quinta-feira, 8 de março de 2012

SOBRE MULHERES E MULHERES

(Para a Maria Eduarda, para a Marília Kosby, para a Míriam Marroni, e para a Verônica, naturalmente)

A minha mulher não nasceu para ser dona de casa, mas sim para ser a dona da casa, e dona das ruas e das estradas, e dos campos e das cidades, e dos arroios e dos mares, também.

A minha mulher nasceu para ser dona de tudo – o que é elevado e o que é pequeno, o que é forte e o que é frágil –, a minha mulher nasceu para ser dona de si própria, da sua razão e dos seus sentimentos, e para ser a dona do meu coração, também.

A minha mulher nasceu para ser Maria, nasceu para ser poesia, nasceu para ser política, para aprender e para ensinar, mas nasceu, a minha mulher, sobretudo para ser mulher, todos os dias.

Ela – a minha mulher – nasceu para ser exibida, nasceu para andar bem vestida, e para andar com pouca roupa quando está de bem com o corpo; a minha mulher nasceu para estar de bem o corpo, nasceu para viver de bem com a vida.

A minha mulher nasceu para ser Bruna Lombardi (“uma mulher é feita de mistérios, tudo se esconde: os sonhos, as axilas, a vagina, ela envelhece e esconde uma menina, que permanece onde ela está agora...”), nasceu para ser Elizabeth Bishop (“tantas coisas contém em si o acidente, de perdê-las, que perder não é nada sério; perca um pouco a cada dia, aceite austero, a chave perdida bestamente, a arte de perder não é nenhum mistério...”); a minha mulher nasceu para ser diva, nasceu para ser cinema, nasceu para ser teatro, ela é pura dramaturgia, todos os dias.

(A minha mulher não nasceu sequer para ser minha, ela não veio ao mundo para ter qualquer dono, nem para viver como uma bolachinha decorativa de um pacote qualquer; a minha mulher – eu já disse – nasceu para ser dona de si mesma, e isso é tudo!).

Por isso é que, todos os dias, quando eu olho para a minha mulher – que se chama Maria, que se chama Marília, que se chama Míriam (e que se chama Marcela, que se chama Mariela, que se chama Maristela...), e que se chama Verônica, naturalmente – eu percebo que “de mulher” não é possível saber, sobre mulheres não existem verdades (“você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir, como pode querer que a mulher vá viver sem mentir”); uma mulher a gente deve apenas acariciar e celebrar, e pedir-lhe licença e tempo, e dedicar a vida inteira para tentar descobri-la, no pouco que ela tem de cada mulher, no muito que ela tem de si mesma – indócil, picante e orgulhosa – simples e eternamente.

domingo, 4 de março de 2012

PEDRO E PAULO

A posição no campo era a mesma – ambos centromédios, na segunda metade dos anos 70.
A camisa também – os dois nº 5, camisetas vermelhas, do Esporte Clube Arroio Grande e do Sport Club Internacional –, mas a trajetória profissional, o sucesso e, principalmente, os cabelos, quanta diferença...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

DEU NO JORNAL

Atenção Senhores Doutores Juízes!
Pretores, Juízes, Desembargadores, Ministros da Suprema Corte;
juízes de Futebol, jurados e julgadores de todas as espécies.
A notícia aí de cima* é o resultado do julgamento popular, e não adianta contrariar, pois, como diz o Arnaldo, a regra é clara!
* Jornal "A Evolução" - edição de 25/02/12 - pg 03.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A MENORIDADE AMEAÇADA

Uma antiga questão, da existência ou não do que se chama de “alma coletiva”, vem a tona sempre que surgem fatos impactantes que alteram o cotidiano de uma cidade.
A pergunta que se faz é bastante simples, embora de difícil resolução. Pergunta-se: é possível rotular-se uma cidade inteira com base na inclinação de parte dos seus habitantes? Existem cidades “trabalhadoras”, existem cidades “preguiçosas”?Existirão cidades “atuantes”, cidades “omissas”? Ou, o que é bem mais complexo: Existem cidades saudáveis? Existem cidades doentes?
A questão é instigante e quem tiver a melhor resposta que jogue aí na rede para que a gente possa buscá-la. E tentar entender.
Tentar entender, por exemplo, o que está acontecendo com Arroio Grande, a “Cidade Simpatia” – um lugar tranquilo, hospitaleiro, acolhedor–, que, de repente, vem se transformando, nos últimos tempos, no centro das notícias das páginas policiais do Estado, mas não por acontecimentos simples, triviais, senão que por fatos bastante fortes, contundentes, gravíssimos. E, o que é pior, quase todos acontecimentos protagonizados por menores de idade – infantes, adolescentes, jovens –, aqueles, enfim, que deveriam exprimir o futuro da cidade.
Menores infratores, é certo, mas também menores vítimas de uma sociedade doente, que aposta que a saída do anonimato pode estar na execução de um tiro, de uma facada, no apertar de um botão da net para ser notado, imitado e até – pasme-se! – invejado. Resultado: exibicionismo e crimes.
Hoje se agride, se fere, se mata, se faz qualquer coisa para ser “curtido”, “comentado”, “compartilhado”. Somos uma sociedade demente, que compartilha simplorice, comenta futilidades e curte desgraças como nunca. Estamos, sim, doentes, e, o que pior, assistimos ao resultado da nossa enfermidade sem esboçar qualquer reação ante a intolerância, a agressividade e a loucura que repercutem principalmente nos jovens que deveriam protagonizar o futuro da sociedade.
Sim, porque quem está ameaçado não somos nós, velhos inúteis, que fracassamos na construção do mundo “justo e igualitário” que sonhávamos para os nossos filhos. Quem está ameaçada é a menoridade, é a adolescência, a infância, que não soubemos cuidar, em meio ao nosso permanente prazer pela futilidade, por “curtir”, “comentar” e “compartilhar” a vida dos outros muito antes de cuidar da nossa.
E, nesse bisbilhotar contínuo do “quintal do vizinho”, permanecemos paralisados, sem mostrar qualquer reação, sem fazer nada que preste, apenas espiando, espiando, espiando...
E, quando não se mostra reação, quando se vive na superficialidade, ou a gente está doente de preguiça, ou a gente está doente de caráter, restando esperar para saber mais tarde afinal qual é a pior dessas moléstias.
De qualquer modo, ambas as doenças doem, e a dor que vai cortar mais fundo na alma da cada um é, às vezes, apenas uma questão de tempo.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

OUTROS CARNAVAIS

Carnaval em Arroio Grande. Quem gosta que vá para as ruas, ocupar os camarotes ou as calçadas da Dr. Monteiro. Mas são outros carnavais, esses de agora. Não são como os da época do Gilberto - o barbeiro Gilberto Nobre (na 1ª foto abaixo, com um dos seus inúmeros filhos) - já falecido há alguns anos.
O Gilberto foi protagonista e grande articulador dos melhores carnavais de rua do Arroio Grande.
Com ele, surgiriam o "Bloco da Falsa Baiana", no final dos anos 1940 (2ª foto); depois, o barbeiro criaria o mais tradicional bloco de carnaval da Cidade: o famoso "Papagaio da Rua Nova" (3ª foto), grupo carnavalesco que deve ter durado cerca de meio século (com os seus grandes bonecos, ao estilo de Olinda e Recife: o Gigante, o Morcego...), para desaparecer próximo exatamente ao final do carnaval de rua, perto da morte do Gilberto, há cerca de duas décadas, mais ou menos.
Hoje, resta o carnaval das Escolas de Samba, já decadente também, sem apresentar o esplendor que escolas como a Promorar, por exemplo, traziam para a Dr. Monteiro nos primeiros anos da década passada (4ª foto), e que hoje não conseguem mais se repetir - em originalidade, em beleza, em magia - aos olhos dos espectadores da cidade.
Por saudosismo, talvez, por pura nostalgia, afinal todos sabem que o melhor carnaval será sempre "o carnaval que passou"...



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

EU ASSISTO BIG BROTHER BRASIL

Quase todo mundo fala mal do Big Brother Brasil, diz que não assiste ao programa, mas quase todo mundo assiste ao Big Brother Brasil.
Por vezes, eu também falo mal do programa, até porque ele é ruim mesmo, muito embora eu não tenha o menor problema em assistir ao Big Brother Brasil.
Todos os dias não, que não vou trocar um programa no bar com os amigos, a ida a uma pizzaria com os filhos, ou um jantar fora com a mulher para assistir qualquer programa da televisão, seja qual for a sua condição instrutiva.
Mas, quando estou em casa, eventualmente assisto ao Big Brother Brasil e me divirto com as questões dos participantes da Casa, que não são as mesmas da vida de cada um de nós, mas que são as questões lá deles, dos integrantes de um programa de televisão, já que o BBB é simplesmente isto: um programa feito para entreter, mais nada.
Por isso é que não entendo a raivosidade que os críticos do BBB dedicam ao programa, nas conversas, nos artigos de jornais e agora em campanhas de boicote ao reality nas redes sociais.
Falam que o programa é “fútil”, mas quer coisa mais fútil do que se utilizar de um serviço como o facebook, por exemplo, para postar sempre as mesmas banalidades, tipo “bom dia para os que já acordaram”, “bora pro banho”, “bora pra balada”, “bora dormir” e outras bobagens do gênero que não interessam a ninguém, como fazem diariamente a imensa maioria dos usuários das redes sociais?
Falam que o programa tem sexo demais, mas onde? Que parte afinal é essa do BBB que eu estou perdendo? Onde que o programa tem mais sexo que nas escolas, nas ruas, no dia-a-dia das pessoas? Isso sem falar nos bares, nas festas, nas boates, em todos os lugares.
Falam que o BBB desvirtua o “padrão de comportamento moral” dos brasileiros, mas o programa que assisto tem leveza, tem diversão, tem até inocência; para mim, honestamente, o Big Brother Brasil chega a ser até simplório de tão inocente que é.
Mas, tudo bem, as pessoas têm todo o direito de não gostar – repito: o programa é ruim mesmo – e de falarem mal do BBB, como costumam fazer especialmente aqueles que posam de “mais esclarecidos” perante a opinião pública.
Mas esses – como todos os espectadores, aliás – ao invés de fazer campanha raivosa contra o programa, terão sempre a alternativa de trocar de canal, a fim de preservarem os seus reclamados “valores morais”.
Poderão assistir, por exemplo, a TV Senado, cheia de assessores parlamentares que ganham vinte, trinta mil reais por mês para não fazer absolutamente nada; ou assistir programas como os do Datena ou do Ratinho, que costumam explorar a miséria humana às últimas consequências; ou então assistir algum documentário sobre a disciplina dos monges do Tibete, ou, sei lá, sobre a vida dos golfinhos do Mar Cáspio.
Sinceramente, eu ainda acho bem mais interessante a bunda da Laisa.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

MILLÔR E EU



Sem qualquer comparação, mas apenas para efeito de confirmação junto àqueles que descrêem quando a gente afirma que o Millôr Fernandes já andou pilchado, e que eu mesmo já usei bombacha, posto as fotografias acima, apresentadas sem nenhuma montagem, garanto.
A minha foto foi tirada numa chácara, num churrasco campeiro, e é bastante atual.
Já a imagem do Millôr, que é o que interessa, tem mais de 30 anos, e foi retirada do post "Millôr vai ao Pampa", ótimo texto do Ivan Pinheiro Machado, do blog da L&PM, que pode ser conferido através do link abaixo:


domingo, 5 de fevereiro de 2012

NOTÁVEIS

Alguém já disse que a internet “é perigosa para o ignorante e útil para o sábio”, o que transforma a ferramenta numa arma violentíssima, se levarmos em consideração que o mundo tem, hoje, cada vez mais ignorantes e menos sábios.
Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que as pessoas estudavam – além de português e matemática, também latim, inglês e francês, e literatura e filosofia... –, liam – Shakespeare, Cervantes, Dostoievski; Neruda, Borges, Garcia Márquez... –, pesquisavam – na Larousse, na Barsa, na Britânica, e não somente no Youtube, no Google ou na Wikipédia.
Resultado: tivemos até próximo aos anos sessenta (lá se vão 50 anos, meio século!), gerações e gerações de “notáveis”, que são aquelas pessoas que (o próprio nome já diz) se notabilizam pelo sua sabedoria e pelo conhecimento acumulado, contribuindo para a transformação dos lugares onde vivem, como muitos fizeram também aqui em Arroio Grande.
Mas hoje, em plena era da internet, época da pesquisa fácil, do aprendizado vulgar, do falso conhecimento, quem seriam os sábios, os notáveis desta cidade?
Sem citar nomes, dá para contar nos dedos essas pessoas, bastando para isso reparar na extraordinária memória do intelectual, na sabedoria do culto advogado, no conhecimento da incansável pesquisadora, na capacidade do irretocável escritor, na acumulação de ensinamentos da professora e no talento de mais alguns poucos personagens que não preenchem duas mãos, sendo que praticamente todos têm mais (alguns bem mais) de sessenta anos de idade.
E das novas gerações, o que esperar? Quantos mais podem efetivamente contribuir para transformar verdadeiramente esta cidade?
Na verdade, passamos de um tempo em que as normas, as regras, as leis deixaram de ser pensadas pelos sábios, para serem editadas pelos medíocres.
Com o desaparecimento dos notáveis e a ascensão dos ignorantes, peças como a Declaração Universal dos Direitos do Homem – “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos...” –, por exemplo, estão se tornando obsoletas, arcaicas, gastas.
Aliás, com essa turma que aí está – em Brasília, no Rio Grande do Sul, em todos os lugares –, com a sua paixão por cursos de aproveitamento duvidoso, por passeios levianos, pelo gasto fácil do dinheiro público, não é difícil prever que a próxima Constituição do Brasil e as novas Leis Orgânicas dos Municípios, quando editadas, venham a começar por um texto bem mais de acordo com a vida moderna e com os interesses dos astutos “sábios” da atualidade.
Dá até para imaginar o artigo primeiro:
Art. 1º - Ficam definitivamente liberadas as diárias.*
Revogam-se as disposições em contrário.
Alguém duvida?
* Para que se entenda: os Vereadores da pequena e pobre Arroio Grande foram os “campeões” da região sul em diárias, nos anos de 2010/2011, segundo pesquisa divulgada. A maioria justifica a retirada das diárias para fazer “cursos de aperfeiçoamento” (média de um por mês) em Porto Alegre.

Publicado no Jornal "A Evolução", edição de aniversário (Fundação 05.02.1933) em 03.02.2012.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

CLUBE INSTRUÇÃO E RECREIO - CLUBE DO COMÉRCIO (2-2-1902)

O Clube do Comércio de Arroio Grande, nascido Clube Instrução e Recreio em 2-2-1902, está completando 110 anos neste dia 2-2-2012. A primeira fotografia (abaixo) é centenária, foi tirada exatamente em 1912, sem precisão do dia ou do mês. A segunda fotografia é atualíssima e mostra a deterioração do prédio da instituição, ainda que a mesma se mantenha com atividades eventuais. As duas últimas fotografias são de placas comemorativas, que atestam a data da fundação e o centenário do Clube do Comércio, ocorrido em 2002.



domingo, 22 de janeiro de 2012

HERMENEGILDO-ARTIGOS

No mês de março de 1989, durante quatro dias, alguns homens oriundos "da cidade" - o Juiz de Direito Fernando Grassi, o Promotor de Justiça Fausto Domingues, o Advogado Passinhos e o Bancário "Biriba" - experimentaram uma espécie de "retiro" na casa de praia do advogado e poeta Pedro Bittencourt, no Balneário do Hermenegildo, na companhia do próprio Pedro e de alguns personagens da Praia, como os declamadores Roger Viana e Adílson Feijó, o músico Menandrinho Corrêa, pescadores, cozinheiros, artistas e arteiros de toda a espécie.
A experiência da confraria foi contada por Fernando Grassi no jornal "A Opinião Pública", de Pelotas, em dois artigos publicados nas edições de 9 de abril e 15 de abril de 1989 (abaixo) e entra para a história como mais um registro dos que experimentaram a paz, a tranquilidade e a magia do velho Hermena, em qualquer tempo.

(Para melhor leitura, segue reprodução dos artigos no post abaixo, com o título Hermenegildo-Testemunho, texto escrito pelo Grassi pai e enviado pelo Grassi filho, que, salvo engano, também esteve presente ao encontro). Boa leitura.

HERMENEGILDO-TESTEMUNHO(I)

HERMENEGILDO
Fernando Rosa Grassi

Durante quatro dias, experimentei as solidões da praia do Hermenegildo, na casa do amigo Pedro Jaime Bittencourt. A praia, simples e agradável, fica a poucos quilômetros do ponto que marca o fim geográfico do Brasil, o Arroio Chuí. A vila estava quase deserta num mês de março quente e seco. O dono da casa é advogado-poeta ou poeta-advogado. Mais poeta que advogado, penso eu. Naquelas lonjuras, ele fica boa parte do ano, num exílio voluntário. Alguns poucos fugitivos mais fazem-lhe companhia, formando uma comunidade insólita, atípica e original. Optaram por um isolamento incrível, mas lírico.
Um desses estranhos personagens era funcionário do Banco do Brasil em cidade distante. Tinha mais de quinze anos de casa. Certo dia tomou emprestado o carro de um colega e foi visitar sua terra natal, Arroio Grande. Após misteriosa conversa com Pedro Jaime, telefonou para o amigo propondo uma troca invulgar. Ele ficaria com o carro que trouxera e o colega tomaria posse da casa de sua propriedade, na cidade onde trabalhavam. Proposta aceita, tratou de exonerar-se do banco e refugiou-se na praia do Hermenegildo, de onde raramente sai. E lá está ele. Há mais de dez anos.
Mas as singularidades não são privilégios dessa bizarra e espontânea congregação. A casa de Pedro Jaime apresenta notável excentricidade. As paredes externas estão inteiramente cobertas por pinturas e desenhos que vão desde o academicismo clássico até o mais descomedido surrealismo. Na fachada, canto superior direito, uma indicação: “Rua da Maré Vermelha – nº Único”. De longe a casa chama a atenção pelo inusitado. No interior, as paredes e o forro da parte social tem a superfície totalmente ocupada por versos, pensamentos, frases de conteúdo, ora provocando o riso, ora desafiando a inteligência. Quase tudo é de autoria do ilustre dono. Essa literatura-mural já está invadindo os quartos e, por certo, tomará conta dos banheiros.
O piso de entrada, ao abrir-se a porta, num retângulo negro que avança para o interior da sala foram pintadas várias flores. Entre elas, em letras amarelas, lê-se: “Entra. Quero que minhas flores te conheçam... Não passa agora. Pára. Observa o teu corpo ficar inalterado. Segue então a canção das flores; vida a deslizar sob os teus pés”.
Já disse o genial Chesterton que “o doido é aquele que perdeu tudo, menos a razão”. Por isso, ninguém pode tirar conclusões apressadas sobre a forma de vida, a idiossincrasia de Pedro Jaime e sua irmandade de exilados. Deve-se aceitá-los, se não se puder entendê-los.
(Publicado no jornal A Opinião Pública, de Pelotas, em 09.04.1989)

HERMENEGILDO-TESTEMUNHO(2)

HERMENEGILDO (final)
Fernando Rosa Grassi

Sentem-se bem quando, encerrado o veraneio, vivem uma verdadeira colônia de asilados. Aliás, só então vivem com maior intensidade, solitários, naqueles ermos. Quando a população da vila rareia ao extremo, são eles os donos de tudo. Possuem a terra e o céu, o mar e os peixes, o vento e a solidão, pois tudo isso é de ninguém.
Nessa época atingem o nirvana. Não há vizinhos, nem banhistas, nem nada que agite essa sociedade meio absurda, mas real e, por esquisita, fascinante. Se o dinheiro escasseia, o mar provê a despensa. Mas tudo isso não seria possível se todos fossem contemplativos e poéticos pensadores. Gente pouco prática, geralmente. Eles têm um parceiro que garante a existência da extravagante associação. É o Roger. Roger é o executivo, o primeiro-ministro. É ele quem faz as compras, que pesca, cozinha, lava e arruma tudo. Providencia o mate e o aperitivo. Troca uma lâmpada e conserta a fechadura. E quando a noite desce, ainda anima as tertúlias, declamando, em perfeito espanhol, lindas poesias com sentimento incomum. Sem ele, não sei se seria possível a reunião, em tais circunstâncias, de pessoas tão extraordinárias. Não teriam tempo, acredito, nem para pensar, debater e escrever frases e poesias pelas paredes. Como estas:
“Errada não é a cigarra que não trabalha; errada é a formiga que não canta”.
“O perdão tirou toda a graça do pecado”.
“Lamento muito, mas um dia eu tenho de deixá-los... Quando isso ocorrer, por favor, não me levem a mal... Desde já declaro que partirei absolutamente contrariado”.
“Basta amar-te para ser menino”.
“Todo avô é apenas o neto que ficou mais velho”.
“Posso dar-te um livro, uma flor, um beijo... coisas de que gostas... Mas a felicidade eu não te posso dar... porque a felicidade que eu tenho és tu... e se eu te der para ti, fico pobre... pobre... pobre...”
“Sou o último menino que me resta... Não permitam que ele cresça”.
“Até partir não quero envelhecer”.
“O dilúvio não deu resultado. O mundo continua igual”.
Só um louco pode ser sempre feliz. Não me lembro quem afirmou essa verdade. Acho que foi um russo. Realmente, a frase fica muito bem na boca de um personagem de Dostoievski. Não se pense porém, que os integrantes do estranho congresso que se reúne na praia do Hermenegildo tenham alcançado tal grau de alienação.
Mesmo à distância continuam ligados ao mundo. Escolheram uma vida simples e sem complicações. Reduziram ao mínimo ou a zero a cota de vaidades comum a todos os homens. Vivem essencialmente livres.
Liberdade! Esta é a palavra-chave. Junte-se a natureza à liberdade e, creio, está decifrada a receita para comportamentos aparentemente enigmáticos.
Pedro Jaime é um poeta de rara sensibilidade, como dizem os críticos literários. Mas ninguém vive só de poesia. E, volta e meia, como advogado, está envolvido no emaranhado de processos judiciais, por onde passam todas as misérias morais dos habitantes deste vale de lágrimas. Mesmo à beira-mar, posso imaginá-lo, cismarento, pensando como qualquer normal, em tudo o que poderia ter sido e não foi.
Alguém já disse, gracejando, que Pedro Jaime é um E.T., expatriado de seu planeta de origem, por inadaptação social. Não duvido. Talvez tenha difundido por lá as idéias que Proudhon, Bakunin e Kropotkin andaram espalhando por aqui. Talvez, às vezes, sinta terna saudade de sua querência estelar. E uma pergunta fica sem resposta: por que teria escolhido a Terra?
Por fim, mais algumas pílulas douradas extraídas das portas e paredes do excelente relicário dos reclusos:
“Quem tem o mar na porta, conversa com o sol pela janela”.
“Se eu morasse em teu olhar, fechava a porta por dentro”.
“Bem feito que eu te adoro”.
“Que a foice não ceife a flor, nem o martelo quebre a viola”.
“O furto é apenas uma recuperação parcial”.
“Desde que levaste a minha solidão, eu não consigo mais ficar sozinho”.
“A manhã que chega traz de volta o dia que se foi”.
“Sou louco e provo”.
Numa porta: “Se é para fechar-me, então por que me abres?”.
“Estou doente, doente de tudo. Dos olhos, da boca, nos nervos até. Dos olhos que viram mulheres formosas. Da boca, inchada de fumo e café. Estou doente, não posso escrever... Eu quero a doçura do verbo viver”.
“Quem não tenta voar, morre no chão”.
“Casar é bom, o diabo é permanecer casado”.
“Antes nunca do que tarde”.
“Quem proíbe o que é bom, torna-o muito melhor”.
“Só porque você tem 50 anos, não é obrigado a ter 50 anos”.
“A taça vazia não é doce nem amarga”.
“O verso mais triste é o que eu não soube dizer no momento em que te perdia”.
“Não há tempo mais feliz que o tempo que passou”.
“Tristes não são os que a tristeza tem, Encerrada em seu olhar tristonho; Tristes são os que sonham com alguém, Que existe apenas em seu próprio sonho”.
“Acordas em mim o menino, Que há muito tempo o destino, Levou prá longe de mim...”
Acreditem, eu vi e dou meu testemunho. Que magnífico Templo para tão formidável confraria!
(Publicado no jornal A Opinião Pública, de Pelotas, em 13.04.1989)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

HERMENEGILDO

Faces da Praia do Hermenegildo - Onde termina o Brasil e começa o Paraíso...Hermenegildo - 1967


Hermenegildo - Inverno

Hermenegildo - Ciclone

Hermenegildo - 2008

Hermenegildo - 2010

Hermenegildo - 15 de janeiro de 2012

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

2011/2012









Fim de ano, começo de ano... Paz, saúde, trabalho. Vida, arte, família. Amigos, amigos e amigos. E nada mais!