão da net para ser notado, imitado e até – pasme-se! – invejado. Resultado: exibicionismo e crimes.
Hoje se agride, se fere, se mata, se faz qualquer coisa para ser “curtido”, “comentado”, “compartilhado”. Somos uma sociedade demente, que compartilha simplorice, comenta futilidades e curte desgraças como nunca. Estamos, sim, doentes, e, o que pior, assistimos ao resultado da nossa enfermidade sem esboçar qualquer reação ante a intolerância, a agressividade e a loucura que repercutem principalmente nos jovens que deveriam protagonizar o futuro da sociedade.
Sim, porque quem está ameaçado não somos nós, velhos inúteis, que fracassamos na construção do mundo “justo e igualitário” que sonhávamos para os nossos filhos. Quem está ameaçada é a menoridade, é a adolescência, a infância, que não soubemos cuidar, em meio ao nosso permanente prazer pela futilidade, por “curtir”, “comentar” e “compartilhar” a vida dos outros muito antes de cuidar da nossa.
E, nesse bisbilhotar contínuo do “quintal do vizinho”, permanecemos paralisados, sem mostrar qualquer reação, sem fazer nada que preste, apenas espiando, espiando, espiando...
E, quando não se mostra reação, quando se vive na superficialidade, ou a gente está doente de preguiça, ou a gente está doente de caráter, restando esperar para saber mais tarde afinal qual é a pior dessas moléstias.
De qualquer modo, ambas as doenças doem, e a dor que vai cortar mais fundo na alma da cada um é, às vezes, apenas uma questão de tempo.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

OUTROS CARNAVAIS

Carnaval em Arroio Grande. Quem gosta que vá para as ruas, ocupar os camarotes ou as calçadas da Dr. Monteiro. Mas são outros carnavais, esses de agora. Não são como os da época do Gilberto - o barbeiro Gilberto Nobre (na 1ª foto abaixo, com um dos seus inúmeros filhos) - já falecido há alguns anos.
O Gilberto foi protagonista e grande articulador dos melhores carnavais de rua do Arroio Grande.
Com ele, surgiriam o "Bloco da Falsa Baiana", no final dos anos 1940 (2ª foto); depois, o barbeiro criaria o mais tradicional bloco de carnaval da Cidade: o famoso "Papagaio da Rua Nova" (3ª foto), grupo carnavalesco que deve ter durado cerca de meio século (com os seus grandes bonecos, ao estilo de Olinda e Recife: o Gigante, o Morcego...), para desaparecer próximo exatamente ao final do carnaval de rua, perto da morte do Gilberto, há cerca de duas décadas, mais ou menos.
Hoje, resta o carnaval das Escolas de Samba, já decadente também, sem apresentar o esplendor que escolas como a Promorar, por exemplo, traziam para a Dr. Monteiro nos primeiros anos da década passada (4ª foto), e que hoje não conseguem mais se repetir - em originalidade, em beleza, em magia - aos olhos dos espectadores da cidade.
Por saudosismo, talvez, por pura nostalgia, afinal todos sabem que o melhor carnaval será sempre "o carnaval que passou"...