domingo, 21 de setembro de 2008

NO MEU TEMPO...


A velha discussão sobre a maneira de como se vive em determinado momento e de como se viveu noutros tempos, e que culmina quase sempre com a afirmação de que - “No meu tempo era melhor!” -, só serve mesmo como retórica de bar, já que acaba comparando coisas incomparáveis, como, por exemplo, a vida da juventude de agora e aquela vivida pelos jovens há vinte ou cinqüenta anos, pois exatamente o tal tempo é capaz de tamanha confusão que torna impossível convencer sobre uma vida “melhor” ou “pior”, ontem ou hoje.
Para os casais de namorados, por exemplo, que só podiam namorar até determinada hora - quando chegava o momento em que cada um tinha que ir pra sua casa, podendo se ver somente no dia seguinte, afora algum eventual pulo de janela na madrugada -, o casamento chegava como algo novo: o momento em que mesmo terminando o dia a separação do casal não viria, ao menos teoricamente, é claro. E isto era bom e era ruim, dependendo do ângulo.
Já os casais de namorados de hoje, na sua grande maioria “dormem junto” desde muito cedo e aí passam o tempo todo lado a lado. Depois, quando decidem “casar” (precisa?), já não tem nada de novo pra oferecer um pro outro, e o casamento chega, assim, sem qualquer surpresa. E isto é bom e é ruim, também dependendo do ângulo.
Antigamente, eu lembro, a gente lia livros. Livros são aqueles objetos com capa e contracapa, com certa quantidade de folhas e alguma história dentro. Os livros possuem forma e cheiro; os livros têm textura e têm alma. E a literatura é, obviamente, uma arte, como o cinema, como a música, a poesia...
Pois hoje os livros perderam lugar para a internet, o cinema perdeu lugar para a televisão, a música perdeu lugar para o MP-5, para o MP-7 (sei lá em que número ‘ta, agora) e a poesia... bom, quanto a poesia a gente vai ter que fazer um cursinho pra lembrar melhor como era.
E de quem é o melhor tempo? De quem levava um mês lendo Sheakespeare, e outro para ler Cervantes; quem via Truffaut num semestre e Goddard no outro; quem escutava no rádio Noel, Pixinguinha, e ouvia a declamação de Neruda, de Drummond por auto-falantes? Ou de quem aperta apenas um botão agora e traz o mundo todo pra dentro de casa em menos de vinte segundos?
De quem é o melhor tempo, afinal? De quem levava meses, anos, para ser apresentado às novidades da “modernidade”, ou de quem está à poucos instantes de poder interferir ele mesmo na criação do novo? Hein, de quem é o melhor tempo?
Pois o melhor tempo, dá pra dizer, é todo o tempo em que se vive, e, como dizia o poeta - “O tempo de viver é toda a vida!”.
Por isso, a quem vive preso ao passado, a quem ainda insiste em parar (n)o tempo; levante, dê corda no relógio (do tempo), dê uma caminhada, vá até a esquina, até o bar, até uma praça; vá a um jogo de futebol, a um comício, a um show de música; faça o seu tempo, pois o melhor tempo ainda é hoje, com certeza é hoje, amigo, é hoje, ao menos até o dia de amanhã chegar...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

CONSERVADORISMO (A panela de tampa azul)

A mãe da Nazine casou com o pai da Magali em1958, há exatos 50 anos. É bem verdade que quando os dois casaram não eram ainda os pais de nenhuma delas, nem de quem quer fosse. Mas casaram, e quando chegou o casamento o casal ganhou os presentes comuns da época: jogo de lençóis, de toalhas, faqueiros, copos, e um conjunto de panelas, de quatro ou cinco peças.
Pois dessas panelas, todas de tampa azul, eu “roubei” uma da mãe das minhas irmãs; a segunda peça maior do jogo, eu acho.
É nela que eu cozinho todas as quartas-feiras - dia de preparar a crônica para “A Evolução”; noite de futebol na tevê e de ir até tarde na internet. Em meio a tudo isso - e a música e a conversa e o namoro... -, o preparo do jantar na panela de tampa azul.
Enquanto a comida apronta – filé ou alcatra, ou lombo de porco, ou peito de frango desossado, com molho quatro queijos por cima, depois... – eu fico observando a panela que os meus pais ganharam de casamento, e viajo no tempo entre um gole e outro de cabernet.
Quantas histórias refletidas no azul espelhado da tampa, quanta gente esteve próximo daquela panela sem nem mesmo notá-la, primeiro na velha casa da esquina da Praça, e, depois e definitivamente, junto ao número 34 da Rua Júlio de Castilhos.
Os padrinhos de casamento dos meus pais – o Sílvio “Bolinha” Carriconde e a mulher; o Dr. Antônio Siedler, que jogava xadrez com o meu pai; a Maria Caetano, sempre a visita mais esperada; a Carolina, o nosso “anjo” temido pelas injeções; a turma de fora – os Juízes Luís Antônio e Grassi, o Promotor Fausto, o Passinhos e o Jacaré; o pessoal do Regente, de Jaguarão; o Delegado Bosa e os advogados da cidade, quase todos – o Dr. Paulo Carriconde, o Arnóbio, o Sérgio Canhada...; o Camarão, antes de virar Prefeito no Herval; os músicos Basílio Conceição e Gilnei Silveira; os Negãozinhos, de Pelotas; o Avirelis, a Amália, o Julinho Salaberry, e uma geração inteira de boêmios que fizeram da “Rua da Bahia” um lugar marcante do Arroio Grande.
Muitas dessas pessoas já partiram, outras naturalmente envelheceram, e a velha panela permanece ainda em plena atividade, cumprindo com a sua missão de fazer “comida boa”, e com a promessa de total serventia por mais meio século, talvez.
É bem verdade que o azul da tampa já se encontra meio desbotado, sofrendo com o desgaste natural do tempo; mas também pra quem assiste as campanhas políticas de hoje – pálidas, chochas, sem brilho algum... - como exigir mais da velha panela, como pensar em substituí-la sem arriscar comprometer o próprio paladar, como experimentar algo novo sem a certeza de que a gente não vai se arrepender depois?
Pois eu não sei se me acomodei, se virei conservador, ou se o marketing das “novidades” anda muito fraco atualmente, mas a verdade é que, ao menos por agora, eu não vejo a menor necessidade de trocar a panela de tampa azul, não vejo mesmo, de jeito nenhum, não vejo não.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

AS RUAS DA MINHA CIDADE (VI)


Rua Dr. Dionísio de Magalhães
(clique na imagem para ampliar)
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A rua Dr. Dionísio de Magalhães pode ser retratada de vários ângulos: da descida da Corsan, lá em baixo, até a Praça Central, desta em direção onde se dá o que já foi chamado de “Encontro dos Doutores”, ou seja, o cruzamento da Dr. Dionísio com a Dr. Monteiro (esquina da Praça, do antigo Café...), e, daí em diante, sempre seguindo para o leste (como os índios Arachanes, povo que supostamente habitou estas paragens), até a Escolinha Estadual, já lá próximo aos fundos da Cooperativa, que foi o cenário escolhido para ilustrar a foto da rua.
Esta é uma rua marcante na minha infância, pois fiz todo o primário na Escola Dr. Dionísio, onde aprendi a conhecer um pouco do personagem que emprestou o nome ao educandário.
O Dr. Dionísio de Magalhães era natural de Pelotas, parece, tendo cursado a Faculdade de Medicina em Porto Alegre e concluído o curso no Rio de Janeiro.
Depois, como era comum naquela época, veio a clinicar em Arroio Grande, onde casou, em segundo casamento, com D. Dora B. de Almeida, deixando como filha Maria Cláudia Magalhães e diversos netos.
Dionísio de Magalhães foi também político, filiado inicialmente ao PRR (Partido Republicano Riograndense) e, posteriormente, ao PSD, legenda pela qual foi eleito Prefeito da comuna, governando de 1948 até 1951.
A gestão do Dr. Dionísio a frente da Prefeitura foi marcada pelo empenho na solução do problema da água na cidade (até o surgimento da Hidráulica a água era fornecida - vendida em pipas - pelos aguateiros), assim como de melhoramentos na Usina Elétrica Municipal (que fornecia energia para a iluminação do Arroio Grande, sendo substituída pela CEEE mo início dos anos 60) e a pavimentação de algumas vias públicas.
O Dr. Dionísio de Magalhães morreu no ano de 1956, sendo sepultado aqui em Arroio Grande em meio a muitos discursos, como, por exemplo, da Prefeito da cidade à época, o Dr. Lauro Medeiros de Albuquerque.
Existe um busto em sua homenagem na Praça Central, bem em frente à Prefeitura.
A rua Dr. Dionísio tem abrigado diversos estabelecimentos comerciais nos últimos 50 anos; para conhecer melhor a história das casas e dos moradores da Dionísio de Magalhães é obrigatória a leitura das “Cartas/Crônicas” escritas pelo Arnóbio e endereçadas ao João Antônio (Jotagê) na década passada. Espero que se confirme à palavra do Arnóbio de que publicará as tais “Cartas Crônicas” brevemente no seu blog, cujo link de acesso se encontra nesta página.

sábado, 6 de setembro de 2008

NÃO TIREM A CASQUINHA DO CANTO, POR FAVOR

Existem determinados lugares - lancherias, bares, cafés - que costumam servir a torrada ou o sanduíche com as bordas cortadas, sem aquela casquinha que circunda o pão.
Pois eu, sempre que peço esse tipo de lanche, vou logo avisando: - Não tirem a casquinha do canto, por favor. É verdade. Tirar, pra quê? Se faz parte do lanche, se a gente tem direito. Qual a razão de cortar a tal casquinha?
O mesmo acontece como o bauru. Sempre tem quem peça o seu bauru sem algum ingrediente. – Quero o meu sem alface; - O meu sem tomate; - dizem, e vão diminuindo o bauru, que já é um “a la minuta” mutilado, até não dar mais. Já houve quem pedisse o bauru sem o pão, como eu presenciei certa vez, e até sem o filé, numa excentricidade de vegetariano. Quanto desperdício.
Pode até ser um lugar comum, mas a vida só vale a pena se for vivida na sua plenitude, com a maior força possível, com tudo o que a gente tem direito.
Vida é atividade, correria, trabalho, cansaço, reclamação, descanso e recomposição. São os vícios inevitáveis: o jogo, a bebida, o tabaco... Mesmo quem já deixou de fumar não esquece nunca do prazer inigualável do cigarro, depois do cafezinho, depois do chimarrão, depois do sexo.
Vida é intensidade, nas escolhas, no amor, na paixão. A paixão só vale a pena quando carregada, cheia. Relação boa é relação com complicação, com rusga, com rompimento e com recomeço. Tem que ter movimento, agitação, sexo barulhento, inveja dos amigos e reclamação dos vizinhos.
Relação morna é como torrada sem a casquinha do pão, como bauru sem alface, como cachorro-quente sem mostarda. A gente pode até querer comer, mas não vai nunca lamber os beiços.
Eu insisto: se a gente tem direito a tudo, tem que querer tudo. Ética, democracia e liberdade; educação, saúde e trabalho; quadras de esporte pra gurizada jogar, árvores na praça pra juventude namorar e as ruas da cidade limpas pra gente caminhar. Menos que isso é menos que meio pão, menos que a torrada completa.
Agora mesmo, daqui a um mês, vai ter eleição pra Prefeito e pra Vereador, aqui em Arroio Grande e no Brasil inteiro. Pois tem gente que reclama e diz que não vai votar pra vereador. Diz que não vale a pena, que eles não fazem nada, que os candidatos são despreparados, essas coisas...
Pois eu vou votar pra Prefeito, pra Vice, pra Vereador, e, se pudesse, votaria pra mesário, pra presidente de Seção, e até pra Juiz Eleitoral se me deixassem.
Porque o voto também tem que ser pleno, cheio, de ponta a ponta; o voto é o momento culminante da cidadania, ele é definidor e não deveria nunca ser minimizado.
Pensando bem, acho que o voto é mais importante, bem mais importante que a casquinha do canto da torrada, e se nem essa eu desperdiço...
Do meu voto ninguém vai tirar casquinha, não vai não.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A TORRADA E O VOTO

Qual a relação entre a torrada e o voto?
Será porque o lanche é rápido e a urna eletrônica também?
Ou então porque depois de experimentar um e outro a gente não sabe direito o que virá. Se satisfação ou carência, necessidade de complemento?
Ou será talvez porque certos candidatos já estão há muito tempo meio tostados, chamuscados?
Tem uma explicação (?) pra essa relação na crônica intitulada "Não tirem a casquinha do canto, por favor".
A publicação é neste fim-de-semana, no jornal "A Evolução" e aqui na página. É só esperar.
PS - Para o Carlos Ricardo, o Solismar e outros leitores: espero já na próxima semana retomar o ciclo "As ruas da minha cidade", provisriamente abandonado por absoluta falta de tempo do escriba.
Abraços.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

(???)

A Revista "Leia", uma publicação cultural dos anos 80, publicou certa ocasião uma matéria muito interessante, onde perguntava para mais de 500 escritores do mundo inteiro o seguinte: "O que move a escrita?"
Os escritores mais famosos do planeta dividiram-se entre respostas simples e complexas, entre respostas curtas e longuíssimas, entre explicações e complicações.
Não lembro da maioria das respostas, e até nem tenho certeza se foi nessa ocasião que Jorge Amado, refletindo a respeito do tema, afirmou o seguinte: "Literatura se faz com ócio".
É verdade que são coisas bem diferentes, distintas: uma, o (sentimento, motivo, intenção...) que faz com que a gente escreva; e, outra, as condições que permitem que a gente consiga escrever.
Acontece que mesmo com o desejo permanente de colocar no papel as "idéias", e não obstante as baixas de inspiração que costumam contaminar os "amadores da profissão", verdade é que com a "correria", as ocupações e o stress do dia-a-dia, ninguém consegue redigir com tranquilidade coisa alguma e nem criar uma página sequer que valha a pena, ainda que minimamente, oferecer aos leitores.
Talvez por isso é que a página vem se movimentando tão pouco últimamente.
Ou talvez porque nessa época de campanha política, onde a pobreza da disputa eleitoral domina todos os assuntos, todas as rodas de conversa, todos os encontros, as motivações da escrita se tornem também menores, e não se tenha nada original para dizer e nem mesmo quem queira escutar.
Por tudo isso, talvez, e pelo mais que se contrapõe ao ócio reclamado pelo baiano Jorge Amado; talvez por isso, talvez...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

ODE AOS CHATOS* (completa)









...

Difícil traçar o exato,
O puro fiel, completo,
O exato perfil dos chatos...
Pelas estradas dispersas,
Nas alegrias, nas dores,
Há chatos de várias cores,
Das espécies mais diversas...
Morenos, loiros, mulatos,
Ricos, pobres, remediados,
Grã-finos e proletários...


Há os espertos, os otários,
Há os ruidosos, os discretos,
Os que falam alemão,
Italiano, grego, francês,
Os que sabem que são chatos,
Os que pensam que não são...
Há chatos bem comportados,
Há chatos bem educados
Que chateiam com bons modos...
Há os chatos elegantes,
Os magros, os barrigudos,
Os ladinos, os finórios...
Há os chatos bem falantes,
E até os chatos mudos...
Todo chato é de lascar
Mesmo os que têm dinheiro
E até gostam da pagar...
Há chatos por todo lado
Pois estão multiplicados...
Nas Igrejas, nos Teatros,
Nos bailes e nos velórios
Há chatos chateando a gente
E dizem que ultimamente
Há chatos chateando chatos...

Mas os piores de aturar,
Os que nos tiram a graça,
Os que estragam nossas noites
E qual terríveis açoites
Constituem uma desgraça
São os chatos bodegueiros
Chatos especializados
Em chatear gente no bar

Chegam tão devagarinho
Que nem dá para notar...
Parecem baratas tontas
Que se encostam no balcão...
Sem que se saiba porquê
Sem que você se dê conta
Tomam conta de você...
Sem você dar-lhes motivo
Murmuram aos seus ouvidos
Mil assuntos sem sentido,
Sem nexo, sem interesse...
Derrubam o aperitivo,
E sempre repetitivos
Lhe cutucam de mansinho,
E aos gritos, aos trambolhões,
Puxam o seu colarinho,
Arrancam os seus botões
Despenteiam os seus cabelos,
Cospem tudo na sua volta,
Lhe apalpam, tocam, empurram,
Praticamente lhe esmurram
Para chamar-lhe a atenção...

Se você vai ao banheiro
Os chatos chegam primeiro
Para seguir a conversa...
Eles são a sua escolta,
Não há mais como evitá-los...
Em qualquer itinerário
Eles irão surpreendê-lo
Mesmo que mude de bar...
Entretanto é necessário
Compreendê-los, perdoá-los,
Pois o fato surpreendente
É que o chato chateia a gente
Sem a intenção de chatear...
O chato chateia a gente
Tentando nos agradar...
(Pedro Jaime Bittencourt)

ODE AOS CHATOS (Primeira Parte)

O Pedro Bittencourt deixou um poema que é uma preciosidade, chamado “Ode aos chatos”, onde ele identifica vários tipos dessa categoria.
“Ode”, para quem já esqueceu das aulas da Profª Mimi, é uma expressão latina que vem do grego ‘odés’, que quer dizer “canto”; assim, numa simplificação, ode seria uma composição (em verso) que pode ser cantada.
Como o Pedro já partiu e não pode mais ser incomodado (alguém acredita que pode???), publico o poema em duas partes, nesta e na próxima semana, arriscando receber alguma resposta dos nossos indefectíveis amigos. Celebremos, pois, aos chatos.

Difícil traçar o exato,
O puro fiel, completo,
O exato perfil dos chatos...
Pelas estradas dispersas,
Nas alegrias, nas dores,
Há chatos de várias cores,
Das espécies mais diversas...
Morenos, loiros, mulatos,
Ricos, pobres, remediados,
Grã-finos e proletários...

Há os espertos, os otários,
Há os ruidosos, os discretos,
Os que falam alemão,
Italiano, grego, francês,
Os que sabem que são chatos,
Os que pensam que não são...
Há chatos bem comportados,
Há chatos bem educados
Que chateiam com bons modos...

Há os chatos elegantes,
Os magros, os barrigudos,
Os ladinos, os finórios...
Há os chatos bem falantes,
E até os chatos mudos...
Todo chato é de lascar
Mesmo os que têm dinheiro
E até gostam da pagar...


Há chatos por todo lado
Pois estão multiplicados...
Nas Igrejas, nos Teatros,
Nos bailes e nos velórios
Há chatos chateando a gente
E dizem que ultimamente
Há chatos chateando chatos...

(continua...)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

CHATOS, CHATOS...

Alguém sabe por acaso o que significa uma ode? Sim. Não? Talvez.
Mas um chato todo mundo reconhece, não é mesmo? Parece que sim, a julgar pela expressão do companheiro aí do lado.
Pois o Pedro Bittencourt escreveu certa vez, lá na Praia do Hermenegildo, uma tal 'Ode aos Chatos', uma preciosidade que nunca foi publicada.
Nunca, até o próximo fim-de-semana, quando o texto será apresentado aos leitores de "A Evolução" (em duas partes) e aos blogueiros desta página (por inteiro).
Aguardemos então o encontro com os nossos amigos chatos, celebrados em verso pelo poeta Pedro; é neste fim-de-semana, é inadiável.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

QUERO DE VOLTA O MEU PIJAMA DE ALGODÃO

Eu perdi o meu pijama de algodão. Não sei quando, nem onde, só sei que não consigo mais encontrar o pijama da minha mocidade. Armários, gavetas, sacolas... já procurei por todos os lugares e nada de encontrá-lo. Mas eu queria de volta o meu pijama de algodão.
O pijama, mais do que qualquer peça de vestuário, mais do que qualquer enfeite, do que qualquer adorno, acaba se transformando um símbolo de companheirismo, um símbolo de apego, um símbolo da nossa intimidade.
É ele quem compartilha conosco sonhos e fantasias, é com ele que dividimos as nossas preocupações, é ele quem nos acolhe e nos protege no frio do inverno; é o pijama de algodão que fica humildemente esperando, sem qualquer reclamação, até o final do verão, quando decidimos buscá-lo novamente.
As coisas - como diz Borges – nos servem como se fossem escravas, cegamente e em absoluto sigilo. Coisas que vão durar muito além da nossa memória, e que sequer vão saber quando tivermos partido.
Pois são essas coisas que eu procuro e é delas que eu mais preciso agora. O rádio de pilha que me acompanhava quando eu tinha dezessete anos; o meu time de futebol de botão de guri; a coleção de revistas que amenizava a minha insônia de adolescente e o meu pijama de algodão. Coisas, enfim, que vão muito além dos registros da minha memória.
Quando a gente é jovem, sequer percebe a força que essas coisas têm e acaba descartando tudo com a maior facilidade. O desapego e a desatenção fazem com que a gente jogue fora o que vai desejar tempos depois.
Com o passar dos anos, porém, a gente já não tem mais tempo para descartes e quer juntar tudo o que esqueceu pelo caminho.
Por isso, quero de volta os livros que emprestei, quero retomar as conversas que desperdicei, aquele projeto antigo que eu larguei desde a época da faculdade; quero comigo tudo o que perdi, tudo o que eu já não sei mais onde está.
Queria poder juntar os meus antigos casacos de inverno, a mantinha de pescoço do mundial de 78, a fotografia do casamento dos meus pais, o retrato em branco e preto dos meus avós, tudo o que um dia eu fui deixando de lado sem sequer perceber.
Porque tenho medo que, com o passar do tempo, mesmo juntando algumas dessas perdas, mesmo reencontrando o meu primeiro álbum de figurinhas, o meu pijama de algodão, essas coisas já não me reconheçam mais.
Eu, que já esqueci as fantasias da minha meninice, eu que joguei fora os devaneios da adolescência, eu que sequer lembro das utopias da minha juventude..., neste momento, hoje, agora -, mais do que dinheiro, mais do que poder, mais do que qualquer coisa –, eu juro que queria de volta tão somente o meu pijama de algodão.
Porque dentro dele talvez ainda estejam todos os sonhos que eu também extraviei pelo caminho...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

DEFERÊNCIA

Em homenagem aos inúmeros arnobianos e caboclianos que se manifestaram com relação ao texto publicado na semana passada, cultores do extraordinário talento do Arnóbio e do Caboclo, eu, também suspeitíssimo apreciador da arte de escrever dos meus amigos/irmãos (na foto, parceiros no lançamento do Livro 13 Lugares e meio do Arroio Grande...) Zanottas e Damatta, resolvi mantê-los na página até a nova crônica do auto-retrato, a ser publicada aqui neste espaço na sexta-feira - 15 de agosto.
Prometendo para não muito tarde (setembro, talvez), a publicação de Arnobianas e Caboclianas II - O duelo entre a Figueirinha e o Capão das Pombas; um texto ainda em gestação, mas que deverá envolver os "discípulos" dos dois movimentos, entre os quais, naturalmente, se incluem quase todos os visitantes desta página.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

ARNOBIANAS E CABOCLIANAS


Os leitores da cidade se deparam toda a semana com pelo menos dois “movimentos”, duas tendências que costumam instigar a imaginação literária local. Duas vertentes que não têm nome, mas que, surgidas da obra e da arte dos seus criadores – o Arnóbio e o Caboclo – podem ser denominadas, por derivação, de arnobianas e caboclianas, dependendo da origem.
Pois as crônicas arnobianas seriam as minhas preferidas, não fossem os textos caboclianos, ou vice-versa, já que realmente nunca sei com o que irei me deparar a cada vez que abro o Meridional, onde eles costumam se apresentar periodicamente. E toda semana vivo essa dúvida, esse dilema: com quem ficar desta vez? Com o texto perfeito, redondinho, irretocável, do Arnóbio, ou com a escrita transgressora, viajante, simplesmente genial do Caboclo???
Com quem irei me identificar mais? Com as estórias precisas do Professor, onde os tipos mais pitorescos – da Coxilha do Fogo, das 7 Portas, do Gravatá... – se apresentam para nós o tempo todo; ou com as histórias fantásticas, surreais do Compositor, com os seus abduzimentos, os seus radmas, pátmas, e essa mistura impressionante de heráclito com albertino, de empédocles de agrigento com zorginho do eni; essa junção entre os da grécia e os do matarazzo, esse encontro entre os de marte e os daqui...
Desses dois movimentos pouco ou nada se sabe, ainda que eles nos digam muito a cada semana. Eles estão separados e estão juntos, se afastam e se aproximam, se opõem e se atraem, tem tudo e não tem nada a ver.
Penso comigo, porém, que eles se encontram um no outro quase que diariamente, para não dizer sempre. Porque o Caboclo é, na verdade, o melhor dos arnobianos, enquanto que o Arnóbio é um perfeito cabocliano; tão diferentes que acabam por se parecer - impactantes como tudo que é absurdamente grande.
Mas e o leitor, de quem será afinal? Da escrita milimétrica ou do risco transgressor? Do enrolado ou do palheiro, do fusquinha ou do corsa, da figueirinha ou do capão das pombas...
Poesia concreta ou abstrata? Métrica livre ou decassílabo? Prosa caótica ou realismo? Com quem ficar, enfim, entre esses movimentos que provocam a todos - leitores e escribas – e nos levam a transitar pelos labirintos e corredores mais improváveis desta paróquia.
Qual deles seguir, afinal? Na busca de uma resposta, eu permaneço repetindo (e desdizendo) semanalmente: as caboclianas seriam as minhas preferidas, não fossem as arnobianas, ou vice-versa, ou nada disso, ou muito antes pelo contrário...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

AS RUAS DA MINHA CIDADE (V)

Rua Basílio Conceição
(clique na imagem para ampliar)
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Um acidente de carro ocorrido na Estrada de Rio Grande (depois da Vila da Quinta), em meio a uma madrugada do mês de abril de 1990, viria a alterar definitivamente os destinos da rua Duque de Caxias, em especial no local entre as quadras Dr. Monteiro e Júlio de Castilhos, no Centro de Arroio Grande (foto).
A morte do músico Basílio Conceição, o mais criativo artista da "Terra de Mauá", surpreenderia a toda a cidade, e deixaria os seus conhecidos, amigos e companheiros perplexos, diante do inusitado, diante do inesperado, diante da tragédia.
Basílio Conceição, o Peninha, o Louco, o Diabo, foi um dos personagens mais irreverentes da história do Arroio Grande, e teve, após a sua morte, o reconhecimento que a cidade jamais admitiria conceder-lhe em vida. Virou referência artística, nome do Centro Cultural do município, e, não muito tempo depois da sua morte, viria ganhar o nome da rua onde a sua família residiu por longos anos, a antiga rua Duque de Caxias, bem próximo ao centro da cidade.
Na foto, para os que não conhecem, vê-se, à esquerda, em azul, o prédio do antigo Clube Guarani, o Clube dos Morenos (um "eufemismo" para a raça negra), tristemente desativado já há alguns anos; e, à direita, na cor amarela, o portão da garagem e a entrada da casa da família do Basílio, onde moraram por muitos anos a "Dona" Zilda e o "Seu" Wilmar, os pais do artista, que, naturalmente, jamais conseguiram compreender a força da genialidade do filho.
Aqueles que conviveram com o músico - caso do autor do blog - têm, naturalmente, inúmeras histórias para contar; como, porém, o objetivo da página é falar sobre "a rua" Basílio Conceição e não sobre o personagem, deixamos de nos aprofundar sobre a figura do Basílio, remetendo, a quem tiver interesse, para a leitura do texto "O Enterro do Diabo", publicado na Revista Gente Boa, de Pelotas, e postado no blog premioliterarioag.blogspot.com pelo autor desta página, tudo no ano de 2007.
Mas a rua Basílio Conceição - que começa praticamente embaixo da Ponte Carlos Barbosa (que liga a antiga Estrada Arroio Grande/Jaguarão) e termina logo em seguida ao "Beco dos Bidivas", próximo à Av. Maria Pereira das Neves - é uma rua limitadíssima, da calçamento totalmente irregular e quase sem atrativos, com exceção da antiga Barbearia do Gilberto, e, atualmente, da "venda da Dona Eva" que faz uma das melhores linguiças do Arroio Grande, quase em frente ao "pátio da Prefeitura".
A rua teve, pelo menos, a ousadia de trocar de nome: de um militar, um comandante de guerra, um Marechal, um Duque; para um músico, um artista, um bêbado, um provocador...
Se a cidade ganhou ou perdeu com a troca não se sabe, mas o fato é que Arroio Grande tem, agora, mais uma placa de rua com o nome de um filho da terra, o "maldito", o Louco, o Diabo; o polêmico, irreverente e inesquecível Basílio Marçal da Conceição.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

"PREFIRO PRETO À MULHER"

Caetano Veloso disse uma frase difícil dia desses, numa entrevista que antecedeu a sua viagem para fazer shows nos Estados Unidos: - Prefiro preto à mulher – falou, numa referência à vitória de Barack Obama sobre Hilary Clinton, nas prévias do Partido Democrata.
É uma frase difícil, complicada, como o próprio Caetano reconhece.
“Talvez eu tenha dito que prefiro à causa dos negros à causa das mulheres” – ele revelaria depois, acrescentando que também achou a expressão “meio sem sentido”, como todos acharam, a não ser que ela tivesse um conteúdo homossexual, que afinal não tinha, segundo o seu próprio autor.
Mas Caetano é irreverente e proposital: dispara as frases primeiro, para (tentar) explicá-las depois.
Eu gosto de pessoas assim, que desafiam a própria capacidade de explicação, que tentam argumentar sobre conceitos difíceis.
Eu gosto de frases assim, embora não possa dizer que prefiro preto à mulher. Aliás, prefiro mulher a preto, a branco, a alemão; prefiro mulher a homem, prefiro mulher a gay e prefiro mulher a mulher, se é que me entendem.
É verdade que também prefiro a causa dos negros. Pra ser sincero, nem sei se as mulheres, nesses tempos de igualdade, têm ainda qualquer causa, exceto a de passar a semana inteira brigando com a balança, nesta época difícil de inverno, quando costumam se entupir de x-salada com bastante maionese e coca zero.
Mas nós, da estética do Sul, também não negamos a nossa preferência pelo resultado do xis-salada, mesmo quando ele aparece por entre o final da blusa e o começo dos quadris, ou quando sobressai sob a calça justa, bem colada na bunda, num passeio domingo à tarde. E em meio a goles de chimarrão e mordidas de rapadura, então... Meu deus!
É que as mulheres, independente da causa que persigam, têm tudo para nos oferecer quando não estamos distraídos com o futebol. Elas têm a esperteza do olhar, o jogo dos cabelos, o jeito de andar... Têm o que a gente necessita pra sobreviver. Nelas, até o resultado do x-salada fica bem; quer dizer, a gente acha bom e pronto! Às favas com os padrões de beleza das modelos da televisão.
Por isso é que eu considero a frase do Caetano sem sentido, exceto se ele estiver comparando os dois personagens apenas como políticos: o senador Barack e a senadora Hilary, e o que cada um deles poderia representar chegando à Presidência dos EUA.
Bom, aí talvez eu também venha a preferir o negro Obama à mulher Clinton; talvez, eu disse, talvez.
Porque, fora disso, se a Hilary abandonasse aquele modelito tailleurzinho de convenção, e passasse aqui pelo Arroio Grande e pedisse um x-salada com bastante maionese, ou comesse rapadura, ou tomasse um chimarrão à tardinha em plena Dr. Monteiro, carregando uma bandeira com a estrela vermelha, não sei não, mas acho que até o Donga ficaria a perigo, não sei não...

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O X-SALADA, A DR. MONTEIRO, BARACK OBAMA E HILARY CLINTON

Qual a relação entre o x-salada e a rua Dr. Monteiro?
O que o compositor Caetano Veloso disse, parecendo externar a sua preferência por Barack Obama, quando ele disputava com Hilary Clinton a indicação do partido democrata para concorrer à Presidência dos EUA?
É possível considerar a frase "prefiro preto a mulher" uma frase passível de explicação; ou é uma frase assim "meio absurda" como dito pelo próprio autor?
É o assunto de sexta-feira, aqui no blog e na página três - coluna auto retrato - do jornal "A Evolução".
O que vai dar pra dizer sobre isso só lendo, só lendo...