sexta-feira, 10 de julho de 2009

EM EXTINÇÃO

Foram inúmeras as manifestações que recebi dos leitores por ocasião da crônica “Mocotó de Carroça”, publicada neste espaço. Na sua maioria, adotando o espírito do texto e declarando: “podes incluir o meu nome no roteiro da tele entrega; mocotó de carroça é ótimo!”. Todos, é bem verdade, gente da minha geração, ou com mais de quarenta anos, no mínimo.
É claro que isso tem uma razão, pois a geração do hot-dog, do xis; a turma do fast-food, do buffet a kilo; o pessoal da granola, do grão de bico, jamais vai entender o valor de um bom mocotó, ou o que esse prato representa para nós, herdeiros de uma culinária que veio ainda do século retrasado.
Somos do tempo em que comer bem não era cortar gordura, condimentos ou colesterol; somos de uma época de pratos simples, mas fortes, temperados, carregados de “sustância” e que hoje são raros e beiram ao exótico.
Além do mocotó, somos do tempo também da murcilha, do sarrabulho, do queijo de porco e do pão com torresmo, iguarias quase impossíveis de encontrar hoje em dia, mas que possuíam os seus criadores, os seus especialistas aqui mesmo no Arroio Grande.
O sarrabulho, por exemplo, um típico prato português preparado à base de miúdos, fazia sucesso nas mãos da Maria do Mário, e resta imortalizado na minha lembrança recheando o peru de Natal, ou ao lado de uma galinha ao molho pardo, numa estranha combinação que o meu pai encomendava e que só a Maria do Mário sabia fazer.
Já a murcilha, ao lado da melhor linguiça do Arroio Grande, era feita pelo Negro Gregório, o Seu Gregório, que trazia o produto de carroça lá do Passo do Simão, e tinha entre as suas criações o inigualável queijo de porco que desmanchava na boca de tão macio. Pois o Seu Gregório - de quem eram clientes até desembargadores, que vinham da capital comprar a linguiça que haviam conhecido por aqui -, levou com ele a receita quando morreu, e nunca mais se viu nada igual na cidade, não obstante a qualidade dos demais “linguiçeiros” da região.
O pão com torresmo é, talvez, o único sobrevivente dessa época, e ainda pode ser encontrado em algumas padarias da cidade, embora elaborado de um modo menos artesanal que antigamente – como no tempo da Padaria Santos, do Fioravante, ou da Padaria São Luiz, aquela da “sacadinha”, lá na curva da Cooperativa -, quando o torresmo saltava do pão tamanha era a sua quantidade. E tudo acompanhado por manteiga feita em casa, ou pelas butifarras compradas no Uruguai, numa época em que as fronteiras não representavam qualquer perigo à saúde dos cidadãos.
Queijo de porco, murcilha e sarrabulho; pão com torresmo, manteiga caseira e patê gordo, não recordo de ninguém que tenha morrido, entrado em coma ou adoecido gravemente por consumir tais iguarias, todas hoje abandonadas, raras, inacessíveis. Todas em extinção, como um tempo que, certamente, não nos será jamais devolvido.


quinta-feira, 9 de julho de 2009

"GASTRONOMIA"

Alguém lembra do sarrabulho e da galinha ao molho pardo feitos pela Maria do Mário, a Mãe do Jamanta? E do queijo de porco, da murcilha trazidas pelo Negro Gregório, que fazia a melhor linguiça da região? E do pão com torresmo, dos tempos da antiga Padaria Extra (acima), ou da Padaria do Fioravante - que marcou época como o maior especialista em pãos da cidade -, ou da Padaria São Luiz (abaixo), que ficava lá perto da Cooperativa?
Pois essa antiga "gastronomia", que não se vê mais por aqui (e em lugar nenhum!), estará na próxima crônica do blog -"Em Extinção" -, no próximo fim de semana aqui na página.
É de dar saudade, e água na boca também.




terça-feira, 7 de julho de 2009

AS RUAS DA MINHA CIDADE (IX)

Avenida Nossa Senhora das Graças - sentido Ponte Carlos Barbora (clique na imagem para ampliar)
A Avenida Nossa Senhora das Graças revela um dos locais mais bonitos do Arroio Grande, e, não obstante, é uma via estranha, com ares de zona rural, mas situada muito próximo ao centro da cidade, ficando a apenas três quadras da Rua principal, a Dr. Monteiro.
O nome já surgiu causando certa confusão, pois Nossa Senhora das Graças é uma invocação diferente de Nossa Senhora da Graça, padroeira do Arroio Grande*, e para quem a cidade pretendeu render sempre todas as homenagens.
Só que a antiga Avenida Brasil, que chegou a ser chamada de Avenida Presidente Vargas por escassos 2 meses (de 31 de agosto até 5 de novembro de 1956), acabou, por força do Decreto Legislativo n° 30 (de 05/11/1956), recebendo mesmo o nome de Nossa Senhora das Graças, denominação que perdura até hoje.
E é uma Avenida belíssima, toda ela arborizada, com ótima largura para abrigar os seus canteiros cantrais, apesar de pequena em extensão. Neste sentido, separa o lado Norte da periferia da cidade – em direção à Vila Silvina, ao “Prado”, à “estrada velha” que fazia o antigo acesso para quem se dirigia à Vila Matarazzo, a Pedro Osório e Pelotas – do lado Sul – através da Ponte Carlos Barbosa, que corta o arroio Grande, em direção à antiga estrada que ligava à Jaguarão, atual caminho para o Bairro Promorar, para o Passo do Simão e o Capão das Pombas.
O deslocamento do trânsito de veículos para o lado leste do município depois da inauguração da BR 116, no início dos anos 1970, possibilitou a conservação da Av. N. S. das Graças nas suas melhores condições, mantendo-se aquele trecho ainda hoje como um lugar extremamente saudável, propício ao ciclismo, a passeios e a caminhadas, praticamente um Parque aberto, em pleno coração do Arroio Grande.
* Para tentar esclarecer minimamente a confusão, com os parcos conhecimentos de Religião do autor, Nossa Senhora das Graças (nome dado à Avenida do Arroio Grande) é uma invocação pela qual é conhecida a Virgem Maria - a Nossa Senhora, mãe de Jesus de Nazaré, segundo as escrituras -, surgida somente a partir das graças atribuídas à Virgem por visões de Santa Catarina Labouré, em Paris, França, em 1839; já Nossa Senhora da Graça (nome da padroeira da cidade) seria uma denominação mais antiga, bem anterior a essa invocação da Virgem Maria, o que remonta aos primórdios da criação da Vila do Arroio Grande.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

DIVÃ

Não sei se compreendi bem o recado do filme Divã, baseado no romance homônimo da Martha Medeiros. É uma história simples, cheia de lugares comuns, quase uma decepção como filme. O seu maior mérito está, talvez, em “surpreender” com o óbvio, já que as metáforas (se é que elas existem) não funcionam bem na história.
E o óbvio se revela avassalador quando a personagem Mercedes – uma quarentona simplória, vivida por Lília Cabral, que tal qual adolescente acha que a felicidade pode aparecer em qualquer esquina... - se despede do divã, quer dizer do analista, descobrindo que “vida é falta de definição; não tem a porta certa, não tem o mapa da mina, o mapa muda toda hora...”.
Simples, né! Pois o mundo é isso mesmo e nós somos postos à prova uma, duas, mil vezes. Várias portas se abrem e a gente escolhe: entrar em uma, ou em várias delas. Um trabalho só ou diversos? Bater cartão ponto na mesma repartição por 30 anos, ou correr mundo, correr perigo? Um amor, ou múltiplos amores? Um casamento ou dois, ou quatro ou cinco? Dizer “sim”, ou dizer “não”; viver exposto, ou fechar-se; dar ou não dar?
Todas essas portas se abrem diariamente para nós, aos 20, aos 40 anos, pela vida toda. E onde está a porta da felicidade, afinal? Estará na primeira que a gente abre, na segunda, ou naquelas que a gente desviou e não tentou abrir? A resposta parece óbvia, já que a felicidade só pode estar mesmo é na decisão que a gente tomou, seja ela qual for, embora isso não elimine o direito de querer mais, ainda que a gente não saiba direito o que é esse “mais”, que todo mundo busca, mas que ninguém conhece.
Ninguém pode ser feliz se não compreender bem a própria vida, se perder o interesse pelas escolhas que fez e viver remoendo as escolhas que deixou de fazer. Pouco importa, na verdade, se tivemos um ou mais trabalhos, um ou mais amores, um ou mais casamentos; pouco importa se vivemos sempre no mesmo lugar ou se corremos o mundo. Existem ricos frustrados e pobres realizados, existem cultos depressivos e iletrados bem resolvidos; existe gente feliz e gente infeliz tanto em Arroio Grande como em Paris.
Quanto ao romance da Martha, não sei por que não li, mas Divã, o filme, se não convence quando tenta mostrar que “o importante não é ser feliz; o importante é ter uma vida interessante” (Mercedes é caricata demais para passar essa mensagem), tem ao menos um mérito: faz com que a gente perceba, com certa facilidade até, que se a gente nunca vai saber de antemão qual é a porta que vai nos levar à felicidade, às portas contrárias – da angústia, da tristeza, da depressão; as portas da infelicidade -, estão permanentemente ao nosso alcance.
Dependendo de como a gente entender isso, aliás – isto é, de que nós não somos o resultado das nossas escolhas, mas o resultado do interesse por essas escolhas -, vai depender também o nosso comportamento diante do filme. Ou a gente acaba abatido, pensando que perdeu as portas certas, ou termina com uma leve sensação de felicidade, pela descoberta das escolhas que fez.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

"NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO"

Não sei se compreendi direito o filme "Divã", baseado no livro da Martha Medeiros.
Fiquei na dúvida se o filme apresenta um dilema entre "ser feliz" (mesmo na monotonia), ou viver uma vida mais interessante, mais "perigosa" (mesmo correndo o risco de ser infeliz, o que, afinal, todos correm), na aventura; ou, ainda, se a mensagem do filme é a de que a felicidade está na compreensão das escolhas da gente, sejam elas quais forem.
Não sei, fiquei na dúvida mesmo quanto ao recado do filme.
Por isso, vou dar um pitaco sobre o tema na próxima sexta-feira; aqui na página, e, quem sabe, também às fls. 3 do jornal "A Evolução".
(*) A frase do título vem, parece, dos antigos navegadores de Florença; já Fernando Pessoa dizia (parece também) que "viver não é necessário, o necessário é criar"´, assim como alguém (?) já disse que "o que importa não é ser feliz, mas viver uma vida interessante". Será???

segunda-feira, 29 de junho de 2009

HISTÓRIAS (IX) - DON PEPE

O senhor aí da foto se chama José Mujica, conhecido por Pepe Mujica, Don Pepe.
É Senador da República Oriental do Uruguai, e acaba de ser indicado pelo seu partido, o Frente Amplio - uma coalizão de esquerda que atualmente ocupa o Governo do país com Tabaré Vasquéz -, para disputar a Presidência da República, nas eleições de outubro próximo.
Conheci pessoalmente Don Pepe em 1998, na Sala que ele mantinha na Assembléia do Uruguai, quando era ainda Deputado, sempre eleito pelo Frente Amplio.
É o único político com quem conversei pessoalmente – incluindo na comparação nomes como os de Olívio Dutra e do próprio Lula – que mantém a mesma postura, a mesma autenticidade dos seus tempos de líder sindical, não perdendo nunca a simplicidade que se revela nos hábitos que mantém há mais de 50 anos (Mujica tem 74), como, por exemplo, fumar cigarro palheiro, usar jeans desbotado, camisa “desengomada” e aberta à altura do peito, e dirigir o próprio veículo, primeiro uma lambreta, que mantinha como deputado, e, depois, um fusca, adquirido quando chegou a senador.
Pois Pepe Mujica, quando eleito pela primeira vez Deputado Federal no Uruguai, chegou ao congresso para a posse pilotando uma “vespa”, e foi estacionar no local destinado aos veículos dos parlamentares.
Não tendo sido reconhecido pelo guarda do estacionamento em razão do capacete que usava, foi por este abordado e inquirido, de maneira incisiva:
“Acá no puede, Señor” – disse o guarda, perguntando logo em seguida: - “Piensa en quedar-se por mucho tiempo?”.
Mujica, que havia sido torturado e preso, vivendo por cerca de 14 anos na prisão durante a ditadura militar uruguaia, respondeu, enquanto tirava o capacete:
- “Bueno, se los milicos no me sacán, pienso em quedar-me por lo menos cinco años”.
(Cinco anos é o prazo de um mandato parlamentar no Uruguai)
Que Don Pepe tenha a acolhida e o reconhecimento do povo uruguaio nas eleições de outubro, e fique pelo menos os próximos cinco anos na Presidência do vizinho país; a história de lutas da nossa América, secularmente governada por elites, bem que o merece.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

CONSTIPAÇÃO

Última semana de junho, entrada do inverno, época de chuva e frio por aqui. Tempo de gripe, gripes de todos os tipos, e que não precisam ser necessariamente a suína ou a aviária para meter medo.
A propósito de doenças, aliás, dia desses ouvi uma pessoa dizer que só tinha medo do câncer. O quê??? Mas, e as outras doenças? E o diabetes, o Alzheimer, a Hepatite, o mal de Parkinson, a asma, a pneumonia, e as gripes, hein? E as gripes? Tá certo que o câncer é o bambambam das doenças, é o avião que cai, o desastre aéreo, é a guerra. Mas, e as outras? E a dengue, a malária, e o escorbuto? E as doenças exóticas, as bizarras, as doenças raras?
E as síndromes, então? Pode alguém não ter medo das síndromes? Síndrome do pânico, Sindrome de Cockayne (que alguns podem até confundir com aversão a determinado pó), uma doença que afeta por excesso de sensibilidade à luz solar e acaba causando envelhecimento prematuro; síndrome com nome de motocicleta, como a Síndrome de Kawasaki, uma vasculite que provoca aneurismas, principalmente nas artérias coronárias.
As síndromes, alguém já disse, são tão terríveis que deveriam ir para o final da lista das doenças, e iriam, não fosse o alfabeto permitir ainda a septicemia, o vitiligo, e, também, a yersiniose - a “peste bubônica” - que só podia mesmo ter esse nome tenebroso. E a gente não vai ter medo de um troço desses?
Pois eu tenho medo de tudo. De tosse, de pigarro, de bronquite, de enfarto e das gripes, claro.
Porque tudo tem os seus perigos e até o que parece ser o mais inocente dos problemas - soluço demasiado, unha encravada, dedo destroncado -, pode se transformar numa tragédia iminente, como quando diante da constipação. A constipação, ao contrário do que muitos pensam, não é uma pequena gripe, mas uma prisão de ventre, que, dependendo do grau, dá uma indisposição danada, sabiam?!! Pois ta lá no google: (fulano) constipado, passou mal...
Pois o influenza, o nome científico do vírus da gripe, também mata, se a gente deixar. E essa gripe que dá agora, então, no começo do inverno, e que nos deixa com os olhos inchados, o nariz entupido, a garganta inflamada, o aspecto doentio, e a gente se explicando: - É a gripe! – sem que ninguém dê a importância devida à nossa doença, achando normal essa coisa grave, gravíssima, terrível que nos acomete.
Ta certo que não é tão cruel como às outras, não é tão bambambam, tão desastre de avião. Mas que dá para dar uma valorizada, ah, isso dá, ainda mais com esse tempo danado, ainda mais na beira da lareira, com um bom par de coxas para se encostar, com cobertor de orelha para deitar e a gente reclamando: “coisa terrível essa minha gripe!”, até enquanto a noite durar, até o novo dia chegar, até o influenza ir embora...

terça-feira, 23 de junho de 2009

O QUE VEM POR AÍ

Última semana de junho, entrada do inverno, frio e chuva aqui nesta Zona de Fronteira.
Época de doenças, indisposições, resfriados e gripes de todos os tipos no extremo sul do país.
Depois das ruas da cidade, depois do vinho tinto, depois do mocotó, as doenças são o tema do próximo texto do blog.
É sexta-feira, aqui na página, no auto retrato (agora, com a reforma ortográfica, autorretrato - irgh!).

sexta-feira, 19 de junho de 2009

MOCOTÓ DE CARROÇA

Terça-Feira, dezesseis de junho, nove e meia da noite. Na Dr. Monteiro, três adolescentes ocupam ruidosamente a esquina da Adolfina, dividindo um chimarrão. No encontro com a Zeca Maciel, dois homens dobram em direção à Liga Operária. Logo adiante, a sinaleira aberta, o Super do Povo fechado e uma mulher atravessando a Praça, rumo talvez ao Bairro Promorar. E só. O Arroio Grande está assim, seis, sete, dez almas na rua principal à noite, não mais do que isso.
Em compensação, não há vagas para o serviço de tele entrega de lanches na cidade. Tudo ocupado. É bauru do Maneca, bauru da Fátima, bauru do Orelha, bauru do Geco, bauru do Aroldus, bauru da Gorda, bauru de todo mundo. E mais: xis, cachorro, torrada; pizza do Castija e agora pizza do Donatellu’s, que está por inaugurar. Tudo com tele entrega, e ninguém sai mais de casa, para nada.
O tele entrega tomou conta da cidade. Prático, rápido (?), seguro; basta à gente discar, esperar, preparar o dinheiro e, pronto! Um lanche quentinho ao lado da lareira ou da estufa.
Mas a novidade agora é que estão anunciando tele entrega de mocotó. Isso mesmo, de mocotó! Eu fiquei pensando: como? De moto é que não pode ser, para evitar que o mocotó fique chacoalhando pelo calçamento irregular, protegido apenas por uma caixinha de isopor. Não, de moto não, não é o ideal. De carro também não dá, fica muito caro a entrega, o custo não compensa para o vendedor.
Fiquei imaginando então a entrega do mocotó de carroça, como era feito com o leite, e com a água - vendida pelos aguadeiros - nos velhos tempos. Isso mesmo, entrega de mocotó de carroça, que interessante! Primeiro que incentiva um meio de transporte politicamente correto, mais ecológico; segundo, que gera atividade para os carroceiros também à noite; terceiro que aqui, na zona de fronteira, carroça combina melhor com o mocotó do que carro ou moto, por supuesto.
Tele entrega de mocotó de carroça, que espetáculo! Se tiver eu vou querer. Pode até ser com escala, em combinação com a clientela devidamente cadastrada pelo comerciante.
Se for do Felipe, por exemplo, o mocotó sai lá da frente do Campo do Arroio Grande, passa primeiro pelo Sérgio Canhada, ali perto da Rodoviária, em seguida lá em casa, na Herculano de Freitas; depois vai até o Arnóbio, ali do lado do Valdoir, aproveita e já oferece um prato para o vizinho Dr. Farydo, e segue em direção ao Donga, já lá quase no Acampamento Farroupilha, cruzando por diversos clientes no caminho e deixando o prato ainda quente, novinho, sem comprometer o sabor.
Tele entrega de mocotó de carroça, que maravilha! Seria sucesso, com certeza. Dá até para aproveitar a tecnologia e fazer os pedidos por e-mail, por msn, e inclusive criar uma comunidade no orkut: - Mocotó de Carroça, é animal!!! Alguém se habilita?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

TELE ENTREGA

Tele entrega de Mocotó? Em Arroio Grande tem.
Amanhã, aqui na página e no Jornal "A Evolução", uma idéia original para adaptar o prato ao meio de transporte mais adequado e a clientela. Será que vai colar? É de conferir, nesta sexta, aqui no auto retrato.

terça-feira, 16 de junho de 2009

HISTÓRIAS (VIII) - ENSINANDO A CASA

O meu avô Guadil Bittencourt era um castelhano letrado, natural de India Muerta, lugarzinho do Departamento de Rocha, leste do Uruguai.
Nascido em 1901, o “Velho Guadil”, como nós o chamávamos, terminou a vida depois de conviver por mais de década com um tumor na próstata, morrendo em 1977, aqui pertinho, em Jaguarão.
Filho de camponeses, tendo cursado os seus estudos em Rocha, Guadil trabalhou em La Paloma e no Chuy, neste como Escribiente de Policia, e, mais tarde, como funcionário da Alfândega uruguaia.
Paralelamente, escreveu para vários jornais de Montevideo, como o tradiconal El País, e também do interior do Uruguai, tendo sido fundador do Jornal “El Chuy”, e do Jornal “Renovacion”, este na cidade de Rio Branco, fronteiriça a Jaguarão.
Em 1931, Guadil casou com a minha avó, a Professora Delícia Ramis, dez anos mais nova que ele. Tiveram um casal de filhos: minha tia Tereza, e meu pai, Pedro Jaime Bittencourt.
Em seguida ao casamento, Guadil aproveitou uma saída do serviço aduaneiro e se dirigiu, na companhia de alguns amigos, para um cabaré famoso da fronteira, inspiradíssimo para uma noitada de farra.
Ao entrar no cabaré, porém, Guadil vislumbrou a presença de dois irmãos solteiros da minha avó – tio Napoleão e tio João – com quem não tinha lá tanta intimidade para escancarar a cafajestada.
Visto de imediato pelos cunhados, Guadil, rápido e sagaz, empurrou os amigos que o acompanhavam para dentro do salão, e fingindo que sequer se apercebera da presença dos irmãos da sua mulher, gritou em alto e bom som, para todo o cabaré ouvir:
“Bueno, já lhes enseñe la Casa ahora me voy”.
E se foi, como se nada daquilo tivesse a ver com ele.
Foi uma saída inteligente, é verdade, mas meu avô pagou e muito por ela. Com o passar do tempo, o meu pai, sabedor da história pelos tios, jamais o “perdoou” e viveu anos gozando “o Velho”, entre um e outro veraneio, entre um e outro jogo de truco, lá na Praia do Hermenegildo, quando, por qualquer motivo, costumava provocar:
“Bueno (papá), já lhes enseñe la Casa ahora me voy”.
Ao que o Vô Guadil, rabugentíssimo, respondia:
“Más respecto, más respecto que soy tu padre, carajo!”

sexta-feira, 12 de junho de 2009

DEPOIS DO VINHO TINTO

Eu não gosto da expressão emprenhada
No seu sentido usual:
de gestação, gravidez, concepção.
Não gosto assim, não gosto mesmo,
Não gosto não.
Menos ainda como pejorativo:
Se emprenhou pela idéia,
Se emprenhou pela palavra.
Gosto, sim, como metáfora,
De encher, preencher, como pode ser:
Emprenhada de sedução,
Emprenhada de retórica,
Emprenhada de paixão.
Digo emprenhada, assim, nessa forma assim,
Porque é uma palavra feminina.
Homens não se completam assim,
Não se preenchem, não são prenhes;
Eu gosto da expressão emprenhada
Ditada pelos poetas
Firmada pela intensidade
De uma grande paixão.
Emprenhar-se pode ser assim
(Com ou sem metáfora)
Aproximar os pés no inverno
Juntar os corpos o quanto mais der
E se encher-preencher de palavras
Que logo adiante vão ser esquecidas
Por tudo mais que virá
Depois do vinho tinto

terça-feira, 9 de junho de 2009

ALGUÉM VIU?

Mangabeira Unger (foto), Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Lula, concedeu, no último domingo, no Programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes, uma das mais extraordinárias entrevistas já vistas na televisão brasileira, referindo, acima de tudo, um projeto realmente pensado para o Brasil nas próximas décadas.
Chama a atenção em Mangabeira a clarividência com que enxerga soluções para os problemas que afligem o País, de uma forma que as demais pessoas não vêem. Ele tem um pensamento, uma facilidade de raciocínio e argumento notáveis, que revelam toda a sua formação de intelectual, mas, especialmente, de filósofo, de pensador.
O cidadão Mangabeira já pensava o Brasil como ninguém, e agora, como Ministro, passou a conhecer o País como poucos, tendo uma visão impressionante sobre os problemas e especialmente quanto às soluções para os males que afligem a nação.
Tudo isso levou o jornalista Paulo Sant'anna, a dedicar dois dias de rasgados elogios a Unger nos espaços que ocupa junto à RBS:
"saí domingo passado do programa Canal Livre profundamente apaixonado por um homem: Mangabeira Unger, ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo Lula";
"não há outro brasileiro que tenha a visão estratégica de desenvolvimento de países, a erudição política, a riqueza de vocabulário que possui este homem impressionante";
"este homem de sotaque estrangeiro arrevesado e comportamento por vezes estranho (nunca foi visto sem vestir paletó) é dono de uma sabedoria ímpar, de uma cultura incomparavelmente robusta e de uma sabedoria política notável";
"não há no Brasil quem detenha mais conhecimento do que ele. Sua visão sobre todas as questões humanas e planetárias é tão genial, que não há dúvida de que ele está pronto para ser um estadista de repercussão fenomenal" - disse Sant'anna.
Vi também os 90 minutos da entrevista de Unger para o Canal Livre e tive a mesma impressão do Paulo Sant'anna, a respeito das extraordinárias qualidades do Ministro.
Pena que de todas as pessoas com quem conversei aqui no Arroio Grande nenhuma delas tenha assistido a entrevista de Mangabeira, pena mesmo, por tudo.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

DEMOCRACIA

Já nasceu morta a Proposta de Emenda Constitucional do Deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), que previa a possibilidade de duas reeleições para o Presidente Lula e também para os atuais Governadores e Prefeitos. Pressionados pelos seus partidos (o PT inclusive), alguns Deputados retiraram as assinaturas, ficando a proposta com número insuficiente para prosseguimento. A PEC agora deverá ser arquivada, felizmente.
Embora a proposta do terceiro mandato possa até vir a ser considerada democrática – no caso, previa um referendo, para que a população decidisse -, verdade é que o Brasil tem que parar de vez com essas coisas de querer mudar toda hora as regras do jogo, como fizeram anteriormente Sarney e Fernando Henrique, e como se espera não venha acontecer com Lula. Se o País vive realmente o amadurecimento democrático, deixemos as coisas como estão na ótima Constituição de 88, com o que já estará bom demais.
Se o legado do Governo Lula for realmente bom, o País continuará igualmente bem, independente de quem venha a ser o seu sucessor, seja ele Dilma ou Serra, ou qualquer outro. É isso o que realmente importa, e não o personalismo da “tri-eleição”, primeiro passo para a reeleição indefinida e para o totalitarismo. Ninguém pode esquecer que o terceiro mandato valeria também para os Estados e os Municípios, com o que dá para imaginar o “estrago” que pode ser um mesmo Prefeito (acompanhado do mesmo grupo político) por doze anos, depois o seu vice por mais outros tantos, e por aí vai. Isso não lembra uma certa prática que a gente tanto combatia nas décadas passadas?
Sempre que acontece essa coisa de travestir “golpes” em nome da democracia, me socorro da literatura de Eduardo Galeano, na sua obra “De pernas pro ar – A Escola do Mundo ao avesso”, onde o escritor uruguaio revela alguns truques (de linguagem) que visam dar outra roupagem ao que de pior existe por aí. É dele o texto que segue:
“(Hoje) o capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado; o imperialismo se chama globalização; as vítimas do imperialismo se chamam de países em desenvolvimento; o oportunismo se chama pragmatismo; a expulsão de meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de evasão escolar; o direito do patrão de despedir o trabalhador sem explicação se chama flexibilização do mercado de trabalho; os direitos das mulheres são direitos das minorias, como se a outra metade da humanidade fosse a maioria; o saque de fundos pelos políticos corruptos atende pelo nome de enriquecimento ilícito; chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis; bombas não são bombas, mas artefatos que explodem; um grupo paramilitar assassino da Colômbia chamava-se Conviver, outro de Chiapas, México, chamava-se Paz e Justiça; Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia...”.
É por isso que não dá para imaginar a Democracia travestida de nada que não seja verdadeiramente democrático. E a “tri-eleição” não parece ser, definitivamente.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

TERCEIRO MANDATO - QUEM VAI QUERER?








A discussão sobre a hipótese do chamado "terceiro mandato". A possibilidade da dupla reeleição para Presidente da República, Governadores e Prefeitos. A posição do autor, amanhã aqui no blog e nas páginas do Jornal "A Evolução".