segunda-feira, 26 de setembro de 2011

DON FRUTOS, ALDYR SCHLEE E O PRÊMIO JABUTI



O livro do Aldyr Schlee, Don Frutos, está entre os finalistas do Prêmio Jabuti, na categoria Romance.
O Jabuti – que já está na sua 53ª Edição - é um prêmio oferecido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) aos melhores livros de cada ano, no caso atual, ainda do ano de 2010.
Mais do que o prêmio vale, é claro, a indicação, pois o Jabuti, pela repercussão nacional que possui, proporciona uma visibilidade maior ao trabalho do escritor, o que, mesmo para nomes consagrados como Schlee, ainda e sempre é necessário.
A literatura se faz de leitores, e os leitores se fazem ante a notícia da literatura.
Don Frutos, para quem não conhece, é o grande romance do escritor jaguarense, baseado na vida do primeiro Presidente Constitucional do Uruguay, José Frutuoso Rivera (1788-1854), que viveu no Brasil por cerca de meia década, passando grande parte do ano de 1853 em Jaguarão, na fronteira com o Uruguay.
Com um trabalho que mescla ficção e realidade, fruto de extensa pesquisa, Schlee relata e divaga sobre esse ano em que Rivera viveu em Jaguarão, em especial os dias do inverno de 1853, até a saída do General do Brasil, o seu regresso ao solo oriental e a sua morte, próximo à Vila de Melo, em 13 de janeiro de 1854.
Don Frutos não é um livro fácil, pelo contrário, é bastante complexo, difícil até de resumir. Antes, é preciso realmente ler a obra de Schlee, saboreá-la lentamente, e preparar-se para o final, o final de um romance, igual ao final da vida, como descrito nas derradeiras palavras de Rivera ao Capitão Pedro Onetti, que o acompanhava, também antes do fim:
“Sabes, Pedro, que acabada na morte a vida, só o que fica é a memória?
Me diga outra cousa, Pedro: quem se lembrará de tudo isto?
- De quê, General?
De tudo, de todos... De mim, desde o começo até hoje, e deste tempo que estivemos em Yaguarón?

...
Pois quem ler Don Frutos, não esquecerá, Aldyr, de nada!


A vida do General D. Fructuoso Rivera (1788-1854) - Primer Presidente de La Republica Oriental del Uruguay -, contada no Romance de Aldyr Schlee, Don Frutos.

sábado, 24 de setembro de 2011

MUITO, MUITO, POUCO, POUCO



Passou o 20 de Setembro, um dos três momentos festivos da cidade: a Semana Farroupilha, o Carnaval e o Futebol, este último concentrado hoje nos jogos da Seleção local de Futsal.
A isso se resume a “movida arroio-grandense”, o nosso movimento, a nossa diversão. E isso, dependendo de como se queira ver, é muito, mas pode ser também pouco, dependendo de como se queira ver. Muito muito, ou muito pouco: escolham!!!
Mas, diante disso, isto é, do que se têm, existe ainda quem tire partido e aproveite para deitar falação sobre “o bem do povo”, “a satisfação do povo”, “o contentamento do povo”.
A alegria dos ingênuos medida pelos espertos.
Ah, Arroio Grande, o que estão fazendo contigo? Não percebes, por acaso, que os discursos da tua “tela quente” de segunda-feira – feios, sujos e malvados! – estão te atirando cada vez mais para o cada vez menos? Ou por acaso não sabes que os teus jovens – não tendo em quem se espelhar – já debocham de ti, e que o “AGDEPRÊ” é hoje mais do que uma simples atração no twitter, mas um verdadeiro recado para onde estão te levando as tuas pobres lideranças paroquianas?
O que afinal comemoraste nesta semana? O que sabem esses teus guris além de montar matungo, de colocar cachaça em garrafa pet e de se esbaldar em carne gorda? Onde estão os teus verdadeiros líderes, conhecedores da história, da tradição e dos ideais farroupilhas? Onde está o teu Bernardo Pires, o teu Barbosa Lessa, ou – vá lá! –, onde está o teu genérico do Paixão Côrtes?
Mas, tudo bem, o 20 de Setembro passou e logo tem futebol, e ano que vem tem Carnaval, e depois mais Semana Farroupilha, tudo para os nossos “gurizes” se esbaldarem de novo na cachaça e na cerveja, e no carreteiro e na carne gorda.
Ah, e no ano que vem tem eleição também, e desta vez sem o Jorginho, que fez as melhores Semanas Farroupilhas, que fez os melhores carnavais e a melhor Seleção da história da cidade. E se tudo o que ele fez, junto com a Mariela – e fizeram muito! –, ainda é pouco, imagina o que pode acontecer se eles vierem a ser substituídos por uns maturrangos qualquer, desses que não sabem distinguir um lobo-guará de um guaipeca, nem em política e nem em estética? Já pensaram?
Eu tenho pensado nisso e estou preocupado com o que pode vir por aí. Porque, além da Semana Farroupilha, do Carnaval e do Futebol, ainda é possível sonhar em viver numa cidade onde o discurso oportunista venha a ser substituído por uma atitude verdadeira de transformação, para o real “bem estar” de um povo que também tem o direito de querer mais, muito mais, além da Semana Farroupilha, do Carnaval e do Futebol.
Eu penso assim e acho que tem mais gente pensando assim também. Resta saber onde e de que lado eles estão.

Fotos ilustrativas: Desfile de 20 de Setembro - Site da Rádio Difusora

terça-feira, 20 de setembro de 2011

REVOLUÇÃO FARROUPILHA - O LENÇO FARRAPO




Um dos maiores símbolos da Revolução Farroupilha (ou Guerra dos Farrapos - 1835/1845), o Lenço Farroupilha foi idealizado pelo major Bernardo Pires, um gaúcho de Canguçu, diante da ideia preconizada pelos oficiais republicanos de dotar o movimento de um símbolo mais oficial para substituir o lenço colorado já adotado espontaneamente pelos Farrapos.
Encomendado, via Montevideo, em maio de 1842, para ser confeccionado nos Estados Unidos, a primeira carga do lenço foi descoberta e toda ela queimada (ainda dentro das caixas) pelos imperiais no Porto de Rio Grande; posteriormente, os lenços (provenientes de uma segunda encomenda) chegaram no acampamento volante dos republicanos em Piratini em dezembro de 1843, podendo os Farroupilhas finalmente apreciar a famosa quadrilha existente na indumentária:
"Nos ângulos do continente
O pavilhão tricolor
Se diviza sustentado
Por liberdade e valor".

Peça histórica envergada com orgulho pelos revolucionários já no final do decênio heróico (entre 1844 e 45), não se sabe quantos exemplares chegaram a ser utilizados após a grande queima de 1842, assim como é desconhecido o numero exato de lenços sobreviventes aos mais de 150 anos passados da Revolução Farroupilha.

O historiador Antônio Augusto Fagundes, o Nico (cujo artigo sobre o Lenço Farroupilha publicado na década de 1980 embasa este texto), fala na existência conhecida de apenas sete lenços originais: - um em Rio Grande, no acervo do CTG Mate Amargo, um na Biblioteca Pública de Pelotas, três no Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre (um deles foi repassado pelo Governador Tarso Genro ao Museu Farroupilha, de Piratini, inaugurado na semana passada), um na coleção da Profª Vera Stédile, de Caxias do Sul, e um em uma escola não identificada de Porto Alegre - sem computar, entretanto, o lenço existente no Castelo de Pedras Altas, do Dr. Assis Brasil, cuja fotografia ilustra este texto, com o que teríamos o registro de oito lenços originais conhecidos em todo o Rio Grande.

Neste dia 20 de setembro, a data máxima dos gaúchos, este pequeno esboço sobre o Lenço Farroupilha, objeto ainda pouco estudado mesmo entre os historiadores que se debruçaram sobre a Revolução dos Farrapos ao longo dos anos.
Nas fotografias:

1) Réplica do Lenço Farroupilha adquirida pelo autor desta página;

2) Lenço original, existente no Castelo de Pedras Altas, fotografado pelo Dr. Sérgio Canhada, em visita que fizemos ao local há cerca de dois anos.

O Sérgio, aliás, escreveu magnífico artigo sobre o Lenço, que não consegui encontrar (que fim levou o blogdocanhada?) para reproduzir aqui.

sábado, 17 de setembro de 2011

LA REVANCHA*

Dia desses, vi no jornal uma fotografia do Jader Faria jogando xadrez num torneio na cidade. Lembrei imediatamente do tempo em que eram disputados os campeonatos de xadrez e de sinuca no Clube do Comércio, numa época em que a entidade ainda aglutinava os seus sócios quase que diariamente, embora já tivesse perdido a tradicional Biblioteca conservada por cerca de meio século.
Mas ainda havia boa diversão no Clube: jogo de cartas, de xadrez e de bilhar, e o Bar que, se já não era mais explorado pelo velho Solano, ainda servia bebidas e aperitivos honestos aos sócios do Comércio.
No xadrez, destacavam-se o Jorge Flôor e o Dr. Nilo Conceição, entre muitos outros de excelente categoria. Na sinuca, além do Herculano Ghan – um mestre do taco –, do Vinícius e do Prego, tinha também a turma mais nova, o Émerson, o Plínio, o Paulinho Freitas, todos bons conhecedores dos caminhos das mesas do Clube.
O Jader Faria costumava disputar os dois torneios – de xadrez e de bilhar – e era exímio jogador em ambos. Uma ocasião, eu, guri de uns 17 anos de idade, me inscrevi para disputar o campeonato de sinuca do Clube. Por azar, a minha partida de estréia caiu logo contra o Jader, e eu fiquei esperando na certeza de que iria me despedir do torneio já na primeira rodada.
Foi então que me ocorreu uma ideia. Já que os campeonatos eram disputados ao mesmo tempo, e tendo o Jader uma partida de xadrez marcada para o mesmo instante da sinuca que deveria jogar contra mim, acertei com a dupla que jogaria depois a inversão da rodada; assim, com a concordância dos disputantes, fiquei aguardando, enquanto o Jader enfrentava o seu adversário no xadrez – o temível Jorge Flôor.
O detalhe é que o Jader jogava o xadrez bebericando um bom whisky e quanto mais à partida contra o Jorge demorava, por parelha, mais aumentavam as minhas chances na sinuca que viria a seguir.
Assim eu esperei, e, depois de cerca de duas, três horas, foi assim que aconteceu.
Eu passei a partida toda “me ficando”, enquanto o Jader, cansado depois de uma longa disputa de xadrez e já com vontade de ir para casa, tentava converter bolas difíceis e errava, enquanto eu ia ficando e acumulando pontos, ficando e acumulando pontos...
Resultado: ganhei, por pouco, mas ganhei, e segui até a semifinal, que perdi, se não me engano para o Zé Guilherme, o Chaleira.
O Jader diz que eu joguei bem, o que deve ter acontecido mesmo, pois do contrário não teria a menor chance contra ele. Mas que aquele tempinho do xadrez contra o Jorge Flôor fez diferença, ah isso fez, e até hoje quando nos encontramos e brincamos sobre a possibilidade de uma eventual “revancha” na sinuca, eu respondo para o Jader que sim, que é possível sim, mas que sem whisky não, aí de jeito nenhum, não mesmo.


* Revancha, em espanhol, quer dizer também “vingança” (venganza), semelhante ao uso que se dá à expressão em português, onde ‘revanche’ significa oportunidade para recuperar uma perda, uma derrota, mantido, entretanto, o sentido de ‘desforra’.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A PROVA

Na crônica “Capitulação”, publicada em 02 de setembro último (3ª postagem abaixo), escrevi: “Sou um gremista de foto com Telê Santana, sou gremista que guarda revista com o Eurico Lara na capa...”.
Como, por estas bandas, a gente costuma sempre ser questionado sobre o que diz, publico aqui “a prova” do afirmado no texto; primeiro a fotografia, com quase duas décadas* de existência, e, posteriormente, aqui mesmo neste post, reproduzirei a capa da revista de quase meio século (está tão bem guardada que ainda não consegui encontrar).
* Verdade é que a fotografia é bem depois da passagem de Telê pelo Grêmio, ocorrida no final dos anos 70 (1977-1979). A imagem é do início da década de 90 e foi tirada em um vestiário em Buenos Aires, quando El Señor Santana, depois de disputar as Copas de 1982 e 1986 como técnico da Seleção Brasileira, dirigia o São Paulo (1990-1996), nesse dia em partida disputada contra o San Lorenzo, jogo de inauguração do Estádio El Nuevo Gasômetro, do tradicional Clube de Almagro, conhecido bairro da capital da Argentina. Estavam comigo o João Garcez e o Birinha, do Gita, ambos "cortados" na foto.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

DIONÍSIO



Neste último dia 7 de setembro eu pude voltar à infância, ainda que por alguns instantes. Foi nos festejos da Semana da Pátria quando, atendendo convite de Direção da Escola Dionísio de Magalhães, eu desfilei orgulhoso pela Dr. Monteiro ao lado dos professores e alunos do meu primeiro colégio no ano do seu cinquentenário.

Dionísio, a Escola da minha infância. Dos meus primeiros passos, as primeiras leituras, as minhas primeiras amizades. A escolinha pobre que eu e a minha irmã Nazine escolhemos pela pintura nova à época; uma ideia do meu pai que nos apresentou todos os colégios da cidade para que nós mesmos – na “autoridade” dos nossos seis, sete anos – pudéssemos eleger livremente onde queríamos estudar.

E escolhemos o Dionísio, e eu fui muito feliz lá.

Lá, eu conheci a simplicidade, e as dificuldades e limitações de uma pequena e nova Escola (o Dionísio tinha apenas cinco anos quando fui estudar lá), mas conheci também a dedicação e o esforço de toda uma comunidade para fazer dessa Escola um lugar digno para se conviver, principalmente para nós, alunos, que verdadeiramente amávamos o Dionísio.

Lá, eu conheci o trabalho das irmãs Aida e Alba, abnegadas, lutadoras, incansáveis a frente de todas as atividades da Escola. Lá, eu tive na Prof.ª Francisca uma diretora devotada e justa, e na Marlise Esteves a minha primeira professora, com um trabalho sério, correto, e uma dedicação desmedida a ponto de sofrer junto com os alunos que não conseguiam os melhores resultados.

Lá, eu conheci a Banda do colégio, ensaiada, ritmada, impecável, assim como impecáveis sempre foram os uniformes da Escola. No Dionísio, eu aprendi a dividir a merenda escolar, que era escassa, controlada, mas honesta, e repartida de forma solidária e fraterna entre os “filhos do Dr. Dionísio” que éramos todos nós.

Lá, eu fiz amigos para a vida toda, como a Clair, a Élida, a Roselaine, a Vera Lúcia, que vão ficar para sempre como boas lembranças entre as colegas do meu primeiro colégio. Assim como os guris do futebol, o Lita, o Leite, o Chorão, o Leivinha, e a turma dos “cientistas malucos” – o Rolnei, o Gustavo Pereira, o Zé Thomas –, símbolos de uma época em que a gente se divertia só de inventar os próprios brinquedos da gente.

Ah, Dionísio, Escola do meu coração. Como me fizeste feliz durante os meus primeiros anos de colégio, e como me fizeste feliz também agora, desfilando ao lado dos velhos alunos e dos teus novos estudantes e professores, que permanecem honrando a tradição de uma Escola que, para mim, continua sendo a mais simpática, a mais bonita, a mais perfeita, sem comparação com qualquer outra.

Por isso é que, neste dia 7 de setembro, apesar do mau jeito, apesar da idade, apesar do tempo que passou, eu não desfilei, eu não marchei, eu sequer caminhei pela Dr. Monteiro. Como um menino de seis, sete anos de idade, eu voltei à infância e sonhei, simplesmente.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

PERSONAGENS DO ARROIO GRANDE - (IV) OMAR BRETANHA DAS NEVES

Nascido em 05 de setembro de 1924, Omar Bretanha das Neves foi um político e pecuarista de Arroio Grande, falecido em 05 de agosto de 1999.
Filho de Análio Pereira das Neves e de D. Ondina Bretanha das Neves, Omar era irmão do conhecido Padre Neves, certamente o pároco mais popular da história de Arroio Grande.
Casado em segundas núpcias com a Sra. Omênia Maciel das Neves, Omar Bretanha era pai de três filhos – Maria do Carmo, Lúcia Maciel e Análio Pereira das Neves Neto.
Político de extrema habilidade, considerado uma verdadeira “raposa” pela classe política local, Omar foi o vereador de maior longevidade no Câmara Municipal, sendo eleito pela 1ª vez em 1959, pelo PSD, e pela última vez em 1992, pelo PDS. Ao todo, foram sete mandados como vereador, quase quatro décadas participando ativamente como protagonista da política local.
Homem acostumado às lides campeiras, Omar Bretanha dedicava-se também à Pecuária, criando gado no local conhecido como “Capão da Pombas”, interior do município de Arroio Grande.
Quando estava prestes a completar 75 anos de idade, Omar Bretanha faleceu, deixando saudades entre os seus familiares e conhecidos, e uma grande lacuna na classe política local, pois “política” era do que Omar mais gostava e sabia fazer como poucos em Arroio Grande.


São inesquecíveis para o autor desta página, as conversas que mantinha com Omar Bretanha - velho adversário partidário - na esquina próxima à residência do vereador em Arroio Grande, o que levou à publicação de uma crônica em sua memória - "O amigo de esquina" - no jornal "A Evolução", quando do falecimento do político no ano de 1999.


Nas fotografias, Omar Bretanha no começo da carreira política, nos anos 50 (no alto), e já septuagenário, pouco antes de falecer (abaixo).


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CAPITULAÇÃO

Teve um dia em que eu capitulei. Faz exatamente um ano, foi no dia 2 de setembro de 2010, eu baixei a guarda e... capitulei.
Dois de setembro é o dia do aniversário da minha filha Maria Eduarda, a Duda. Pois era o aniversário dela, de 12 anos, e eu até já havia dado o presente antecipadamente, quase um mês antes.
E presentes antecipados dão nisso: quando chega na hora do aniversário, ou a gente sente um imenso vazio por não ter o que presentear, ou então procura “suplementar” o presente que já deu. E foi isso que eu resolvi fazer.
Então, eu caminhei pelas ruas de Pelotas – onde mora a minha filha –, andei por duas ou três lojas, procurei a Andrade Neves no sentido Centro-Avenida e resolvi arriscar o ingresso num local de difícil acesso para mim: a loja oficial do Sport Club Internacional, o colorado de Porto Alegre.
Essa história, diga-se, possui dois antecedentes, que necessitam ser esclarecidos para uma melhor compreensão do que me aconteceu.
O primeiro foi quando a Maria Eduarda, então com pouco mais de 7 anos de idade, e tendo perdido a pouco o avô – o “Velho Pedro” –, me chamou e “pediu”, já definitivamente resolvida: - Pai, eu sei que tu és gremista, mas eu queria te pedir uma coisa. Eu queria 'ser do Inter' e agora que o Vô Pedro não ta mais com a gente, bem que eu podia ser colorado no lugar dele, né!? E eu ia dizer o quê diante de uma situação dessas? Eu podia opor o quê? Nada, não havia nada que eu pudesse fazer, senão concordar com o “pedido” da minha filha.
O problema é o segundo antecedente, conhecido dos que me acompanham desde a infância. Acontece que eu não sou apenas gremista. Sou um gremista que se criou, desde guri, vizinho do Gita e amigo do Agapito – craques do Grêmio – no Arroio Grande. Sou um gremista que foi a inauguração do Olímpico “Monumental”, em 1980, assistir o Grêmio jogar contra o Argentino Jrs., do Maradona. Sou um gremista que viu, de dentro do Estádio Olímpico, ali, pertinho do campo, o Grêmio ser Campeão da América, com o cruzamento sobrenatural do Renato, naquele inverno chuvoso de 83, em Porto Alegre.
Sou um gremista de foto com o Telê Santana, sou um gremista que guarda revistas com Eurico Lara na capa. Sou um gremista que saiu da frente da televisão, para não enfartar, quando o Juiz deu dois pênaltis para o Náutico e expulsou quatro jogadores do Grêmio, naquele que foi o maior épico da história do futebol mundial, quando, com 7 contra 11, o Grêmio ainda venceu a partida e voltou à elite do futebol brasileiro.
Pois eu, gremista de toda uma história, que acompanhou o Grêmio ao vivo no Olímpico, no Centenário, de Montevidéu, na Bombonera, em Buenos Aires, depois de quase meio século de extrema fidelidade, capitulei, e, no dia 2 de setembro de 2010, entrei no território inimigo, a loja oficial do S. C. Internacional, para comprar um presente para a minha filha,
E lá estavam todos os meus fantasmas: a camiseta vermelha, o escudo em 'S', o símbolo Saci... Lá estavam Figueroa, Falcão, Valdomiro; Chico Spina, “Uh” Fabiano, Fernandão... O Beira-rio, o Fernando Carvalho e – estarrecedor! – desde 2006, está lá também o Gabiru.
Mas o mais terrível, apavorante mesmo, foi descobrir que no fundo, bem no fundo, esses fantasmas vermelhos sempre estiveram ao meu lado nesses cinquenta anos. E que a partir de agora – por amor à minha filha – eu terei que conviver harmoniosamente com eles pelo restante da vida, e, o que é pior, com o tal de Leandro Damião junto.

sábado, 27 de agosto de 2011

1961 - A LEGALIDADE

(Arroio Grande nos anos 60 - Praça Maneca Maciel)

Um dos episódios mais interessantes da história do Rio Grande do Sul, assim como do próprio Brasil – a Legalidade – está completando 50 anos neste final de agosto.
Como é sabido, o Movimento (ou Campanha) da Legalidade foi deflagrado no Rio Grande do Sul para garantir a posse do Vice-Presidente João Goulart quando da renúncia do Presidente Jânio Quadros, por pressão das famosas “forças terríveis” (uma explosiva mistura de Whisky, com militares, com Carlos Lacerda...), o que ocorreu no dia 25 de agosto de 1961.
Consumada a renúncia de Jânio, e como Jango estivesse fora do Brasil (em visita oficial a Cingapura), os ministros militares, contrários à posse de Goulart sob o argumento de que o gaúcho iria promover a “comunização” do País (e Jango nem comunista era), resolveram agir rápido e declararam “a absoluta inconveniência, por motivos de segurança nacional, do regresso ao País do Vice-Presidente”. Ato contínuo, ameaçaram prendê-lo caso voltasse ao Brasil.
No Rio Grande do Sul, o Governador Leonel Brizola reagiu e mobilizou militares, imprensa, artistas e a população civil para articular uma oposição ao golpe, pois havendo sido Jango eleito Vice-Presidente democraticamente nada justificava que não se cumprisse a Constituição.
Entre tantos episódios que marcaram o Movimento – trincheiras no Piratini, encampação da Rádio Guaíba, hino da Legalidade –, encontra-se a adesão do Comandante do 3° Exército do Rio Grande do Sul, Machado Lopes à Legalidade (“o 3° Exército não aceita solução fora da Constituição”), ficando ao lado de Brizola e contra o poder militar.
Em conseqüência, o Ministro da Guerra Odílio Denys resolveu substituir Machado Lopes pelo histórico Cordeiro de Farias, que, entretanto, nem chegou a Porto Alegre, pois a resistência no Rio Grande do Sul foi tão forte que impossibilitou o deslocamento do avião do velho General à Capital dos gaúchos.
Da mesma forma, os Sargentos da Aeronáutica sufocaram uma ordem de atentado ao Palácio Piratini e à própria população gaúcha, já que, por determinação do Ministro Orlando Geisel, a Força Aérea estava autorizada a realizar “inclusive o bombardeio, se necessário” sobre Porto Alegre.
De Arroio Grande, é conhecida a participação do conterrâneo Marcial Ribeiro ao lado dos legalistas, numa resistência que obteve sucesso, já que o Movimento resultou na posse de João Goulart, ainda que através de uma solução encontrada fora da Constituição – o parlamentarismo. A Legalidade teve diversas virtudes, assim como teve o mérito de “retardar” o Golpe Militar esboçado em 1961, que acabou ocorrendo quase três anos mais tarde – em 31 de março de 1964.
E a diferença entre os dois Movimentos – Legalidade x Golpe –, vai além da própria expressão, pois o resultado do primeiro, que mostrou mobilização, resistência, coragem, cidadania..., contrapõe-se radicalmente ao segundo que, embora travestido de “Revolução” durante mais de duas décadas, tem hoje as suas consequências cada vez mais transparentes, para quem quiser julgar.

Marcial Ribeiro (o segundo a partir da direita) na Base Aérea de Canoas, em almoço comemorativo à posse de João Goulart - 7 de setembro de 1961.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PERSONAGENS DO ARROIO GRANDE (III) ARI COELHO RODRIGUES - ARIZINHO, O ARI DO POVO

Nas fotografias: Arizinho, com a cantora Cláudia Barroso, no Clube do Comércio de Arroio Grande, em show nos anos 70 (acima); e na volta olímpica, como Tri campeão estadual amador, com o E. C. Arroio Grande, em Sobradinho, 1991 (abaixo).


Ari Coelho Rodrigues, o Arizinho, ou Ari do Povo, nasceu em 08/12/1933 e faleceu em 19/08/2009, em Arroio Grande. Político, Ari do Povo foi vereador em diversas oportunidades, concorrendo inclusive a Prefeito, no ano de 1982, sem, entretanto, conseguir a eleição, mas auxiliando, e muito, na sub-legenda. Como desportista, Arizinho foi jogador e técnico dos dois grandes Clubes da cidade - Esporte Clube Arroio Grande e Grêmio Esportivo Internacional -, sendo mais identificado com o Clube Saci, por quem se tornou multicampeão - da Cidade, da Zona Sul e do Estado. Bem humorado, falante e fólclorico, Arizinho protagonizou ótimas histórias, especialmente no meio do futebol, como a que aparece na crônica abaixo, publicada recentemente no jornal "A Evolução".

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O Campeonato Municipal de Futebol de Campo estava previsto para iniciar neste mês de agosto, mas foi adiado, parece que para novembro. Seriam (serão) disputadas as Taças Ari Coelho Rodrigues e Osvaldo Brito, numa justa homenagem a dois símbolos do futebol local. O Osvaldo, felizmente, está aqui perto da gente, e parece já ter superado os sustos que deu na família e nos amigos há cerca de um ano, mais ou menos.
Mas a disputa do Campeonato, se tivesse realmente iniciado em agosto, deveria coincidir com a morte do Ari, ocorrida em 19/08/2009. Puxa, dois anos já sem o Arizinho, o Ari do Povo. Futebol com menos graça, com menos vibração, com menos alegria. O Ari sempre foi um cara bem humorado, de bem com tudo, um protagonista de muitas histórias. Como esta que ele nos deixou e que está contada na íntegra no livro O “Clássico” – Uma história de Paixão, obra que o Arizinho ajudou a construir como grande personagem que foi do futebol local.
“Ano de 2001, Clássico em homenagem ao Dia do Trabalhador. Como treinador do Arroio Grande, o Ari estava preocupado. Por algumas questões, teria que deixar no banco de reservas o ponteiro direito Cabrito, um dos grandes nomes do título mais importante da história Saci – Tricampeão Estadual de Amadores –, conquistado dez anos antes, na cidade de Sobradinho.
Ao cruzar com o jogador, na manhã da partida, Ari resolveu aproveitar a oportunidade para “prepará-lo” quanto as suas intenções.
Cabritinho – disse – eu 'tava pensando e acho que vou te deixar no banco; imagina, com a força e a velocidade que tu tens, se a gente 'tiver perdendo tu entra e a gente vira o jogo em cima deles.
Ah é, o Senhor acha, Seu Ari? – disse o Cabrito, estranhando a manifestação do “Chefe”, pois acreditava que seria o titular do amistoso.
Percebendo que a conversa não caíra bem junto ao jogador, e tentando ser diplomático, Arizinho busca ajeitar a situação:
– Acho, Cabritinho, acho... Inclusive tu nem ta bem preparado e tem tudo pra ser um jogo duro, difícil; daí se a gente 'tiver empatando, eu te boto em campo e a gente ganha o jogo deles.
O Cabrito, sempre estranhando, e diante das “possibilidades” que o Ari estava lançando, faz a pergunta que ficara 'picando' diante dele:
– Tudo bem Seu Ari, mas e se a gente ‘tiver ganhando?
– Bah, aí que goleada que nós 'metemo' neles, hein Cabritinho, que goleadinha... – disse o Ari, saindo ligeiro para se encontrar com o restante do grupo no Estádio da Avenida.
Como o Cabrito permanecesse inconformado, insistindo em reverter a situação, o Ari aproveitou um momento em que Cláudio Ávila, o popular “Gadanha”, testemunhou as queixas do jogador, para dar um jeito na discussão e encerrar de vez o assunto. Disse:
– Visse Gadanha, visse... Como ta nervoso o Cabritinho, não para de me interpelar; assim eu não vou poder escalar ele como titular, né, ta que é uma pilha de nervosinho!
E deixou o Cabrito no banco de reservas...”

domingo, 21 de agosto de 2011

A RUA, A RUA...

A troupe, toda feliz, indo para a rua, e, enfim, a rua, a Rua Uma Terra Só. Obrigado ao pessoal de Jaguarão, pela recepção, e ao Jorge Passos, pelas fotos.

sábado, 20 de agosto de 2011

RUA UMA TERRA SÓ

Acabo de chegar de Jaguarão onde fui dar um abraço no Schlee.

A presença do escritor na cidade deveu-se ao fato de que o título de um livro seu - "Uma Terra Só" - virou nome de rua naquele município, como mostra o convite abaixo.

Uma rua com nome de livro, vejam só!

O meu velho amigo nunca foi muito partidário dessas homenagens, recusando, inclusive (e por diversas vezes), ser patrono de Feira do Livro, n0me de sala, de locais públicos, etc.

Mas essa, Aldyr, é de se comemorar, e muito; é tudo com que a gente sempre sonhou - a literatura na Rua, literalmente.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PERSONAGENS DO ARROIO GRANDE - (II) MOACIR PRESTES

Nascido em 1°/06/1922, em Encruzilhada do Sul, Moacir da Rosa Prestes fez os seus estudos em Porto Alegre, vindo para Arroio Grande no final dos anos 40 onde constituiu família, casando com Nair da Silva Soares no ano de 1949.
Agricultor, Moacir experimentou os frutos e os espinhos da profissão, iniciando as suas atividades agrícolas em Camaquã, e, posteriormente, em Arroio Grande, plantando lavouras de arroz em diversos locais do Município, em especial na Costa do arroio Grande e na região da Ponta Alegre.
Apaixonado por política e trabalhista histórico, Moacir Prestes foi três vezes candidato a vereador, obtendo a eleição em duas ocasiões – em 1958, quando fez oposição ao Governo de Edgar Dutra Lisboa, e em 1963, quando esteve ao lado do Governo Lauro Cavalheiro – sempre pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
Pai dos “Antônios” – Marco Antônio (Marcos), José Antônio (Zé) e Luís Antônio (Luisinho, que recebeu o apelido de Brizola pela relação do seu pai com o ídolo maior do trabalhismo no Rio Grande do Sul) –, Moacir permaneceu como um nome histórico da oposição em Arroio Grande, num período em que a chamada “direita” local comandou os destinos do município por cerca de 20 anos – de meados dos anos 70 até a segunda metade da década de 90.
Falecido em 27/02/2003, Moacir Prestes deixou um legado de integridade, de correção e de simpatia; são inesquecíveis, por exemplo, as conversas que a geração do autor desta página – cerca de 40 anos mais nova – mantinha com o velho trabalhista nas intermináveis discussões políticas que iniciavam na lendária lancheria Top Set e não tinham hora e nem local para acabar.

Moacir Prestes, com a esposa Nair e os filhos José, Luís Antônio e Marcos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

ADVOGADOS/DOUTORES - A POLÊMICA LEI DO IMPÉRIO

“Lei de 11 de Agosto de 1827

Crêa dous Cursos de sciencias Juridicas e Sociaes, um na cidade de S. Paulo e outro na de Olinda.Dom Pedro Primeiro, por Graça de Deus e unanime acclamação dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brazil: Fazemos saber a todos os nossos subditos que a Assembléia Geral decretou, e nós queremos a Lei seguinte:

Art. 1.º - Crear-se-ão dous Cursos de sciencias jurídicas e sociais, um na cidade de S. Paulo, e outro na de Olinda, e nelles no espaço de cinco annos, e em nove cadeiras, se ensinarão as matérias seguintes:1.º ANNO1ª Cadeira. Direito natural, publico, Analyse de Constituição do Império, Direito das gentes, e diplomacia.2.º ANNO1ª Cadeira. Continuação das materias do anno antecedente.2ª Cadeira. Direito publico ecclesiastico.3.º ANNO1ª Cadeira. Direito patrio civil.2ª Cadeira. Direito patrio criminal com a theoria do processo criminal.4.º ANNO1ª Cadeira. Continuação do direito patrio civil.2ª Cadeira. Direito mercantil e marítimo.5.º ANNO1ª Cadeira. Economia politica.2ª Cadeira. Theoria e pratica do processo adoptado pelas leis do Imperio.

Art. 2.º - Para a regencia destas cadeiras o Governo nomeará nove Lentes proprietarios, e cinco substitutos.Art.

3.º - Os Lentes proprietarios vencerão o ordenado que tiverem os Desembargadores das Relações, e gozarão das mesmas honras. Poderão jubilar-se com o ordenado por inteiro, findos vinte annos de serviço.

Art. 4.º - Cada um dos Lentes substitutos vencerá o ordenado annual de 800$000.

Art. 5.º - Haverá um Secretario, cujo offício será encarregado a um dos Lentes substitutos com a gratificação mensal de 20$000.

Art. 6.º - Haverá um Porteiro com o ordenado de 400$000 annuais, e para o serviço haverão os mais empregados que se julgarem necessarios.

Art. 7.º - Os Lentes farão a escolha dos compendios da sua profissão, ou os arranjarão, não existindo já feitos, com tanto que as doutrinas estejam de accôrdo com o systema jurado pela nação. Estes compendios, depois de approvados pela Congregação, servirão interinamente; submettendo-se porém á approvação da Assembléa Geral, e o Governo os fará imprimir e fornecer ás escolas, competindo aos seus autores o privilegio exclusivo da obra, por dez annos.

Art. 8.º - Os estudantes, que se quiserem matricular nos Cursos Juridicos, devem apresentar as certidões de idade, porque mostrem ter a de quinze annos completos, e de approvação da Lingua Franceza, Grammatica Latina, Rhetorica, Philosophia Racional e Moral, e Geometria.

Art. 9.º - Os que freqüentarem os cinco annos de qualquer dos Cursos, com approvação, conseguirão o gráo de Bachareis formados. Haverá tambem o grào de Doutor, que será conferido áquelles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e sò os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes.

Art. 10.º - Os Estatutos do VISCONDE DA CACHOEIRA ficarão regulando por ora naquillo em que forem applicaveis; e se não oppuzerem á presente Lei. A Congregação dos Lentes formará quanto antes uns estatutos completos, que serão submettidos á deliberação da Assembléa Geral.

Art. 11.º - O Governo crearà nas Cidades de S. Paulo, e Olinda, as cadeiras necessarias para os estudos preparatorios declarados no art. 8.º.Mandamos portanto a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente, como nella se contém. O Secretario de Estado dos Negocios do Imperio a faça imprimir, publicar e correr. Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos 11 dias do mez de agosto de 1827, 6.º da Independencia e do Imperio.IMPERADOR com rubrica e guarda.(L.S.)Visconde de S. Leopoldo.
Carta de Lei pela qual Vossa Majestade Imperial manda executar o Decreto da Assemblèa Geral Legislativa que houve por bem sanccionar, sobre a criação de dous cursos juridicos, um na Cidade de S. Paulo, e outro na de Olinda, como acima se declara.Para Vossa Majestade Imperial ver.Albino dos Santos Pereira a fez.Registrada a fl. 175 do livro 4.º do Registro de Cartas, Leis e Alvarás. - Secretaria de Estado dos Negocios do Imperio em 17 de agosto de 1827. – Epifanio José Pedrozo.Pedro Machado de Miranda Malheiro.Foi publicada esta Carta de Lei nesta Chancellaria-mór do Imperio do Brazil. – Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1827. – Francisco Xavier Raposo de Albuquerque.Registrada na Chancellaria-mór do Imperio do Brazil a fl. 83 do livro 1.º de Cartas, Leis, e Alvarás. – Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1827. – Demetrio José da Cruz.”
(Fonte: Brasil. Leis, etc. Collecção das leis do Imperio do Brazil de 1827. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. p. 5-7.).

(*) Não é difícil raciocinar que o artigo 9º da Lei não teria sido recepcionado pela Constituição Federal, especialmente a Carta democrática de 1988, pois que tal distinção feita somente aos advogados, estaria a ferir o princípio da igualdade com relação a outras categorias de profissionais.

sábado, 13 de agosto de 2011

UMA DISCUSSÃO TÃO ANTIGA QUANTO INÚTIL

Dia desses, um conhecido quis saber a minha opinião sobre a eterna polêmica da titulação dos advogados no Brasil – afinal, os advogados são ou não são “doutores”?
A resposta pode ser tanto sim, como não, ou, ainda, que tudo não passa de uma grande bobagem, uma discussão inútil que não faz diferença para a vida dos advogados ou de qualquer pessoa.
Para quem quiser argumentar que “não”, que advogado não é doutor, basta dizer ó óbvio, ou seja, que o título de “Doutor” se obtém com a graduação em doutorado, distinção que não possuem mais de 90% dos advogados do País, sendo a maioria titulada como Bacharel em Direito.
Já quem quiser defender que “sim”, que advogado é Doutor, basta simplificar dizendo que a tradição levou os advogados a serem chamados de “doutores”, até pelo fato de estarem permanentemente – isto é, no dia-a-dia da profissão – formulando teses, sempre na defesa dos direitos dos seus clientes.
Existe ainda uma história controvertida que diz respeito a uma Lei do Império – de 11/08/1827 –, que, ao criar os primeiros cursos jurídicos no País (por isso o 11 de agosto ficou como o “Dia do Advogado”), teria disposto que os acadêmicos que terminassem o Curso de Direito seriam bacharéis, enquanto o título de “Doutor” seria destinado aqueles “habilitados nos Estatutos futuros” – o equivalente, hoje, a receber a carteira da OAB para o exercício da profissão.
Logo, por tal raciocínio, quem se forma em Direito é “Bacharel”, enquanto que aquele que está de acordo com os Estatutos da Ordem dos Advogados do Brasil e apto a advogar torna-se “Doutor”, independente de possuir ou não o grau de doutorado.
A ocorrência e/ou vigência da tal Lei Imperial é negada até hoje (segundo alguns, seria originária de um Alvará autorizativo expedido bem antes pela Rainha Maria I, a Maria Louca, de Portugal), mas a tradição prevaleceu, e os advogados permanecem a ser chamados de “doutores”, nos corredores do fórum, nas ruas, em qualquer lugar.
A discussão, na verdade, não possui qualquer efeito prático, pois é certo que o tratamento de “Doutor” dado aos advogados não equivale ao “título” de Doutor (o grau máximo da hierarquia acadêmica), servindo apenas e tão somente como forma de identificação do profissional, que tem como princípios zelar pelos direitos, pela liberdade e pela própria vida dos seus clientes.
E é essa disposição – de zelar pela liberdade, pela integridade e pela vida dos seus constituintes – que pode fazer a diferença entre os profissionais do Direito, sejam eles simples bacharéis, ou graduados mestres, afinal a história é a maior testemunha de que títulos, por si só, não dignificam ninguém, nem mesmo os doutores.