quinta-feira, 13 de setembro de 2012

1912-2012

A Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas está comemorando 100 anos (Fundação: 12/09/1912).
Lá passei cinco inesquecíveis anos da minha vida, de 1979 a 1983.
A foto acima é mais ou menos dessa época, do final dos anos 70.
Aqui no blog já escrevi timidamente a respeito do tempo da Faculdade, link:
No texto (porque a postagem foi dirigida ao pessoal de Arroio Grande), faltou eu fazer referência aos Schlees - pai e filho -, ao Gastal, ao Angelo Zanatta, ao Claudiomiro, aos companheiros do Centro Acadêmico (Diretório), a turma do Sanatório (a Boate) e a tantos outros com quem tive o prazer de conviver naquele período.
Parabéns a velha Faculdade do Direito, aos seus professores, alunos, servidores e a todos que passaram por lá. Parabéns a todos nós!

domingo, 9 de setembro de 2012

SERGINHO DA VASSOURA

Artista de rua, genuína alma popular, Serginho da Vassoura é a grande novidade da música pelotense, com suas canções diretas e ao mesmo tempo plenas de metáforas, irônicas e contundentes, que fazem rir e remetem à uma reflexão sobre o nosso cotidiano.
Depois de lançar o seu Ilusionismo Sonoro, com o auxílio luxuoso do pessoal do Ponto de Cultura Outro Sul, Serginho parte agora para Londres, onde vai viver o seu sonho de artista, embora, como ele mesmo adverte através da dedicatória de uma das suas canções – “esta música é para as pessoas que sonham e se esquecem de viver”. Viva Serginho!
SONHO
Quem vive de sonho
é padaria
quem acorda assustado
mal amado
todo mijado
está acordado...
A moça da padaria
quis me dar, mas não pode me dar
um sonho
porque o gerente é assim enrustido
esse tipo de gente
que não gosta de gente...
8 horas da noite
a padaria fecha
e todo sonho velho que sobrou
eu ganho escondido
pela janela...
(Ele sempre vem quente,
depois fica gelado,
é f... quando molha só um lado
'acorda pra cuspir'...)”

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

LORCA Y EL AMANTE URUGUAYO

 

O encontro poético-musical promovido pela Biblioteca Pública Pelotense em 28/08 – XXIV Sarau – e que teve a nossa participação falando sobre o autor em destaque Federico Garcia Lorca (acima), possibilitou uma discussão interessante acerca da vida e da obra do poeta espanhol, nascido na pequena província de Fuente Vaqueros, na Andaluzia, em 1898, e assassinado pelas forças conservadoras espanholas em Granada, no mês de agosto de 1936.
Como todos sabem, a poesia de Lorca, além de sinalar o regionalismo das origens do escritor – o teatro de rua, a dança, as touradas, os ciganos da Andaluzia... (daí a sua clássica obra “Romancero Gitano”) – era caracterizada também pela contundência, pois que denunciativa das desigualdades sociais do período.
Ademais, Federico era republicano e socialista, e muito cedo assumiu a sua condição de homossexual, chocando os conservadores padrões espanhóis da época.
Pois sobre essa última característica do escritor – a da sua opção sexual – surgiu recentemente uma obra que vai dar o que falar, intitulada “El amante uruguayo” e publicada, até onde eu sei, apenas na Espanha até o presente momento.
O livro, uma encomenda feita ao escritor Santiago Roncagliolo (autor peruano, que escreve atualmente para o tradicional “El País” e outras publicações da Espanha), é centrado na história de um suposto namorado uruguaio de Lorca, um escritor de segunda chamado Enrique Amorim, sujeito midiático, que se fez passar até por Sartre numa ocasião, e autor de algumas invenciones que lhe deram certa notoriedade até a sua morte em 1960. Entre elas está o fato de ter erigido um monumento em forma de lápide para Federico, inaugurado na província de Salto em 1953, inclusive com a participação da atriz republicana Margarita Xirgu, que representou o clássico teatral "Bodas de Sangue" de Lorca na ocasião.
Abaixo, a capa do livro “El Amante uruguayo”, cuja publicação no Brasil espera-se que venha a ocorrer até o início do ano que vem.
Para quem quiser se antecipar e saber alguma coisa sobre o tal Enrique Amorim sugere-se os links abaixo, com declarações do próprio autor Roncagliolo. 
A história de Amorim beira a total canastrice e ao absoluto charlatanismo, mas que vai dar o que falar isso não deixa a menor dúvida.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

GAZETA DE LISBOA VENDE HERANÇA...


Quem me enviou o material foi o Sérgio Canhada.
O anúncio aí de cima foi publicado no jornal Gazeta de Lisboa, nº 188, de 10/08/1827*, pg. 4., há cento e oitenta e cinco anos, portanto.
Trata-se da oferta de venda de uma suposta herança no Arroio Grande, Rio Grande do Sul da América, por 18 contos de réis
O valor, se não era nenhuma fortuna, também não era tão pouco, haja vista que daria para comprar quase 5.000 ha. de terras por aqui, com a ressalva de que os campos valiam bem pouco naquela época (o valor de uma panela grande de ferro, por exemplo – 8 mil réis – dava para comprar no mínimo duas hectares de campo).
É pouco provável que se venha algum dia descobrir de quem era a tal herança, se existia ou não, e se acabou mesmo vendida pelo corretor do além-mar.
Mas que tem um cheiro de velhacaria nesse bacalhau, ah isso tem. Publicar anúncio de venda de “uma herança” do inóspito Arroio Grande do início do Século XIX na tradicional Gazeta da civilizadíssima Lisboa de 1827 não parece ser anedota, não; alguém pretendia lucrar nessa história, será que conseguiu?
* Em 1827, data do anúncio, o Arroio Grande, cujo povoamento começara com o erguimento de uns “arranchamentos” lá por 1792 (embora se diga oficialmente que “a cidade foi iniciada no ano de 1803, com Manuel Jerônimo de Souza”[1] – um açoriano), era, ainda, distrito – primeiro de Rio Grande (até 1832), e, desse ano em diante, de Jaguarão (até 1873, quando AG foi elevado à categoria de Vila).
Não obstante, já era esta região denominada à época de “Freguesia do Arroio Grande”, ou “Espírito Santo do Arroio Grande”, e assim permaneceu até 1832 quando ocorreu a emancipação de Jaguarão (esta chamada inicialmente de Guarda da Lagoa e do Serrito, depois chamada de “Espírito Santo do Serrito, ou Espírito Santo da Lagoa”).
Conforme o Sérgio Canhada “já em 1816 este lugar se chamava Arroio Grande, pois no 2º casamento do Souza Gusmão, em 23/5/1816, no Povo Novo, com Maria Pereira (a “tal” Maria Pereira das Neves), ele declara que é 'viúvo que ficou por falecimento de Laureana Maria, sepultada no cemitério do Arroio Grande, distrito da Freguesia do Espírito Santo da Lagoa”.
Segundo os historiadores, até o ano do anúncio, 1827, a região vivia um período aparentemente tranquilo, “brutalmente truncado pelos desdobramentos da guerra da Cisplatina, e muito especialmente pela invasão das forças argentino-uruguaias, em janeiro de 1828” [2].
Jaguarão se aprestava para transformar-se em frente de batalha, muito a contra-gosto de seus habitantes. (…) Todavia, a 7 de janeiro de 1828, atendendo a novos planos do comando geral do exército, as forças se retiraram de Jaguarão para as pontas do Arroio Grande, desprotegendo por completo a jovem povoação. O resultado imediato e lógico dessa manobra desastrada (…) foi o avanço do exército argentino e a ocupação de Jaguarão” [2].
1. Cfe. Alvaro O. Caetano – Município de Arroio Grande – 1945.
2. Cfe. Sérgio da Costa Franco – Origens de Jaguarão – 1980.
Nesse quadro, portanto, de sucessivas escaramuças com os castelhanos que viviam ameaçando tomar conta desta parte da região, foi onde o nosso patrício português (um pouco antes, é verdade, e certamente sem saber dos interesses de Lavalleja, de Rivera e do Gal. Paz), anunciou o “grande negócio” nas nobre páginas da Gazeta de Lisboa – quem quiser comprar uma herança existente no Arroio Grande do Rio Grande do Sul da América...


sábado, 11 de agosto de 2012

TRIBUTO A RAUL



Um leitor me pede que publique "alguma coisa" a respeito do 'Tributo a Raul', ocorrido a exatamente uma semana, no Centro de Cultura Basílio Conceição.
Não pude comparecer a mostra, organizada pelo João Vicente, pelo Márcio Moncks e outros - a turma do rock da cidade, os componentes da Toca do Bandido, da Cão de Guarda, da Lady Jane e de outras bandas locais, além dos irmãos Vidal e outros músicos qualificados do Arroio Grande.
Mas soube que teve casa cheia e música de primeira, como acontece sempre que esse pessoal se reúne; eles que estão fazendo acontecer no cenário musical local.
Para satisfazer o pedido, publico algumas fotos do evento, uma cortesia do Jorge Américo, grande amigo e intrépido repórter, que acompanha tudo nesta cidade, e que esteve lá, no "Tributo a Raul", onde todos - inclusive eu - deveriam estar no sábado passado em Arroio Grande.      

terça-feira, 7 de agosto de 2012

ESPERA...


Esperando a documentação da provável "Casa Um" do Arroio Grande (postagem abaixo), e enquanto o inverno não vai embora...
Para mim esses dois aí da foto estão entre os melhores vinhos que se pode consumir por aqui - o brasileiro Casa Valduga Premium e o chileno Marques de Casa e Concha, da Concha y Toro - especialmente se considerada a faixa de preço, de R$ 50,00 para o primeiro, e cerca de R$ 60,00 para o segundo, ambos Cabernet Sauvignon, os dois da safra de 2008.  
Alguém tem outra preferência?     

terça-feira, 3 de julho de 2012

"CASA UM"

Faltando menos de cinco dias para os 200 anos de Pelotas – emancipação 07/07/1812, quando ocorreu a elevação da Vila à Cidade – afloram diversos aspectos históricos e culturais da “Princesa do Sul”, que deverá comemorar o seu bicentenário com a pompa que o acontecimento faz por merecer.
Neste sentido, a casa da foto aí de cima está sendo chamada de a “Casa Um” de Pelotas, pois que considerada “o ponto de partida de todo o planejamento urbano do município”, no dizer de alguns historiadores.
Localizada na Rua Major Cícero, 201, em plena zona central da cidade, a casa foi objeto de uma reportagem recente do tradicional jornal Diário Popular, tendo por foco exatamente o bicentenário de Pelotas.
Na matéria, o pesquisador Mário Osório Magalhães chama a atenção para o precário estado da construção, clama pelo seu restauro e conta um pouco da história da casa.
Diz a reportagem (imagem abaixo):
Segundo o pesquisador, a casa foi construída antes de 1809 e dados obtidos na revista do centenário, lançada por João Simões Lopes Neto em 1911, mostram que lá as maiores autoridades da época tomaram decisões importantes, como a escolha da localidade onde seria instalada a primeira capela da província.
Depois (…) foi feito um planejamento da cidade tomando como referência a localização do templo e da casa localizada na rua Major Cícero. Pesquisas também mostram que uma antiga charqueada que pertencia a José Aguiar Peixoto teria funcionado naquele prédio. Em 1806, porém, o imóvel teria sido adquirido pelo capitão-mor (espécie de subprefeito) Antônio dos Anjos, para o qual Torres, o proprietário seguinte da casa, trabalhava como posseiro.
Assim, os primeiros 19 quarteirões projetados em quase perfeito xadrez, onde foram distribuídos os primeiros lotes da Princesa do Sul, tiveram a casa número um como base”.
E em Arroio Grande, qual terá sido a Casa número um?
Que registros existirão da construção que foi o ponto de partida para o aglomerado urbano que viria formar a futura “Terra de Mauá”?
Eu tenho uma ideia, mas antes de manifestar aqui na página quero ouvir as opiniões do Arnóbio e do Sérgio Canhada, ainda que os dois devam naturalmente discordar a respeito.
Mas fica a promessa da publicação, e, muito provavelmente, com direito a fotografia também.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

6º AIMONE EM CANTO


No último final de semana participei auxilando na organização – como pré-selecionador, coordenador de ensaio e, finalmente, como membro da Comissão Julgadora (aqui junto com o Jélson Domingues e a Giovana Camisa) – do 6º Aimone em Canto, ótimo festival de música estudantil do Arroio Grande, que vem se firmando a cada ano como parte das comemorações do aniversário da Escola.
Com o pulso firme do Diretor Paulista, o trabalho e a correria da Verônica, da Jussara Pereira, da Elenise e das demais professoras e membros do Aimone, o evento acabou se tornando um dos maiores acontecimentos de arte da cidade, especialmente pelo pluralismo das músicas participantes, que vão desde o rock pauleira até o nativismo, do pagode a canções românticas, passando pelo gospel e por baladas, abrigando, enfim todo os tipos de música.
Dividido este ano em duas categorias – a estudantil propriamente dita e a categoria livre – o festival chegou a uma das suas maiores edições, proporcionando o grande encontro dos artistas locais.
Na foto aí de cima aparecem o compositor e músico Sidney Bretanha, o letrista João Vicente Salles, os intérpretes Marcelo Frós, Marina Vidal e Letícia Christ, os músicos Márcio Moncks, Matheus e Miguel Vidal, entre outros.
Das grandes canções do festival, destaques para O Inverno no Sul é assim, do Sidney Bretanha, interpretada pela Letícia Christ (música mais popular do festival e melhor letra – “O inverno no Sul é assim/a gente é que faz o calor/Cortando a geada, sem nada/Do jeito que for”), Não volta mais, do Marcelo Fróz e outros (1º lugar, categoria estudante, e melhor intérprete para o Marcelo – “Feche a porta/Não deixe a luz entrar/Porque eu quero lembrar/Do seu rosto.../Porque a vida não volta mais, não volta mais...”), e Velha Novidade (1º lugar, categoria livre – “Eu não tenho ainda um grande amor.../Que me leve pra bem longe da cidade/Que apareça feito velha novidade/Revelando quem sou eu/Pra viver o que tanta gente já viveu”), também do Sidney, interpretada pela Marina Vidal, todas criações interessantes dos nossos artistas, e que passam a fazer parte agora do acervo musical da cidade*, por obra da expressão do Aimone em Canto, evento que a cada ano ganha mais força por aqui.
O festival é uma grande e saudável festa, uma mostra do vigor e da capacidade dos nossos artistas; que venham mais edições então, pois talentos a gente têm de sobra em Arroio Grande, o que falta (como sempre, como em tudo...) é um bom espaço para mostrar a arte de cada um e, principalmente, de todos.
* Foram premiados ainda a Banda Progressão Parcial, João Manoel Machado e a Banda Toca do Bandido, entre outros participantes.

sábado, 23 de junho de 2012

CARLOS FRANCISCO (CIZICO)

Nesses anos todos, sempre que eu me afastei por um tempo um pouco maior de Arroio Grande, coisa de duas, três semanas, um mês no máximo, a primeira pessoa que eu pensava encontrar quando dos meus retornos à cidade, era o Carlos Francisco Caetano, o popular Cizico.
O Cizico foi um símbolo do Arroio Grande. Um cara popular, conhecido e conhecedor de todos, o Cizico foi um personagem da cidade.
Um sujeito simples, alegre e conversador, e sempre, desde muito cedo, com inúmeras histórias para contar.
Guri de mandalete, estafeta, secretário, auxilar de pedreiro, desportista, anotador de jogo de azar, inspetor de disciplina, o Cizico fez de tudo um pouco na vida, e conquistou a amizade e a admiração de todos, convivendo com os diversos grupos sociais do Arroio Grande.
Folclórico, criou a fama de “pé frio”, o que eu mesmo desmenti num texto que já devo ter publicado aqui na página. Para os que não leram a crônica, esclareço: foi com ele, e somente com ele, que, há mais de 20 anos, eu consegui ganhar uma única vez no “jogo do bicho” em toda a minha vida. E acertando na “cabeça”, para não deixar dúvidas.
Ganhei num sábado, na centena do 1º prêmio da Loteria Federal. Depois, na segunda-feira, já não havia dinheiro algum, tinha sido todo ele gasto na própria comemoração, nos bares e nos cabarés da cidade, em bebidas, cigarros e presentes para as “chinas”, numa festa interminável, com a participação dos melhores amigos e com o Cizico junto, é claro.
Tinha me dado sorte o “Negrinho”, assim como sempre deu sorte ao Grêmio e ao Caturrita, os seus times de coração. Ou não foi com o Cizico assistindo os jogos desses clubes que eles conseguiram as suas maiores conquistas? Não foi com ele torcendo junto – no estádio, ou pelo rádio ou pela televisão – que o Renato Portallupi, seu grande ídolo, se tornou o maior jogador da história do Grêmio?
E na política, então? Quem não lembra do Cizico ajudando a eleger o Ermínio prefeito em 96? E fazendo da “mana” Silvana vereadora, e elegendo deputados e senadores... Distribuindo “santinho”, correndo atrás dos votos e ganhando inúmeras eleições. Isso é ser “pé frio”? Não, claro que não, o Cizico era pé quente e a nossa maior sorte foi ter convivido com ele, foi ter privado da sua amizade.
Por isso, quando recebi a notícia da sua morte, na madrugada chuvosa de domingo para segunda-feira, apesar da tristeza, apesar da dor dos seus amigos e familiares, fiquei pensando que o Cizico cumpriu, e bem, o seu ciclo por aqui. Deixou muitas histórias e uma boa lembrança para todos nós.
Por compromissos profissionais inadiáveis, não pude ir ao enterro e sequer ao velório do meu amigo Carlos Francisco. Mas também, o que isso importa? Afinal, quando dos meus retornos ao Arroio Grande, sejam eles quantos forem, eu deverei me encontrar primeiro e antes de mais nada com o Cizico, pois bastará entrar na cidade e o personagem que ele foi estará me acompanhando – da Visconde de Mauá a Dr. Monteiro, do Promorar ao Gitão, pela cidade toda, pela vida inteira, sempre.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

CESARE BATTISTI

Estive com o italiano Cesare Battisti.
Ele veio até Pelotas para lançar o seu último livro – “Ao pé do muro” – nas dependências da Câmara Municipal.
Depois fomos jantar, um pequeno grupo, na casa de um amigo.
Battisti é escritor, possui mais de vinte livros publicados, na sua maioria romances policiais, do gênero noir, que escreveu principalmente na França, quando lá viveu por cerca de uma década, entre os anos 1990 e 2000.
Mas sempre, invariavelmente, quando é apresentado ao público, diz-se dele que “é Cesare Battisti, aquele...”.
As acusações de quatro assassinatos na Itália e a condenação à prisão perpétua pelos crimes que nunca admitiu (fugado, foi julgado a revelia) vão acompanhar Battisti para o resto da vida. É um homem marcado, naturalmente rotulado.
Lá pelas tantas, depois de muito churrasco e incontáveis cervejas, quando conversávamos só os dois, fiz a pergunta que guardara a noite toda:
O quanto te incomoda estar rodeado por pessoas que estão interessadas apenas no personagem, no Battisti da Itália dos anos 70, e não no escritor, no homem que tu és agora?”
Battisti não me olhou, deixou que o olhar se perdesse no espaço que o vão da porta permitia e respondeu, pausada e suspiradamente.
É tudo o que me incomoda, é tudo o que me importa, e eu vou viver o resto da minha vida lutando para me livrar disso”.
Em seguida levantou-se e me alcançou um livro - “Minha fuga sem fim” - que eu pedi que dedicasse ao Sérgio Canhada. (Battisti se surpreendeu quando eu lhe disse que o Sérgio possuía uma biblioteca com mais de 4 mil volumes, morando numa cidadezinha com cerca de 20 mil habitantes, como é o caso de Arroio Grande).
Depois conversamos sobre outras coisas, e eu pude conhecer mais do escritor Cesare Battisti, abandonando um pouco o peso do ativista político, do personagem, aquele do qual o homem Battisti tenta se livrar, numa luta também sem fim e praticamente com a certeza de que jamais conseguirá.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

DISTRITOS DE ARROIO GRANDE-SANTA ISABEL



Santa Isabel do Sul, Distrito de Arroio Grande, é, ou deveria ser, patrimônio cultural e histórico do Estado, afinal a atual pequena Vila de Pescadores já foi um dos pilares do povoamento às margens do Canal São Gonçalo – via fluvial de cerca de 60 quilômetros que faz a ligação entre a Lagoa dos Patos e a Lagoa Mirim – possuindo gloriosa história, pelo que viveu, inclusive, o seu decênio de independência política (de 1882 e 1893), quando veio a se chamar Santa Isabel dos Canudos, naquele que é considerado o momento de maior orgulho da comunidade isabelense em toda a sua existência.
Segundo artigo de Cledenir Mendonça*, a vida da comunidade de Santa Isabel, quanto à sua formação histórica, pode ser sintetizada da seguinte forma:
1815 – Povoamento
07/12/1866 – Freguesia
02/01/1867 – 5º Distrito de Jaguarão
09/05/1882 – Villa de Santa Isabel dos Canudos
01/07/1882 – 1ª Eleição de Vereadores
27/01/1883 – Auto de Instalação da 1ª Câmara de Vereadores
07/11/1885 – Código de Posturas Municipal
11/04/1890 – Dissolvida a Câmara e formada a Junta Municipal
04/09/1890 – Arroio Grande anexa parte de Santa Isabel
31/12/1892 – Divisão Judiciária para Arroio Grande
16/01/1893 – Suprime Santa Isabel e anexa a Arroio Grande
29/12/1944 – Passa a se chamar Vila Açoriana
14/11/1952 – Passa a se chamar Santa Isabel do Sul, ficando em definitivo como Distrito de Arroio Grande.
Atualmente, a Vila de Santa Isabel resume-se a presença de poucos habitantes no local, na sua maioria pescadores que trabalham com as suas pequenas embarcações, possuindo pequenas casas de comércio, posto de saúde e escola pública, sendo que a barca ("balsa" -última foto) que fazia a travessia do Canal São Gonçalo –ligação entre os municípios de Arroio Grande e Rio Grande –encontra-se de há muito desativada, sendo frequentes as promessas de ligação asfáltica ou mesmo da criação de um pontilhão sobre o Canal, vivendo os moradores da Vila, também neste sentido, numa espera que parece não ter fim. Faz anos.
* Cledenir Vergara Mendonça, morador do Povo Novo, “lado” de Rio Grande, é Pós-Graduado em História pela FURG e profundo conhecedor da história da Vila de Santa Isabel.

sábado, 26 de maio de 2012

DISTRITOS DE ARROIO GRANDE-MAUÁ

Pedreiras (postagem abaixo) é um dos distritos do Município de Arroio Grande; os outros são o distrito de Santa Isabel do Sul e o distrito de Mauá, sendo que este faz divisa com Herval, pelo oeste, e com Jaguarão, pelo Sul.
O distrito de Mauá possui esse nome em homenagem a Irineu Evangelista de Souza, o Barão e Visconde de Mauá, grande personagem do Império, filho mais ilustre de Arroio Grande, onde nasceu em 28 de dezembro de 1813.
No distrito de Mauá existiu uma Estação de Trem que, inaugurada em 1925 como ponta de linha do ramal, passou a fazer parte do trajeto para Jaguarão (Basílio {no Herval}-Carvalho Freitas {idem}-Airosa Galvão-Mauá-Herculano de Freitas {todas em Arroio Grande}-Jaguarão) a partir do ano de 1932, sendo desativada no final dos anos 1970, início dos anos 80.
Da antiga Estação Mauá restaram algumas ruínas e pouquíssimas fotografias, como a que aqui se publica, mais uma lembrança do "interior do interior" - a zona rural dos pequenos municípios, antes povoada por grande número de habitantes, esperançosa do desenvolvimento e do progresso, e agora fadada ao abandono e ao esquecimento. Definitivamente. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

DISTRITOS DE ARROIO GRANDE-PEDREIRAS

O Município de Arroio Grande, formado pela Sede Urbana e pelos Distritos de Mauá, Pedreiras e Santa Isabel, possui uma área total de 2.514 kms2, e conta, atualmente, com cerca de 20 mil habitantes, sendo que, destes, menos de dois mil (inferior a 10%) residem na zona rural.
Mas teve uma época em que tudo foi diferente, onde a habitação na zona rural predominava, sendo o número de moradores dos distritos praticamente o triplo dos habitantes da sede urbana do município:
Em 1940*, por exemplo, a população de Arroio Grande era a seguinte:
Sede do Município: 2.619
Zona Rural: 13.580
Total: 16.199
Em 1950*:
Sede do Município: 3.173
Zona Rural: 14.703
Total: 17.876
* Fontes: "Município de Arroio Grande" - Alvaro O Caetano, 1945; e IBGE. 
Neste quadro, isto é, com cerca de três quartos da população local residindo na zona rural, os distritos de Arroio Grande viveram um período de prosperidade, especialmente dos anos 1960 até fins da década de 80, a partir de quando, por razões diversas, entraram em absoluto declínio.
A foto acima é mais ou menos do início desta época, quando o expansionismo da região e a exploração do calcáreo nas proximidades (Vila Matarazzo) levou a criação de um núcleo inteiro no Distrito das Pedreiras (posteriormente “Vila Brasileiras”).
Hoje, as antigas casas viraram escombros, e os habitantes simplesmente desapareceram, foram embora para sempre da pequena e próspera localidade. As Pedreiras, enquanto núcleo habitacional, praticamente não existe mais, como, de resto, ocorreu com a população que preenchia a maioria dos distritos do município.
"As Pedreiras" desapareceram, tudo indica que para sempre!

terça-feira, 8 de maio de 2012

"UM ÁS DO JÚRI"


8 de maio de 1912. Há cem anos nascia, em Pelotas, Ápio Cláudio de Lima Antunes.
Formado em Direito em 19 de setembro de 1935 (homenagem à Revolução Farroupilha, segundo dizia), Ápio Antunes, foi, no decorrer da sua extensa trajetória como advogado, um exemplo de correção, de sabedoria e de coragem.
Professor universitário "cassado" por um decreto dos militares, Ápio, antigo militante do Partido Comunista Brasileiro - PCB - foi perseguido pela ditadura de março de 64, tendo que viver exilado no Uruguay por um bom período. Posteriormente, retornou para o Brasil e para Pelotas, respondeu dois IPMs (Inquérito Policial Militar), sendo, ao final, absolvido da acusação de "traição a pátria" (uma imputação genérica que os militares costumavam fazer aos opositores do regime), embora tivesse perdido a cátedra na Universidade Federal de Pelotas.
Advogado brilhante, especialmente como criminalista, Ápio costumava ser elegante com os colegas e era duro e intransigente na defesa dos seus constituintes.
Amigo pessoal do pai do autor desta página, Ápio Antunes, que atuou no Tribunal do Júri junto aos maiores tribunos do Rio Grande do Sul e do Brasil - Eloar Guazzelli, Oswaldo Lia Pires, Mathias Nalgestein e Amadeu Weinman, entre diversos outros - costumava dedicar rasgados louvores ao colega Pedro Jaime Bittencourt, como os elogios registrados na publicação Pelotas em Revista, e que integram este texto, quando Ápio comentou sobre um júri que muito o impressionou, ocorrido nos anos 1980.  
(Depoimento de Ápio Cláudio de Lima Antunes à publicação Pelotas em Revista - maio de 2000):
"...Mas o promotor apelou e veio um terceiro júri, do qual o Guazzelli não quis participar. Não sei o motivo. Então, no lugar dele, tive o auxílio do famoso advogado de Arroio Grande, chamado Pedro Jayme Bittencourt. Ele é um homem extraordinário pelo seu talento, pela sua cultura, sua erudição e sua oratória. Ele é um orador extraordinário, fantástico. É o maior orador judiciário que eu já vi na minha longa carreira de advogado criminalista. Cheguei a trabalhar com o mais famoso advogado brasileiro, o dr. Sobral Pinto. Fiz júris com Sobral Pinto e posso dizer que Pedro Bittencourt era superior a Sobral Pinto. Ao terminar o júri, mais uma vez o resultado foi a absolvição. O caso foi encerrado." (pgs. 19 e 20 - cópias que ilustram esta postagem).
Em resposta aos elogios do Ápio, o Pedro - que tinha pelo velho colega e professor uma deferência igualmente extraordinária -, costumava dizer: "Doutor, o Sr. é muito gentil, muito generoso, mas também bastante exagerado em suas palavras". Ao que o Dr. Ápio retrucava: "Para a sua inteligência e a sua oratória não existem exageros, doutor"...
E assim seguiam os dois, numa conversa de gigantes, de homens cultos, sábios, eruditos, homens de um tipo que, infelizmente, já não existem mais, da estirpe de um Ápio Cláudio de Lima Antunes, um "Ás do júri", como referido pela publicação, na verdade um Ás do advocacia, um Ás do direito, um Ás da vida! 
O Dr. Ápio Cláudio de Lima Antunes morreu em 2003, aos 91 anos de idade.

sábado, 5 de maio de 2012

73 ANOS

Hoje - 5 de maio - é a data de aniversário do Esporte Clube Arroio Grande, o Saci, tradicional associação de futebol da cidade de mesmo nome.
É verdade que tal data não é pacífica, haja vista que o surgimento do ECAG é discutido, até hoje, sendo apontadas duas datas para a sua fundação.
Uma, constante dos Estatutos do Clube, que, no seu artigo 1º, assegura o seguinte:
"O ESPORTE CLUBE ARROIO GRANDE, fundado em 5 de maio de 1939, nesta cidade de Arroio Grande, Município de mesmo nome, onde tem sede, é uma sociedade civil, composta de número limitado de sócios...".
Outra, decorrente de um ofício enviado pela entidade para o tradicional Jornal "A Evolução", publicado em 09 de setembro de 1939, onde a Diretoria do novo clube, através do secretário, dava a seguinte notícia:
"Ilmo. Sr. Diretor da Evolução. Tenho a máxima satisfação de comunicar a essa folha que no dia 4 do corrente foi fundado nesta cidade o ESPORTE CLUBE ARROIO GRANDE...
Arroio Grande, 5 de setembro de 1939.
Mário Silveira Haubmann - Secretário".
A polêmica das datas foi exaustivamente examinada no livro O "Clássico" - Uma história de paixão (fls. 35 a 44), chegando-se a conclusão de que a data da fundação do ECAG foi mesmo 05 de maio de 1939, sendo esta a data de aniversário do clube azul e encarnado, que está, portanto, comemorando 73 anos de idade, sempre buscando retornar às atividades esportivas, não obstante as dificuldades que o fim de amadorismo do futebol da região trazem neste sentido.
De qualquer forma, trata-se de uma data comemorativa, para a qual a página traz até os leitores a fotografia do primeiro time do Arroio Grande (provavelmente do ano de 1940 - acima), onde aparecem os seguintes componentes:
Em pé: Papaco, Lauro Maciel, Cilinho, Bridone (ou Bordoni), Pipi, Caetano e o dirigente Emílio Hissé;
Ajoelhados: Cesalpino, Dega, Jesus Lúcio e Gilberto;
Sentados: Cencinho e Clarito.
Foram esses os homens que literalmente deram o pontapé inicial na trajetória do Clube que se tornou um dos maiores vencedores do futebol amador da região sul e do próprio estado do Rio Grande do Sul.