quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

CARNAVAL, LÓGICO


Mesmo quem já assistiu ao carnaval de Pelotas (ainda tem?), de Porto Alegre; o carnaval do Rio com o seu Sambódromo – a Mangueira, a Portela, a Beija-Flor... – quem já esteve próximo aos trios elétricos de Salvador, com Ivete Sangalo, Gilberto Gil, o camarote da Daniela Mercury; quem já pulou em meio aos frevos do Recife, o maracatu de Naná Vasconcelos, o mangue beach do Nação Zumbi; quem já esteve em outros lugares por esta mesma época sabe que não existe nada melhor do que o Carnaval da cidade da gente, no caso, o Carnaval daqui do Arroio Grande, aquele que começa na Dr. Monteiro, se espalha pelas ruas e avenidas da cidade e só termina onde a imaginação permite.
O povo todinho nas ruas, a passarela tomada pelos carnavalescos, os destaques, os passistas, e - valha-me deus! - as madrinhas das baterias, os camarotes repletos de gente, a bebida dividida fraternalmente, as torcidas carinhosas até na provocação; não existe mesmo nada igual, em lugar nenhum do mundo, do que o carnaval da terra da gente.
Numa cidade dividida politicamente, onde se briga por emprego, por cargo, por apadrinhamento, onde a disputa pelo poder transforma convicções e afeta ideologias, Arroio Grande só vem a conhecer mesmo a democracia plena é na festa do carnaval, nas ruas, na passarela e nos camarotes da Dr. Monteiro.
Nos camarotes, aliás, tudo é possível, ali os encontros mais improváveis acontecem, e – acreditem! - não existe nada mais prazeroso do que vivenciá-los nem que seja por uma noite apenas.
Beber uma cerveja com uma figura numa ponta, conversar com um conhecido na outra, abraçar velhos amigos que só vem aqui por esta época, tudo, tudo faz parte de um momento ímpar da nossa cidade, onde as diferenças políticas e sociais são esquecidas, nem que seja por algumas horas.
A festa incessante dos foliões, os agitados bebedores dos blocos, o apaixonado pessoal das Escolas, os incansáveis trabalhadores da Prefeitura, os profissionais da imprensa, todos surgem como indispensáveis ao melhor Carnaval da Região, o melhor Carnaval do Estado, o melhor Carnaval do País.
O Carnaval do Arroio Grande é mesmo o melhor do mundo por essa singela razão: é o carnaval da terra da gente.
E ainda mais se der à lógica, com a Promorar ganhando novamente (escrevo na quarta, sem saber do resultado), aí sim vem a perfeição, com a melhor Escola do Mundo se consagrando mais uma vez Campeã da maior festa do Planeta.
Pois o Carnaval, que deserta tamanhas paixões, pode também ser justo, ao menos no desejo e na vontade da gente. Ou não pode?!?
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Por falar em coisas boas, está “bombando” na cidade o ‘Bauru do Geco’, um lanche espetacular, que a gente encontra ali na Rui Barbosa, entre Visconde de Mauá e Mal. Floriano. O telefone para tele-entrega? Ora, vão até lá e perguntem pra o Geco, vale a pena, mesmo!!!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

QUEM ACREDITA NO FANTÁSTICO VIVE O DOMINGO MAIS FELIZ


Os domingos de verão são difíceis, arrastados, modorrentos. A semana já não é fácil, mas o domingo, em casa e no calor, parece ainda pior.
Mesmo quem pode ir à Praia, para disputar espaço em meio à farofagem geral – pastel, guaraná biri, nova schin quente, xixi dentro d’agua... – sabe que o dia será pesado, lento, interminável.
Depois, quando a noite chega, banho tomado e o estômago saturado, a dificuldade é encontrar algo possível de se olhar na tevê, com os filmes repetidos, o big brother se arrastando e a novela que só virá no dia seguinte.
É então que chega aquele momento onde quem assiste e acredita no Fantástico vive o domingo mais feliz.
O Fantástico - em meio a natural programação canhestra dos domingos - é o reino do artificialismo, a superexposição do irrelevante, uma verdadeira fábrica de banalidades, preparadas para levar o telespectador até o mundo que querem que ele acredite que existe.
E tem gente que acredita no Fantástico, e com certeza é mais feliz assim.
Porque eu não acredito. Não acredito nas reportagens, nas entrevistas, no editorial, nas mágicas, não acredito em nada. Não acredito nem na previsão do tempo, se ela não conferir com a do Jorge Américo, na Difusora, segunda-feira.
Aliás, essa é mesmo uma maldita característica minha: não acreditar em quase nada.
Não acredito na justiça (embora acredite no Direito); não acredito na sociedade, não creio no diálogo, não acredito em discursos e nem em boas intenções. Não creio nas palavras, nem nas letras de músicas, não acredito nos poetas e menos ainda nas musas, não acredito em moral e nem em estética; creio na ética, mas não acredito em política, e - se querem mesmo saber -, não acredito sequer no que eu mesmo digo todos os dias.
Eu acredito é no Marta Rocha, acredito na Basílio Conceição; acredito nos puros, nos anjos, nos ingênuos; acredito no Albertino, acredito no Feijão, creio no Bernardino. Eu creio mesmo é no improvável, no honesto, no bom, no justo, acredito no sonho, no lúdico, no imaginário.
Eu acredito nos visionários, nos loucos, nos amaldiçoados; acredito no que ficou pra trás e acredito no que ainda está por vir.
Eu acredito é nas canções do Caboclo, nas crônicas do Arnóbio, na sabedoria do Pedro Bittencourt; eu firmo a minha crença é na maravilhosa poesia da Mar-ilha-flor.
Acredito é no Arroio Grande de 73: Osca, Vilson, Tino, Vilnei e Porquinho; Ivo e Guia; Orlandinho, os dois Paulinhos e o Covinha –; eu acredito é no gol de falta do Marrequinho, e no jogo terminando antes do empate do adversário.
Creio no que a minha imaginação diz, no que a minha memória evoca, na guria fornida que carregava o escudo da minha escola, na paixão pela minha mulher dançando inteirinha pra mim.
Eu creio em tudo o que gosto, em tudo o que afinal desejo, em tudo que muitos duvidam; hoje, eu acredito mesmo é na Promorar campeã do carnaval novamente.
Desde, é claro, que essa minha crença não apareça no Fantástico, porque no Fantástico eu custo a crer, embora tenha que admitir: quem acredita no Fantástico vive o domingo mais feliz.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

MANICÔMIO, QUARTO SETE

(I)
Manicômio, quarto sete,
Última porta, à direita
No fundo do corredor...
Uma janela gradeada
E a cama desarranjada
Com roupas sujas no chão;
Em todo o resto, mais nada...
...
Um homem chamado João,
Ou Antônio ou Gumercindo,
Ou Valentim ou Adão,
Ou Pedro, Luís, Gracindo,
Ou Abel, ou qualquer nome,
Tem ares de um homem livre
Um jeito de alguém feliz
No quarto sete do hospício...
...
Mas Gumercindo ou Adão,
Ou Paulo ou José Maria,
Ou que nome esse homem tenha,
Esse homem não tem nada
Do que os outros homens têm.
Não tem casa, nem família,
Não tem emprego ou salário,
Não tem mulher, não tem filha,
Nem amigos, nem vizinhos,
Nem nada de extraordinário...
...
Por incrível que pareça
Esse homem tem somente
Os ares de quem é gente
E traz luz no coração...
O doido do quarto sete
Dizem que por ser doido
Só por isso, unicamente,
Perdeu o rumo da estrada,
Um lugar na sociedade,
O cumprimento dos outros
Perdeu o respeito alheio,
Perdeu o nome que tinha,
Só não perdeu a razão,
Nem o sonho, nem a vida,
Nem o amor que o levou
Ao quarto sete do hospício...
(II)
Lá fora do manicômio
Passam homens que revelam
As bocas tontas de sono
Os olhos cheios de fome...
Os homens que andam na rua
Têm ares de prisioneiros,
Têm um silêncio que espanta
Têm um jeito de abandono
Têm solidão na garganta
...
Têm problemas, têm dinheiro,
Têm propriedades, têm carros,
Têm emprego, têm salário,
Têm credores, projeção,
Têm doenças e incertezas,
Têm perguntas sem respostas,
Têm angústias e tristezas,
Têm mágoas, inimizades,
E o coração apertado,
Sem ternura nem amor...
...
Lá na rua há gente adulta
Homens sérios, circunspectos;
Lá fora sob bons tetos
Estão os grandes doutores,
Que não atendem doentes
Sem receber a consulta...
Lá fora há advogados
Corretos, compenetrados
Que provam por A mais B
Que ladrões e assassinos
São pessoas inocentes
São uns ótimos meninos...
...
Lá fora só estão os certos
Que sem razão nem porquê
Falam muito da moral;
Indicam a linha reta,
Detestam o diferente
Renegam a novidade
E endeusam o que é normal...
(III)
Lá fora estão militares
Ganhando altos salários
Para prender e matar;
Lá fora estão professores
Que ganham uma miséria
Pelo ato de ensinar ;
Lá fora vive quem cobra
Até mesmo para amar;
Lá fora pessoas morrem
Por não terem o que dar...
...
Lá fora vivem os ricos,
Os patrões, os dirigentes,
Os proprietários da terra
Os que julgam que não erram
Quanto mais vivem a errar...
Lá fora estão exigentes
Credores que simplesmente
Viveram a vida inteira,
À custa da quem precisa...
Lá fora os exploradores,
Deixam todos satisfeitos...
Quem suga o trabalho alheio
É aplaudido, respeitado
E quase sempre é escolhido
Para mandar nos demais...
Em verdade, quem não vê?
Que eles são muito mais loucos
Que o louco do quarto sete...
...
No manicômio, entretanto,
No quarto sete, à direita
No fundo do corredor
Um louco vive sozinho
Com suas lembranças de amor...
Um louco que adora flores
E está longe dos jardins...
Um louco que de repente
Descobre que o mal da gente
É não ter loucura alguma...
(IV)
Um louco que não se exalta
E sabe que infelizmente
Não há o bem longe do mal...
Um louco que sempre soube
Que na vida nada muda
Tudo sempre é sempre igual...
Um louco que compreendeu,
O que ensinam outros loucos
Como Jesus, como Buda,
Como quem passou a vida,
Falando em amor e paz...
...
Manicômio, quarto sete,
No fundo do corredor,
Última porta, à direita,
Uma janela gradeada,
E a cama desarranjada,
Com as roupas sujas no chão...
Lá dentro um louco sozinho,
Um louco que justamente
Por estar longe do mundo,
Por não precisar de nada,
Por não ter inveja alguma,
Nem guardar qualquer rancor,
Por não ter nada a perder
E viver melhor que eu
É um louco que me diz tudo,
Sem jamais ter dito...
...
Manicômio, quarto sete,
Última porta, à direita,
No fundo do corredor,
Uma janela gradeada,
E a cama desarranjada,
Com roupas sujas no chão...
Lá dentro um louco sozinho
Ilumina a solidão,
E em todo o resto, mais nada...
...
(Pedro Jaime Bittencourt)
Praia do Hermenegildo


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

BORGES E O PRESENTE PROMETIDO




(The unending gift)

"Um pintor nos prometeu um quadro,
Agora, em Nova Inglaterra, soube que ele morreu.
Senti, como em outras ocasiões, a tristeza de compreender
que somos como um sonho.
Pensei no homem e no quadro perdidos
(Somente os deuses podem prometer, porque são imortais)
Pensei em um lugar pré-fixado que a tela
não ocupará
Pensei depois: se o quadro estivesse ali, seria,
Com o passar do tempo, uma coisa a mais, uma das vaidades ou hábitos da (minha) casa;
Agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim.
Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa existe algo de imortal.)".
(De Elogio da Sombra - 1969)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

"VOCÊ ENTROU NO TREM E EU NA ESTAÇÃO..."


As antigas estações de trem ainda inspiram os mais variados sentimentos, de saudade, de paixão, de abandono, como na canção composta pela Adriana Calcanhoto, que empresta o título para este texto.
Nesta nossa região, o Trem serviu como meio de transporte de passageiros especialmente nas décadas de 50 e 60 (passando pelas Estações da Ayrosa Galvão e pela Estação Mauá, entre outras) e até fins dos anos 70 quando ainda operavam as Estações do Cerrito e de Pedro Osório, levando o trem que saía de Pelotas e seguia para Bagé, como aparece na conhecida Maria Fumaça dos irmãos Kleiton e Kedir.
No início da minha juventude, quando era estudante em Pelotas, cheguei a pegar o tal Trem lá na Estação do Bairro Simões Lopes, de onde ia até Pedro Osório, viajando às 6 da manhã, saindo direto de algum bar ou boate sem nem mesmo dormir, com direito a violão e cerveja dentro da Maria Fumaça, na companhia do Zeca do Valentim, do Darcy do Lino, do Baixinho do Assis e outros do Arroio Grande.
Depois do Passo das Pedras e do Cerrito acontecia a chegada em Pedro Osório; então, o negócio era dar uma passadinha no Hotel do Tio Willy para conseguir alguma "bóia", antes de ir para a "faixa" pegar uma carona final até o Arroio Grande.
Pois a foto aí de cima é da Estação de Pedras Altas, situada em frente ao famoso Castelo do Assis Brasil, e dá mesmo uma sensação de saudade e de abandono; a sensação de que a gente ainda está ali esperando o trem, que infelizmente já não vem mais.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O LUGAR E A SUA HISTÓRIA (II) O FAROL DA PONTA ALEGRE








Por ocasião da Cavalgada Cultural empreendida pelo Grupo “Lanceiros de Mauá” até a região da Ponta Alegre em dezembro último, o advogado e estudioso da história local Sérgio Canhada acabou publicando um trabalho de Memória do Farol da Ponta AlegreI, no ano de seu centenário, posto que o Farol foi oficialmente inaugurado em 1908. Esta crônica é baseada em alguns dados históricos que constam do trabalho do Sérgio, a quem pedi licença para copiar, muito embora até hoje, diga-se de passagem, continue aguardando pela sua “formal” autorização.
Mas, renitências à parte, vamos aos dados que interessam.
Preocupado com o crescimento da navegação na Lagoa Mirim na metade do Século XIX (para se ter uma idéia, entre fins de 1859 e meados de 1860, só o vapor Rio Grandense fez 22 viagens de Rio Grande para Jaguarão...), o Governo da Província encarregou, já em 1857, o Barão de Caçapava de emitir parecer sobre quantos e quais faróis se deveriam erguer na Lagoa Mirim, com o objetivo de avisar aos navegadores da proximidade com a porção de terra, a fim de evitar riscos às embarcações, especialmente à noite.
Concluído o estudo, chegou-se a cogitar da construção de até três faróis – “um na Ponta Alegre, outro na baliza do Juncal, e outro na ponta de S. Thiago”II -; todavia, por falta de recursos do Governo Imperial, e mesmo pela incidência da Guerra do Paraguai (1864 a 1870), os projetos ficariam paralisados até o início do Século XX, quando, em data ainda imprecisa, iniciaram-se as obras do Farol da Ponta Alegre.
Depois de pronta a torre, foi o Farol da Ponta Alegre inaugurado em 20 de setembro de 1908, conforme consta de notícia veiculada no Jornal Correio do PovoIII – “Foi inaugurado, no dia 20 do corrente, um pharol de 5ª ordem com torre quadrangular de alvenaria, de 16 metros de altura acima do solo e 17 acima do nível das águas, 1.000 metros ao SW da Ponta Alegre, na Lagoa Mirim. Sua luz é branca, fixa, visível a 12 milhas, com tempo claro. A torre é pintada de branco, bem como as duas casas dos pharoleiros que lhe ficam juntas”.
Desde então, o Farol, emitindo lampejos com intervalos de 6 segundos, passou a orientar a navegação noturna, “até por volta dos anos 50, quando foi desativado definitivamente”. IV
Segundo o navegador jaguarense Décio Vaz Emygdio, “O Farol da Ponta Alegre é o símbolo da Lagoa Mirim, mesmo desativado serve como ponto de referência, principalmente para os barcos que navegam do sul para o norte, que o avistam a uma distância de 8 milhas”.V
O mesmo narrador inclui em sua obra sobre a Lagoa Mirim o naufrágio do Navio Rio Grande ocorrido na fria madrugada de 1° para 2 de setembro de 1938, em meio a um enorme temporal, a cerca de 500 metros do Farol da Ponta Alegre.VI
Histórias de naufrágios, de encalhes, de ‘raides’, de faróis e de faroleiros de há muito habitam o imaginário coletivo que cerca a Lagoa Mirim; para nós, entretanto, acima das aventuras que possa ter iluminado, é o Farol da Ponta Alegre um símbolo do nosso Município, o emblema de uma história que os arroio-grandenses não deverão nunca permitir que naufrague.
I – O Farol da Ponta Alegre no seu centenário – Memória – Sérgio A. Silveira Canhada – 2008;
II – Relatório do Presidente da Província – 1859;
III – Correio do Povo (Porto Alegre, 30.9.1908);
IV – Lagoa Mirim, um Paraíso Ecológico – Décio Vaz Emygdio - 2000;
V – Idem, pág. 98 VI – Ibidem, pág. 100

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O LUGAR E A SUA HISTÓRIA (I) O arroio Grande













Entre os lugares mais emblemáticos do Arroio Grande existem dois que têm muito a ver com o nosso verão, não obstante presentes o tempo todo na vida e no imaginário dos arroio-grandenses.
Um deles, o arroio Grande; o outro, o Farol da Ponta Alegre, ambos de extremo simbolismo para o nosso município.
Vou aproveitar este início de janeiro para falar um pouco da história desses dois lugares, começando pelo arroio Grande.
Originado da junção de diversas sangas que se avolumam à medida que se aproximam dos cerros de São João do Herval, o arroio Grande nasce numa serra (mais precisamente num charco existente ao Sul da Coxilha da Tuna)[1] próxima à cidade do Herval, a uma altitude aproximada de 280 metros.
Depois de percorrer 36,7 milhas em curso extremamente sinuoso e irregular, deságua no Sangradouro da Lagoa Mirim, na latitude 32°20’36” S e longitude 52°47’10” W, onde há uma estaca quadrada marcando sua barra. Desemboca na ponta de uma península 3,5 milhas a noroeste da Ponta Alegre, próximo ao local conhecido como Pontal, no 3° Sub-Distrito do Município que leva o seu nome. Na barra, apresenta profundidade mínima de 1,90 m.
Possui matos em ambas as margens, intercalados com barrancas limpas e baixas. É chamado de arroio Grande, porque está no limite de tamanho entre o arroio e o rio. Dizem alguns que por pouco não foi chamado de Rio Pequeno.[2] Também consta da cartografia pátria possa ter sido conhecido, em determinada época, como Rio dos Tapes[3] (Tapes = lugar dos caminhos); entretanto, tal denominação pode ter sido dada ao arroio Chasqueiro, sendo o mapa referenciado impreciso nesse sentido. Tem como principais afluentes da margem esquerda, os arroios: das Capoeiras, Esmerlinda, Pitangueira, Arachanes e Sanga do Corrente.[4] Na margem direita, o Teapuí (Capuí) e o arroio das Pedras (onde fica o Passo do Simão, citado por alguns também como arroio Simão[5], isto é, com nomenclatura própria).
Comentam os navegadores que a navegação de maior porte no arroio Grande é interrompida a poucas milhas de sua foz por uma rede elétrica que atravessa seu leito. - “Não fora isso, poderia se navegar, com boa profundidade e largura, ainda por várias milhas”[6] – diz o jaguarense Décio Vaz Emygdio, acostumado a velejar pela região.
Os habitantes da cidade a qual ele dá o nome acostumaram-se a utilizar as águas do arroio Grande, própria para banhos, assim como também as suas margens para jogos e divertimento, especialmente na presente estação. Desde a chamada “Ilha dos Bancários” e à Hidráulica, ambas a oeste da zona central, passando pelo atual “Balneário da Ponte”, localizado junto à Ponte Carlos Barbosa – que fazia a antiga ligação com a estrada que levava ao Município de Jaguarão – e pelas diversas propriedades rurais da localidade (a Instalação, os Conceição, também o antigo Porto do arroio Grande...), até desembocar na Lagoa Mirim, próximo à Praia do Pontal, atual expoente de recreação e lazer do Município.
Como descrito pelo escritor Paulo Squeff Conceição, em crônica recente: “Andei por águas de boa parte deste mundo. De fato, os banhos do arroio Grande não são grandiosos como os da Polinésia e do Caribe, mas que o tempo em que os vivi foi o mais feliz da minha vida, foi”.[7]
E assim tem sido para todos que têm a felicidade de conhecer as suas águas, as águas de um grande arroio, as águas do arroio Grande.
[1] - História de Herval – Manoel da Costa Medeiros - 1980
[2] - Lagoa Mirim, Um Paraíso Ecológico – Décio Vaz Emygdio - 2000
[3] - Mapa de 1798 – Gab. Cartográphico do Estado Maior do Exército – Rio - 1936
[4] - História do Herval – Manoel da Costa Medeiros - 1980
[5] - Município de Arroio Grande – Álvaro O. Caetano - 1945
[6] - Lagoa Mirim, Um Paraíso Ecológico – Décio Vaz Emygdio - 2000
[7] - 13,5 Lugares do Arroio Grande e outras referências – Diversos autores - 2008

domingo, 4 de janeiro de 2009

UM CASTELO NO PAMPA*















Confirmada a previsão de tempo nublado para sábado em pleno 03 de janeiro, resolvemos, a Verônica e eu, fazer uma visita ao Castelo de Assis Brasil, uma construção no estilo dos castelos europeus situada no Município de Pedras Altas, distante 48 Km. de Herval, e, consequentemente, a cerca de 100 Km. de Arroio Grande.
Convidado o Sérgio Canhada, partimos para o Castelo, não sem antes agendar(1) por telefone a visita, para ter acesso as dependências internas(2) do prédio, pelo que é necessário pagar(3).
Para quem não conhece, até Herval é asfalto, mas os 48 kms. seguintes até Pedras Altas são de estrada de terra; estrada boa, de chão duro e sem nenhum perigo, não obstante a altitude, já que no trajeto situa-se um dos pontos mais altos da região.
Já para quem vem da região de Porto Alegre, ou mesmo de Pelotas, melhor caminho é por Pinheiro Machado (BR 293), para depois percorrer 36 Km., também por terra, até Pedras Altas.
Sobre Assis Brasil(4) existem muitas obras e inúmeras informações em sites da internet, assim como sobre o Castelo(5), razão pelas quais deixo de reproduzir maiores dados aqui, apenas reafirmando a impressão de todos que visitam o lugar.
Embora a rusticidade e a simplicidade do lugar, que não tem nem de perto o glamour dos castelos da Europa, a visita vale a pena mesmo pelo seu simbolismo e pela figura de Assis Brasil - ambos participantes de grande episódios do Rio Grande e do Brasil (do final do Sec. XIX ao início do Séc. XX) - contendo a Casa da Granja de Pedras Altas inúmeros documentos, fotografias e objetos que nos levam a viajar no tempo e conhecer um pouco mais da nossa história, uma história testemunhada por um Castelo em pleno Pampa Gaúcho.
(*) Um Castelo no Pampa é o título do livro do escritor Luís Antônio Assis Brasil, uma ótima definição para o lugar;
1. Agendamento pelo telefone (53) 36130099, com Lydia, neta de Assis Brasil;
2. Todo o primeiro andar: salão, biblioteca, quarto do casal, sala de estar, cozinha e outros aposentos; o andar superior está em reformas;
3. Apesar de necessário para a preservação do local, o preço individual atual é bastante "salgado": R$ 18,00; para grandes grupos, especialmente escolares o preço é de R$ 5,00 por pessoa;
4. Joaquim Francisco de Assis Brasil nasceu em 1858 em São Gabriel e morreu em 1938, em Pedras Altas. Advogado, político e escritor, foi ministro da república e embaixador do Brasil na Argentina, em Portugal e nos EUA; foi ainda deputado federal por mais de uma ocasião. No Rio Grande, foi um dos principais opositores a Borges de Medeiros e um dos protagonistas da Revolução de 23. É histórica a fotografia onde assisistas (maragatos) e borgistas (antigos pica-paus castilhistas) assinam o Tratado de Paz em pleno Salão do Castelo de Pedras Altas. Os móveis da ocasião ainda se encontram no local.
5. Construído a partir de 1908, o Castelo somente foi concluído em 1913, estando próximo de comemorar o seu centenário.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

BLECAUTE

Pouca gente lembra, mas há trinta anos, aproximadamente, lá pelo final da década de 70, faltou luz durante mais de uma semana em Arroio Grande.
Começou por esta mesma época, às vésperas do Natal, e entrou janeiro do ano seguinte adentro.
A origem do apagão foram uns geradores que estouraram lá pela Estação Basílio, num local de difícil acesso, e que tiveram as suas peças de reposição arrastadas sobre enormes pranchões, pelo meio do mato, até chegarem ao seu destino, quase uma semana depois.
Foi o caos. Primeiro sem luz, em seguida sem água e sem comunicação, a cidade teve que se acostumar com carências que julgava superadas: – falta de líquidos e alimentos frescos, ausência de chuveiro elétrico, de televisão... –, e mergulhou literalmente na escuridão do primitivismo.
Os dois primeiros dias todo mundo agüentou, na expectativa da solução que deveria vir a qualquer momento; deveria, mas não veio.
Passado o fim-de-semana - onde uns foram para a Praia, alguns para a Campanha, e outros para onde a luz fizesse menos falta -, quem pôde se mandou definitivamente, mas quem ficou comeu o pão que o diabo amassou, e comeu no escuro, sem nem enxergar direito o que mastigava.
Mais de uma semana sem luz, foi realmente um drama, mas que teve momentos divertidos, teve.
O Eraldo, rápido como sempre, tomou a dianteira; conseguiu um gerador emprestado e passou a ser o único da cidade com cerveja gelada, com as pessoas bebendo de tudo, até as Malt 90 - uma “coisa” fermentada, de rótulo verde, que tentou ser cerveja – as últimas que sobraram. Até gelo - que valia muito naquele momento - o Eraldo tinha, embora em doses limitadas, mas diariamente, lá na Top Set.
A maioria da cidade, porém, sofreu com o blecaute. Alimentos que estragaram, congelados que derreteram, sujeira por todo lado e uma verdadeira romaria diária para tomar banho no arroio, que se transformou num imenso chuveiro coletivo, com turbas de freqüentadores que deixavam as águas do Grande branquinhas da espuma dos sabonetes.
Uma parte da nossa turma, liderada pelo Luís Carlos Negrão, resolveu acampar em definitivo às margens do arroio, com liquinhos, fogareiros, colchonetes, e muita, mas muita cachaça, além do violão que iluminava as noites enormes e a própria alma dos acampados.
Estava fundada a República do Salso, do “lado de lá” do arroio, que recebeu a fina flor da bagaceira da cidade, entre borrachos, cantores, declamadores, aventureiros, ou simplesmente curiosos, e até abigeatários amigos, já que não era incomum aparecer por ali uma ovelha, um leitão ou uma penosa, todos achados meio que por acaso na escuridão da noite.
O ano que terminou sem luz, o final de ano que iluminou a minha mocidade. Quem viveu não vai esquecer o Natal mais solidário que jamais tivemos, quando nos comunicamos como nunca na cidade que ficou às escuras por mais de uma semana.
Foi um bom fim de ano, aquele. Numa época em que a gente não precisava ainda dos orkut para chamar aos outros de Amigo...

domingo, 21 de dezembro de 2008

DUAS HISTÓRIAS ONDE O DINHEIRO NÃO TEVE A MÍNIMA IMPORTÂNCIA




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Anos 70, época ainda do movimento hippie, revolução dos costumes, anos de chumbo por aqui, o Pedro Bittencourt, o Zéca do Valentim, o Zé Paulo e o Camões Avirelis, depois de uma excelente noitada, saem sem dormir do Arroio Grande e rumam para a Praia do Hermenegildo, em busca de sabe se lá o quê...
Depois do atalho por Santa Isabel, já na BR, lá pela altura da Capilha, o Opala Azul do Pedro acusa a iminente falta de gasolina; o Posto Ipiranga, no Taim, torna-se parada providencial.
Chegados ao Posto, mais cerveja, o Pedro pede Vinícius de Moraes, o Zé Paulo tira o violão do porta-malas, o Zéca prepara o vozeirão e a cantoria rola solta em plena beira de estrada.
Terminado o abastecimento, o Avirelis, declamando o “Soneto de Fidelidade”, se antecipa ao Pedro para pagar a conta. Aproxima-se do bombeiro, retira o equivalente a uns R$ 200,00 (em valores de hoje, óbvio) e alcança as notas, exclamando tropegamente: – Podes ficar com o troco, que hoje eu ‘to’ apaixonado! O rapaz, olhando àquele bando de loucos, já de saco cheio com a bagunça, responde ao Camões: - O Sr. ta é bêbado, a essa hora da manhã! O Avirelis espicha a mão, retoma o dinheiro, conta nota por nota e entrega o exato valor marcado na bomba para o funcionário: - Ta aqui o pagamento certinho; me dá o troco de volta que tu não tem sensibilidade. E embarca no Opala, ofendidíssimo.
Então não dava para perceber que tudo aquilo era uma demonstração de paixão? Paixão pela arte, paixão pela liberdade, paixão pela vida... Onde já se viu confundir tamanha paixão com bebedeira, onde já se viu!?!
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Verão de 1986, preços congelados pelo “Plano Cruzado”, saímos eu, o Birinha do Gita, o Kiko da Candinha e o Neneco Silveira a viajar pelo País e fomos até a Praia de Guarapari, no Espírito Santo. Lá, íamos sempre ao mesmo Bar, somente para beber; coisa de uns quarenta chopes e um litro de uísque por noite, na média.
O Neneco, que havia recebido uma boa grana, resolveu inaugurar uma moda: nós dividiríamos a conta por três e ele daria a gorjeta, com um detalhe: a gorjeta seria sempre no valor igual ao do consumo. A cada noite, contas de três dígitos, e o Neneco sempre dando a mesma quantia para o garçom. A coisa ia assim até chegar o fim-de-semana quando fomos avisados que, por ser sábado, as mesas somente seriam ocupadas por quem fosse jantar, o que não era o nosso caso, já que apenas bebíamos, no máximo beliscando algum petisco.
Já nos preparávamos para sair quando o nosso garçom de todos os dias, um chileno de Valparaíso, percebendo que iríamos embora, virou-se para o gerente e gritou, num portunhol claríssimo: – Acá! Mesa once para los muchachos! – dizia, apontando para nós – E pide cuatro filés com fritas e no necessita servir, que com ellos yo me acerto! – garantiu, o que acabou mesmo acontecendo.
Ao final, não comemos nada, pagamos o mundaréu de bebidas e o Neneco deu a gorjeta de sempre. E o chileno acertou a conta, fácil, fácil, fácil...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

RUA DA BAHIA, RUA DA BAHIA... (QUE NÃO, QUE NÃO, QUE NÃO ME SAI DO PENSAMENTO, AI, AI...)


Rua da Bahia, Arroio Grande, República dos Gumercindos, Brazil, Mundo, Via Lactea...
Dia 12 do 12 do último ano, do começo da madrugada até o clarear do dia...
O encontro da Velha Guarda, das Novas Gerações e das turbas mais representativas
"da mente insana dos amigos, que infernizam a cidade..."
As presenças reais, evocadas e invocadas que aparecem e desaparecem a todo o momento, sem nunca deixar de estar presente...
Os das fotos (abaixo), os de fora da foto (ao lado, com certeza!), e o da foto acima, o poeta, o criador, o mito, o eterno...
Rua da Bahia, 12/12/2008 - 33,333 anos depois - tudo tão diferente e tudo ao mesmo tempo igual; tudo novo e tudo tão repetido; tudo de novo, como se nunca tivesse deixado de existir...

domingo, 14 de dezembro de 2008

"AS VERDADEIRAS"

Numa época bem anterior a chamada globalização, onde as “coisas” modernas custavam a chegar ao Brasil, mais ainda aqui nesta zona de fronteira, eu tive a felicidade de sair por aí e acabei me deparando com “novidades” que só chegariam nesta paróquia mais de uma década depois.
Do código de barras à esteira rolante no caixa dos supermercados, das pílulas alimentares à bebida que gela ao abrir da lata, eu vim a conhecer a cerveja “sem álcool”, uma enorme novidade há vinte anos atrás. Entusiasmado com a descoberta, gastei “o que não tinha” e comprei doze garrafas da franco-holandesa “Buckler”. Experimentei uma e guardei as demais na mochila para quando retornasse de viagem.
Só pensava no meu pai, cervejeiro por natureza, e que segundo contas do Neneco Silveira teria tomado um açude de bebidas durante toda a sua vida. “Um açudezinho pequeno”, de uns 100 metros cúbicos, esclarece o Neneco, pra não parecer que exagera.
Pois o Pedro Bittencourt estava em Pelotas quando eu retornei, louco para mostrar as novidades. Enquanto conversávamos, fui entregando os presentes que trouxera pra ele: - Um livro do Jules Laforgue – poeta francês nascido acidentalmente em Montevidéu – comprado num sebo de Paris; um postal antigo do cabaré Moulin Rouge; um vinho português; e as Buckler “sans alchool”, compradas em Lyon, sem dúvida algo diferente para aquela época.
O Pedro, exagerado como sempre quando diante de algo novo, ficou radiante, mas não quis experimentar nada sem antes convidar o Jacques Chiacchio, seu parceiro natural de cervejadas. Telefonou pro italiano que estava em Arroio Grande e combinou um encontro no fim de semana, pra desfrutarem juntos da “novidade”.
No sábado, o Jacques apareceu no meio da tarde no apartamento que o Pedro ocupava em cima das Lojas Mazza, no Centro de Pelotas; impaciente, mal esperava à hora de experimentar a tal bebida, já antecipando que não via nenhum fundamento em tomar um negócio que não fizesse efeito.
No início do Jornal Nacional, o Pedro considerou o momento adequado pra abrir as cervejas, como aperitivo antes da dupla sair pra noite; pra o Bar do Comercial, pro Vinícius, pra Bete ou pro Solón, num roteiro que não tinha hora pra terminar.
Aberta a primeira garrafa, cada um sorveu um longo gole, enquanto se olhavam sem fazer nenhum comentário.
Tomaram uma, duas, três... nove, dez, onze, e acabaram ligeirinho com o pequeno estoque.
Então o Pedro se virou pra o Jacques e perguntou provocativo: - “E aí, italiano, bebeste todas as cervejas sem álcool e não tens nada pra dizer?”. Ao que o Jacques, com a calma que o caracterizava, olhou pra o amigo e exclamou na maior tranqüilidade: - “Ué, muito boas, lógico, mas agora vamu pará com essa brincadeirinha e abre logo uma das verdadeiras!”
E continuaram tomando cervejas, pela noite e pela vida afora...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

CERVEJEIROS

O Pedro Bittencourt e o Jacques Chiaccio, juntos, bebendo cerveja sem alcool?
Alguém consegue imaginar?
Pois isso realmente aconteceu. Uma vez, uma única vez, há quase vinte anos.
O resultado?
Pois eu vou contar na crônica de fim-de-semana - com o título de "As verdadeiras" -, aqui na página e no espaço do auto-retrato, às fls. 03 do Jornal A Evolução. É esperar e conferir.