Quem me
enviou o material foi o Sérgio Canhada.
O anúncio
aí de cima foi publicado no jornal Gazeta de Lisboa, nº 188, de
10/08/1827*, pg. 4., há cento e oitenta e cinco anos,
portanto.
Trata-se da
oferta de venda de uma suposta herança no Arroio Grande, Rio
Grande do Sul da América, por 18 contos de réis
O valor, se
não era nenhuma fortuna, também não era tão pouco, haja vista que
daria para comprar quase 5.000 ha. de terras por aqui, com a ressalva
de que os campos valiam bem pouco naquela época (o valor de uma
panela grande de ferro, por exemplo – 8 mil réis – dava para
comprar no mínimo duas hectares de campo).
É pouco
provável que se venha algum dia descobrir de quem era a tal herança,
se existia ou não, e se acabou mesmo vendida pelo corretor do
além-mar.
Mas que tem
um cheiro de velhacaria nesse bacalhau, ah isso tem. Publicar anúncio
de venda de “uma herança” do inóspito Arroio Grande do início
do Século XIX na tradicional Gazeta da civilizadíssima Lisboa de
1827 não parece ser anedota, não; alguém pretendia lucrar nessa
história, será que conseguiu?
* Em
1827, data do anúncio, o Arroio Grande, cujo povoamento começara
com o erguimento de uns “arranchamentos” lá por 1792 (embora se
diga oficialmente que “a cidade foi iniciada no ano de 1803, com
Manuel Jerônimo de Souza”[1] – um açoriano), era, ainda,
distrito – primeiro de Rio Grande (até 1832), e, desse ano em
diante, de Jaguarão (até 1873, quando AG foi elevado à categoria
de Vila).
Não
obstante, já era esta região denominada à época de “Freguesia
do Arroio Grande”, ou “Espírito Santo do Arroio Grande”, e
assim permaneceu até 1832 quando ocorreu a emancipação de Jaguarão
(esta chamada inicialmente de Guarda da Lagoa e do Serrito, depois
chamada de “Espírito Santo do Serrito, ou Espírito Santo da
Lagoa”).
Conforme o
Sérgio Canhada “já em 1816 este lugar se chamava Arroio Grande,
pois no 2º casamento do Souza Gusmão, em 23/5/1816, no Povo Novo,
com Maria Pereira (a “tal” Maria Pereira das Neves), ele declara
que é 'viúvo que ficou por falecimento de Laureana Maria, sepultada
no cemitério do Arroio Grande, distrito da Freguesia do Espírito
Santo da Lagoa”.
Segundo os
historiadores, até o ano do anúncio, 1827, a região vivia um
período aparentemente tranquilo, “brutalmente truncado pelos
desdobramentos da guerra da Cisplatina, e muito especialmente pela
invasão das forças argentino-uruguaias, em janeiro de 1828” [2].
“Jaguarão
se aprestava para transformar-se em frente de batalha, muito a
contra-gosto de seus habitantes. (…) Todavia, a 7 de janeiro de
1828, atendendo a novos planos do comando geral do exército, as
forças se retiraram de Jaguarão para as pontas do Arroio Grande,
desprotegendo por completo a jovem povoação. O resultado imediato e
lógico dessa manobra desastrada (…) foi o avanço do exército
argentino e a ocupação de Jaguarão” [2].
1.
Cfe. Alvaro O. Caetano – Município de Arroio Grande –
1945.
2.
Cfe. Sérgio da Costa Franco – Origens de Jaguarão –
1980.
Nesse
quadro, portanto, de sucessivas escaramuças com os castelhanos
que viviam ameaçando tomar conta desta parte da região, foi
onde o nosso patrício português (um pouco antes, é verdade, e
certamente sem saber dos interesses de Lavalleja, de Rivera e do Gal.
Paz), anunciou o “grande negócio” nas nobre páginas da Gazeta
de Lisboa – quem quiser comprar uma herança existente no Arroio
Grande do Rio Grande do Sul da América...